O ministério de Transportes diz que se faz para "melhorar" os serviços dos palestinos. A entidade B'Tselem e o partido Meretz qualificam as medidas de racistas e de inaceitáveis numa democracia.
A divisão de uma avenida na cidade de Hebrón, com um passeio para israelenses e outro para palestinos, é o último episódio de uma política de segregacão física que estão a denunciar várias entidades israelenses, como é o caso de B'Tselem. A ONG publicava na semana passada um vídeo e uma nota explicativa em que se podia ver como dois soldados israelenses proibiam o passo a um pesquisador árabe de B'Tselem pelo fato de não ser judeu. Os soldados pediam ao homem que passasse por outra zona destinada só para os árabes.
No vídeo pode-se comprovar que o passo destinado aos judeus é largo e asfaltado, enquanto que o dos árabes é estreito e sem pavimentar. Ambas zonas estão separadas por uma fecha. "As estritas restrições de Israel fizeram intolerável a vida dos palestinos ao centro de Hebrón", denuncia a entidade.
A denúncia vem depois de outro escândalo que, aparentemente, não contendia intencionalidade política: desde o 4 de março, trabalhadores palestinos residentes em Cisjordânia dispõem de uns ónibus públicos que os conduzem directamente aos lugares de trabalho ubicados em Israel. Uma solução prática dadas as enormes dificuldades que estes trabalhadores tinham de enfrentar até agora, com frequentes mudanças de meios de transportes públicos e com a perda de tempo e dinheiro que isto os comportava.
B'Tselem, porém, não o vê desta maneira: denuncia que as novas linhas de ónibus são "próprias do apartheid". São, com efeito, linhas exclusivas, "reservadas", fruto de um "plano repugnante para separar os judeus dos árabes". Um plano que responde, em boa parte ao menos, às reivindicações dos colonos judeus de Cisjordânia, que rejeitam viajar em ônibus públicos que permitem o acesso de cidadãos árabes, os quais costumam definir como "uma ameaça potencial".
Israel diz que só se tenta "melhorar" os serviços aos palestinos
Por sua vez, o ministério de Transportes de Israel afirma que esta decisão tão só tenta "melhorar os serviços para os palestinos que desejam ir a Israel". Explicação contestada pela presidenta de B'Tselem, Jessica Montell, a qual afirma que "os argumentos que dão as autoridades não podem esconder os racismo flagrante exercido contra os palestinos".
As presas de posição de B'Tselem chegaram ao grande público e suscitaram polémicas aos meios de comunicação e à rua. A deputada do partido de esquerda Meretz, Sehava Gal-Onde, exige que o ministério de Transportes anule rapidamente a sua ordem. Escreve ao jornal *Maariv: "Os ónibus segregacionistas que funcionam sobre uma base étnica eram uma coisa comum nos regimes racistas. É inaceitável que esta prática exista num país democrata". Aeyal Gross, professor israelense de Direito, escreve ao jornal Haaretz, com um tom cáustico, que já podemos contar com um "autocarro em direcção ao apartheid israelense".
O assunto dos ónibus não é um fato segregacionista isolado. Os palestinos de Cisjordânia têm de possuir uma permissão especial para entrar a Israel e têm proibido transitar por algumas estradas e alguns meios de transporte, por razões, oficialmente, de segurança. Teoricamente os palestinos que dispõem desta permissão podem utilizar todos os transportes públicos. Na prática, porém, não os é sempre fácil. Com freqüência os passageiros israelenses se mostram contrários, com gestos hostis, e multiplicam-se os casos em que os passageiros palestinos são obrigados, pela força, a baixar onde não quereriam.
