Muito já se escreveu sobre ela e muito segue e seguirá sendo escrito. O seu balanço científico está longe de ter se esgotado.
Em geral o debate sobre a Guerra-Fria, principalmente quando se abordam os regimes da ex-União Soviética e do Leste Europeu, foram - e ainda são - estigmatizados, inclusive por setores da esquerda. A justa crítica ao caráter ditatorial desses regimes, normalmente é seguida de uma desconsideração quase que total de todo o restante. A noção que essa análise constrói é a de que não havia vida para além da repressão das burocracias, que as populações viviam na maior miséria e que não passavam de robôs manipulados por controle remoto pelos governos. Que a propaganda capitalista transmita essa noção é compreensível, mas que isso seja reproduzido por setores de esquerda...
O presente trabalho busca romper essa estigmatização analisando os impactos sociais, econômicos e culturais da restauração do capitalismo nos países do chamado socialismo real. Para isso, mais do que a análise das estatísticas sócio-econômicas, são analisados os níveis de satisfação dos "nativos" (aqui compreendidos como as pessoas que viveram aqueles regimes) através de levantamentos de pesquisas de opinião e principalmente dos depoimentos dos mesmos, publicados em matérias realizadas pela própria grande mídia privada, a qual não teria o menor interesse de embelezar aqueles regimes.
É preciso dizer, desde já, que o presente trabalho não deve ser interpretado como uma apologia dos regimes stalinistas. Ele se propõe a colaborar na desestigmatização do debate sobre esse tema, para melhor clarificá-lo, e mostrar que se o chamado socialismo real não foi o melhor dos mundos tampouco o é o capitalismo.
Agora que eles podem falar, muitos não gostam de escutar.
No ano de 2009 completou-se vinte anos da queda do Muro de Berlim, um dos maiores símbolos da Guerra-Fria. Na Europa vários governos e capitalistas de toda a estirpe prepararam uma grande festa para comemorar a data. No entanto, tal celebração ocorria em meio a uma das maiores crises financeiras do capitalismo desde a Grande Depressão de 1929. Trabalhadores e estudantes de alguns países estavam nas ruas lutando contra o corte de seus direitos, de seus empregos e da drenagem dos seus recursos (salários, aposentadorias, etc) para os grandes bancos e empresas em apuros. Três governos (Letônia, Hungria e República Tcheca) foram derrubados no leste europeu em apenas um mês (O Globo, 26/03/2009) além do da Islândia também ter caído devido à crise. (BBC Brasil, 26/01/2009)
Se com uma mão devia-se celebrar a "liberdade" dos europeus do leste e dos russos, com a outra empreendia-se uma dura repressão àqueles que não aceitavam pagar "livremente" o preço de uma crise que não criaram.
A instabilidade política e social, advinda da crise econômica, inegavelmente ofuscou a festa da queda do Muro de Berlim. Mas teria sido diferente sem a crise? Talvez, mas não muito, pois os "libertados", supostamente alvo da festa, não têm se sentido tão livres assim na nova ordem em que vivem. E nem muito satisfeitos para comemorar alguma coisa. Pelo menos é o que tem sido explicitado pelos próprios em várias enquetes e depoimentos publicados em reportagens na grande mídia.
Devido a data, uma série de matérias foram realizadas em 2009, em especial na Alemanha. Algumas delas buscavam medir o grau de satisfação dos alemães que viveram no lado leste com o país unificado sob a égide do capitalismo. A manchete da matéria da revista alemã, Der Spiegel, certamente surpreendeu muita gente: "Maioria dos alemães orientais sente que a vida era melhor no comunismo." (BOL Notícias, 05/07/2009)
"Hoje, vinte anos depois da queda do muro de Berlim, 57%, ou a maioria absoluta, de alemães orientais defendem a antiga Alemanha Oriental", lamenta a publicação.
Não menos surpresas devem ter causado os depoimentos dos "nativos" na mesma reportagem:
"A maioria dos cidadãos alemães orientais tinha uma vida boa."
"Com certeza, não acho que aqui é melhor."
"As pessoas que vivem na linha de pobreza hoje não têm liberdade para viajar."
"Não dá para dizer que a RDA era um estado ilegítimo, e que tudo está bem hoje."
"Se a reunificação não tivesse acontecido, eu também teria tido uma vida boa."
"Na percepção do público, há apenas vítimas e carrascos. Mas as massas ficam à margem."
"Eu sei, o que estou dizendo não é tão interessante. A história das vítimas é mais fácil de contar."
As citações destacadas acima são de um cidadão de 30 anos que se identificou como Birger (ele não quis usar o seu nome verdadeiro devido às conotações negativas de ser da ex-RDA) que nasceu no Estado de Mecklenburg-Pomerânia, cursou economia e administração em Hamburgo, morou na Índia e na África do Sul, e conseguiu um bom emprego na cidade ocidental de Duisburg. Trata-se, portanto, de alguém que está muito bem acomodado no novo regime, desarmando de cara à quem pudesse erigir o argumento de que ele seria um "fracassado" na nova ordem e que por isso expressaria tais posições.
Birger não deixa de reconhecer a repressão empreendida aos seus cidadãos:
"não era uma coisa boa que as pessoas não pudessem sair do país, e muitos foram oprimidos".
Mas ele lembra da repressão na Alemanha unificada e democrática:
"No passado havia a Stasi [polícia secreta da Alemanha Oriental], e hoje existe (o ministro de interior da Alemanha Wolfgang) Schäuble - ou o GEZ (o centro de arrecadação de impostos das instituições de rádio e televisão públicas da Alemanha) - que coleta informações sobre nós."
Esta lembrança de Birger desagrada a própria publicação que afirma que ele está a fazer "comparações questionáveis".
Porém quando se observa o projeto de controle de cidadãos aprovado na Alemanha em 2008 que prevê o monitoramento de computadores pessoais, o grampo telefônico e a instalação de câmeras para vigiar residências, uma medida que apenas legalizou o que já vinha ocorrendo desde 2005, percebe-se que a analogia com a Stasi não é descabida. (DW-WORLD, 26/04/2007, 18/04/2008, 21/04/2008, 12/11/2008)
De acordo com ele e seu grupo de amigos não haveria diferenças sem a reunificação. Trabalhariam em alguma empresa e suas opções de viagem seria Moscou ou Praga, em vez de Londres e Bruxelas.
Thorsten Schön, 51 anos, foi outro cidadão que se deu bem na transição. Ele conseguiu abrir o seu próprio negócio. "Não há dúvida: eu tive sorte", comemorou ele.
Nem por isso ele está satisfeito, como ele mesmo diz na entrevista. Schön sente falta "daquele sentimento de companheirismo e solidariedade" já que "pessoas mentem e trapaceiam em todo lugar hoje, diz ele, e as injustiças de hoje são simplesmente perpetradas de uma forma mais astuta do que na RDA, onde não se ouvia falar de salários de fome e pneus de carro cortados."
Schön aponta "o modo falso como o Oeste pinta o Leste hoje", que os alemães ocidentais "agem como se os alemães orientais fossem todos um pouco tolos e ainda deveriam estar de joelhos em gratidão pela reunificação" e está entre os que afirmam que a RDA "não era um Estado injusto", mas "meu lar, onde minhas conquistas eram reconhecidas".
Ele questiona o que haveria para celebrar e ainda faz as seguintes declarações:
"Antigamente, as áreas de camping eram lugares onde as pessoas desfrutavam da liberdade juntas."
(...)
"No que me diz respeito, o que tivemos naquela época foi menos ditatorial do que temos hoje."
Klaus Schroeder, cientista político da Universidade Livre de Berlim, sente-se alarmado com essa situação:
"Temo que a maioria dos alemães orientais não se identifiquem com o atual sistema sociopolítico."
Ele recebeu mais de quatro mil cartas e mais e-mails (inclusive de Birger e Schön) dos "nativos" com críticas ásperas por suas posições em relação à RDA. Ele está compilando todo este material que apresenta opiniões curiosas como "Sob a perspectiva atual, acredito que fomos retirados do paraíso quando o muro caiu", a Alemanha é um "Estado de escravos" ou uma "ditadura do capital" e até de um homem que "agradece a Deus" por ter vivido na RDA e aponta ainda que só com a reunificação ele conheceu as figuras dos pedintes e dos sem-tetos.
Schroeder parece preso ao institucionalismo e carece de uma análise mais profunda desse processo. Mas não é o único. O historiador Stefan Wolle se limita a censurar os "nativos" por estarem tingindo de cor-de-rosa o passado:
"Memórias tingidas de cor-de-rosa são mais fortes do que as estatísticas de pessoas tentando escapar e os pedidos de vistos de saída, e ainda mais fortes do que os arquivos sobre assassinatos no muro de Berlim e sentenças políticas injustas"
São análises que não dão conta de posições como a manifestada pela artista plástica Baerbel Bohley, 64 anos, em entrevista para a Agência Lusa, publicada no mesmo período da matéria da Der Spiegel. (Agência Lusa, 01/11/2009)
Bohley foi a mais famosa dissidente da RDA e ajudou a organizar vários movimentos de oposição ao regime. Sobre as festividades da queda do Muro ela disse o seguinte:
"Acho muito estúpida e exagerada a ideia de fazer um muro de esferovite só para alimentar as televisões, mas há opiniões diversas, só lá vai quem quer"
(...)
"Pelo que sabemos do que se passa no mundo, não acho bem que se invista tanto dinheiro nessas festividades" (idem)
E sobre as mudanças no país ela observa o seguinte:
"Está tudo muito bonito, os prédios já não estão em ruínas, mas quando entro no supermercado as pessoas deixaram de falar umas com as outras e há mendigos à porta"
(...)
"Não fico mais feliz por comprar mais um par de sapatos de que não preciso, acho que vou viver outra vez para o campo" (idem)
As críticas da dissidente se voltam contra o consumismo, a frieza nas relações sociais e a queda do nível de vida, exatamente o que era apontado pelos "nativos" anteriores. Mas mesmo ela não escapa de rótulos e análises estigmatizadas.
"As pessoas gostam de meter tudo em gavetas, se faço críticas de esquerda, dizem logo que estou com os neocomunistas, embora não queira ter nada a ver com eles", diz ela. (idem)
Outro dissidente desiludido é Werner Lempfuhl, de 67 anos, engenheiro aposentado. Ele integrou setores da igreja luterana que se organizaram contra o regime e ajudaram a derrubá-lo. O aposentado se sente um estrangeiro dentro do próprio país e seu padrão de vida foi fortemente afetado com a transição, tendo sua esposa perdido o emprego de enfermeira e poucas semanas após a queda do Muro foi surpreendido com a visita de herdeiros da casa em que morava e teve que pagar pela segunda vez por um imóvel que já lhe pertencia - os antepassados destas pessoas teriam deixado a casa, e o país, após a Segunda Guerra. (Damasceno, 2009)
Estima-se que um terço dos alemães orientais tiveram que deixar suas casas e restituí-las a um alemão ocidental. (Vidal, Linden; Le Monde Diplomatique, 2004)
Ler na íntegra em:
http://blogdomonjn.blogspot.com.br/2010/12/restauracao-do-capitalismo-nos-paises.html
Foto: AltHistory