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comboioptPortugal - Rubra - No auge de mais um período de greves dos maquinistas da CP, a Rubra esteve em Coimbra onde entrevistou um revisor que tem acompanhado todo este processo de luta. Lúcio Simões tem trinta e sete anos e trabalha para a CP há quinze anos.


Quais as funções de um revisor?

Um comboio precisa de dois agentes para circular: o maquinista e o revisor – quando há avarias de sinalização somos nós que temos que pedir socorro, assumimos essas funções. Vamos para todo o lado, de Lisboa a Valença do Minho. Se não houver revisor e maquinista, não há comboios. Ao longo do país há imensas estações fechadas e muitas vezes somos nós que cobramos os bilhetes nos comboios – embora não tenhamos muitas condições para o fazer.

E como são os vossos horários?

Tal como os maquinistas, não trabalhamos oito horas diárias. Trabalhamos por turnos de seis a dez horas. Não tomamos as refeições a horas certas. Às vezes andamos sete horas seguidas sem comer. Até seis horas não são obrigados a criar "tomada de refeição". Muitas vezes andamos a sandes. Também às vezes, na Linha do Oeste, vamos na parte de trás do comboio a comer. Os maquinistas muitas vezes fazem-no na cabine. Não temos horários certos. Há muita oscilação. Se for dormir fora tenho que ter nove horas de repouso. Se estiver em casa no mínimo doze horas de repouso. O serviço é contínuo. Não temos fins-de-semana. A nossa semana conta de Domingo a Sábado.

E quando dormem fora como são as condições?

Antigamente existiam os dormitórios. Hoje em dia já ficamos muito em hotéis, mas muitas vezes não existem as condições que precisamos. Por exemplo, às vezes chegamos às vinte e duas horas e não temos sítios para ir comer, temos que levar comida. No hotel não temos sequer onde aquecer a comida. Andamos de um lado para o outro com a trouxa atrás. Chego às vinte e duas horas a qualquer lado e tenho que começar a trabalhar às seis da manhã do dia seguinte.

Fala-se muito das benesses aos familiares dos trabalhadores da CP. Elas existem realmente?

Essas benesses foram criadas ainda no Estado Novo para não aumentarem os salários. Era uma forma indirecta de tentar compensar o não aumento dos salários. Mas isso hoje já não existe. Temos um salário base de oitocentos euros, ajudas de custo por dormirmos fora de cerca de vinte euros. Um prémio de produtividade (assiduidade) de aproximadamente quatro euros e um prémio de deslocação (não vou dormir fora mas faço duas refeições fora) de seis euros. Subsídio de refeição de também aproximadamente seis euros e um seguro de saúde privado. É isso.

Por que esta greve dos maquinistas?

Houve colegas que levaram processos disciplinares mas o que realmente se passou não tem sido explicado pela comunicação social. Havia greve de revisores e a CP para que os comboios não parassem decidiu meter dois maquinistas no mesmo comboio. Queriam que os maquinistas fizessem a função do revisor. O problema é que eles não podem fazer a totalidade do trabalho do revisor, só uma parte. Por exemplo, não podem socorrer uma unidade de motor avariada. Um pedido de socorro depois de executado exige que sejam tomadas uma série de medidas. Têm que se colocar bandeiras e petardos a mil metros do comboio e alguém tem que lá ir. Os maquinistas só conduzem e, segundo as normas, não podem abandonar a unidade motora. Por isso, recusaram fazer o trabalho de revisor e muitos dos processos disciplinares têm a ver com isso e não com os serviços mínimos.

E o que acontece se um revisor ou maquinista faltar?

Dantes tínhamos o serviço de reserva. Agora não há serviço de reserva. Se eu faltar ao serviço não há quem me substitua. Suprimem o comboio. Consoante as situações, se falharmos um comboio e não houver uma boa justificação pode haver um despedimento com justa causa. Se eu tiver um furo no carro ou outro imprevisto qualquer tenho que justificar de todas as maneiras e mais alguma. Suprimir um comboio pode dar direito a um processo disciplinar. É por isso que eu tenho três despertadores.

Quais foram os motivos das greves de Fevereiro e Março do ano passado?

As greves de Fevereiro e Março tiveram a ver com o fim do contrato colectivo de trabalho. Só éramos funcionários públicos quando era para "cortar". Eu trabalhava três feriados e ficava um dia em casa e não me pagavam mais nada por isso. Na greve não se garantiram os serviços mínimos porque cada vez põe menos pessoas ao serviço. A solução era chamar as pessoas que estavam de folga para irem trabalhar, mas não pagavam mais por isso. Ninguém quis ir trabalhar nas folgas sem receber mais, por isso se recusaram.

Que balanço faz dessa greve?

No fim da greve o presidente do conselho de gerência veio dizer que fizeram um estudo e que iam recuar. Mentira! Recuaram por causa da greve. Mas agora voltam a atacar. Por exemplo, já não existem horas extraordinárias pagas. Se trabalhar a um feriado dão o dia, o feriado já não é pago.

Como se organizam os trabalhadores da CP?

Na CP existem mais de dez sindicatos. É o dividir para reinar. A própria empresa é que incentivou a criação de alguns sindicatos. Sempre houve funções distintas na CP e incentivavam a criação de um sindicato por sector. Deixava de ter a força de quinhentos e passava a ter a força de cem. A CP conseguia isto através das benesses que dava a alguns dirigentes sindicais que, por exemplo, passavam a ter três ou quatro dias por mês pagos pela própria empresa para tratar de questões sindicais. Basta três sindicatos assinarem as propostas laborais da empresa e elas entram em vigor. No entanto, O SMAQ (sindicato nacional dos maquinistas dos Caminhos de Ferro Portugueses) é o sindicato mais forte, independente da CGTP.

O SMAQ parece ser um sindicato muito forte...

Temos um fundo de greve. Nós pagamos mais para o sindicato do que a maioria dos trabalhadores. Enquanto a média paga uns por cento, nós pagamos um e meio a dois por cento. A união também tem a ver com isso.

***

Os maquinistas da CP sempre se depararam com inúmeros problemas laborais: condições de trabalho difíceis, quer nas locomotivas quer nas instalações de repouso e centros de trabalho, escalas de serviço por vezes de doze horas de trabalho diário. Ausência dos tempos de repouso mínimo, inexistência de pausas para as tomadas das refeições, obrigatoriedade de trabalho extraordinário diário e mesmo em dias de descanso. A par de tudo isto, a empresa sempre manteve uma atitude repressiva sobre os maquinistas, fazendo recair sobre estes o espectro do despedimento perante um quadro de insuficiências e atraso tecnológico existente nos caminhos-de-ferro que dava origem à maior parte dos acidentes. Por isto, os maquinistas sempre sentiram necessidade de lutar e é o que têm feito ao longo das inúmeras greves a que temos assistido, reivindicando um regime de trabalho específico, um estatuto autónomo para a carreira de condução-ferrovia, exigindo um novo escalonamento no âmbito da grelha salarial. Reposição do prémio de condução, atribuição de subsídios de refeição, de turno e do pagamento de ajudas de custo por repouso fora da sede, exigindo instalações de repouso e de trabalho dignas.

Mais recentemente, o último período de greves a que assistimos durante a época natalícia, que contou com a adesão da totalidade dos associados do sindicato (1200 maquinistas), teve como objectivo contestar os processos disciplinares interpostos pela CP. Desde Janeiro do ano passado as greves da CP já levaram a uma perda de receitas na ordem dos oito milhões de euros. Os maquinistas continuarão a usar a greve como forma de luta até que sejam arquivados todos os processos disciplinares.

Foto: bramblam / Flickr - Alguns direitos reservados.


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