José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira
Lembrei-me destas descrições fabulosas e aflitivas do nosso grande Saramago retratando uma sociedade desmembrada por uma cegueira súbita... Lembrei-me das imagens nos telejornais dos povos famintos de África, recebendo os fardos de comida aéreos e lutando por cada bago de arroz...
Porque foi deveras triste ver, por todo Portugal, no passado 1º de Maio, Dia do Trabalhador, magotes de pessoas apinhadas, em filas intermináveis, à porta do Pingo Doce, uma cadeia de supermercados portuguesa que recentemente mudou a sua sede para a Holanda, e o caos e violência gerados dentro dos supermercados, para aproveitar a promoção de 50% em todos os artigos, em compras de valor superior a 100€.
E as pessoas amotinaram-se e houve incidentes por todo o país e ocorreram agressões entre clientes, foram detidos indivíduos, levados feridos ao hospital... Cai-me o queixo: que país é este?! Seres humanos como animais, enfurecidos, irracionais, de faíscas num olhar louco, como à beira da verdadeira fome, da morte por inanição... Chocou-me ver nos meus conterrâneos tal embrutecimento do espírito, a pouca dignidade que nos resta espezinhada pelo cliente vizinho, eufórico no açambarcamento, como se estivéssemos em tempo de guerra...!
E que pensar do Pingo Doce que, sigilosamente, enceta uma campanha deste tipo, com produtos abaixo de custo? E quase vemos os seus dirigentes sentados no sofá, de charuto no beiço, a rirem-se, vendo imagens da mole encarniçada, lutando por uma lata feijão, e os milhões a entrarem nas suas contas... E, de todos os dias que o ano tem, fazem-no no 1º de Maio... E dizem que não há conotação política de qualquer espécie. E nós acreditamos. Mas que raio de país é este?!
Poder-se-ia dizer: quem tem fome, não tem vergonha! Mas não se trata disso. Quem se desloca ao supermercado e compra 100€ de produtos, não está a morrer de fome. Está, sim, de tal modo cego e sufocado pelas dívidas e pela crise e o desemprego e o medo e a alienação mental que perde a dignidade num carrinho de compras a abarrotar e nas três horas de espera para a caixa.
E diz Saramago na mesma obra: "o que penso é que já estamos mortos, estamos cegos porque estamos mortos, ou então, se preferes que diga isto doutra maneira, estamos mortos porque estamos cegos".
Foto do Diário Liberdade - Polícia protege Pingo Doce em Lisboa durante as manifestações de 1º de maio.

