"A nova publicação de documentos da Santa Sé e de documentos privados do arquivo papal já não se apresenta como uma discutível - e objetivamente difamatória - iniciativa jornalística, mas assume claramente a notoriedade de um ato criminoso", diz o comunicado. "Os direitos pessoais de privacidade e liberdade de correspondência não só do Santo Padre, como também de numerosos colobadores a quem ele enviou as mensagens, foram violados."
O livro contém um grande número de cartas privadas e dirigidas ao Pontíficie e a seu secretário particular, Georg Gaenswein, e mesmo que não revelem escândalos até agora desconhecidos, sua publicação deixa à mostra as lutas internas do Vaticano onde há rumores do "fim do pontificado".
Convém lembrar que o Papa cumpriu em abril, 85 anos de idade, e há 7 anos guia a Igreja Católica no mundo, em um período que foi caracterizado pela "santidade" dos padres ( lê-se escândalos de pedofilia e administrações bem "felizes" dos fundos eclesiásticos).
Um dos documentos mais "espinhosos" é a carta enviada ao Papa por Giampiero Gloder, um sacerdote do norte da Itália, na qual ele "sugere" não mencionar o "caso Orlandi", para não dar a impressão à opinião pública de que o Vaticano "sabia e não disse nada".
E o que o vaticano podia saber e não disse? Pra explicar esta história temos que voltar ao ano 1983. Certo dia a jovem Emanuela Orlandi, de 15 anos, foi à aula de música. Saiu do Instituto mas nunca voltou pra casa: depois desse momento não houveram mas vestígios dela, até hoje. A escola ficava no centro de roma, a menos de dois quilômetros do Vaticano, onde a joven vivia com a família, já que seu pai trabalhava na Santa Sé.
As investigações não levaram a nada. Mas no começo da década de 90, as declarações de Sabrina Minardi, que durante 10 anos foi amante de Enrico De Pedis, o chefe da delinquência romana, grupo conhecido como Banda della Magliana (a Magliana é um bairro muito popular ao sul de Roma), que foi assassinado no centro de Roma em fevereiro de 1990, abriram um capítulo inquietante da história: para esclarecer o rapto da jovem Orlandi era preciso investigar as relações entre o Vaticano e a Banda della Magliana, e averiguar por que De Pedis tinha sido sepultado na Basílica de San Aloiinare (propriedade da Opus Dei) que, casualmente, fica muito perto da escola de música de Emanuela.
E nesse momento entra uma série interminável de mistérios que têm relação com fundos obscuros do Banco do Vaticano, que expulsaram do banco o então poderosíssimo Paul Marcinkus, cujo nome estava vinculado a situações pouco edificantes como a morte do Papa João Paulo I, e o "suicídio induzido" do banqueiro Roberto Calvi, encontrado morto pendurado na ponte dos "Frades Negros" (coincidência macabra), sobre o rio Támesis.
Para evitar que fosse processado pela justiça italiana, Marcinkus, um dos homens mais poderosos do Vaticano, se retirou para uma "vida de meditação", em uma pequena igreja nas Montanhas Rochosas, em sua terra natal, Arizona, Estados Unidos.
Nesta semana, o ex-responsável pela Basílica San Apollinare, Pietro Vergari, recebeu uma notificação de abertura de processo na promotoria de Roma por cumplicidade no sequestro de Emanuela Orlandi. Quando lhe perguntaram porque aceitou enterrar em um lugar sagrado um mafioso conhecido, Vergari disse: "era um benfeitor, me ajudava com os pobres".
Neste contexto vemos a gravidade das sugestões do padre Gloder ao Papa: não se referir por nenhum motivo ao caso Orlandi.
Segundo alguns especialistas, o vazamento de documentos secretos faz parte do trabalho "lento, porém seguro" de Bento XVI para eliminar as maçãs podres da diocese. Neste sentido, escreve Marco Tossati, membro do Vaticano no jornal "La Stampa" com relação ao Papa: "Toca sensibilidades, amizades, vínculos, amor prórpio; ou frustadas esperanças e ambições, porvavelmente verdadeiras, mas que tem que dar lugar a sentimentos muito diferentes e de alto valor. Provavelmente é por isso que assistimos o vazamento de documentos que, infelizmente não parecem chegar de nenhum lugar além de escritórios muito próximos ao do Papa".
"Enquanto isso, no escritório de Bento XVI a sujeira da Igreja se acumula", escreve Marco Politi no jornal "II Fato Quotidiano". "A pergunta é porque não reage, como bom alemão, forçando uma limpeza, uma mudança que parece que nunca vai chegar". Provavelmente pelo que já se mostrava no começo: porque já existe um clima de fim do pontificado, mesmo que seja evidente que estes mistérios do Vaticanos são parte das eternas interrogações que enfraquecem a imagem da Igreja Católica, ofuscando o grande trabalho de solidariedade e compromisso que fiéis, sacerdotes, e religiosas realizam em todo mundo.
Tradução para o português: Equipe da redação da TeleSUR.
Niccoló Aldobrandinié enviado especial da Surysur na Itália.
