Certo marketing de esquerda quis recebê-lo como o Manifesto Comunista do século XXI, mas por detrás há algo mais do que a última moda do radicalismo de campus francês. Pequenas comarcas e aldeias da França rural, zona conservadora, começam a comportar-se politicamente como um bairro proletário: Sarkozy apenas sobrepassa 25% dos votos, e o Noveau Parti Anticapitaliste e a Front de Gauche arrasam. A razão estriba na mudança demográfica do país.
Em 2003 havia perto de um milhom de jovens entre 25 e 34 anos que voltaram ao rural, a vilas e aldeias longe dos grandes eixos de comunicação e de menos de 5.000 habitantes. O perfil desses jovens: universitários hiperqualificados destinados a desfrutar das prebendas académicas da Rive Gauche, militantes anticapitalistas desencantados com a política. Assim aparecem aldeias, das quais Tarnac é só o exemplo mais mediatizado, em que os jovens prestam serviços sociais aos velhos do lugar, recuperam para habitá-la a memória da resistènce, criam escolas populares, etc.
Noutro extremo sociológico desta mudança estão os banlieues dos arrabaldes, zonas como Villiers-le-Bel e Bagnolet, onde no Outono de 2005 se iniciou uma revolta que esquerda e direita ainda não foram capazes de compreender. Esta violência despolitizada polos políticos profissionais, e de cuja poesia sem palavras de ordem nem imaginação ao poder nenhuma intelectualidade soixantehuitar se atreveu a apropriar. A luz mediática apagou-se conforme passou a urgência eleitoralista, mas as revoltas continuam: em Maio de 2009 em Courneuve (Seine Saint-Denis, na periferia da capital) um carro policial transferindo um preso foi objecto de umha emboscada, metralhado por kalashnikov. Antes, no dia 14 de Março, outro grupo de polícias foi atacado numa batalha urbana só pacificada com a intervençom de 300 polícias apoiados por forças aéreas. São dous exemplos.
O affaire d´os “9 de Tarnac”
Entre estes dous fenómenos o ministério do Interior francês insiste em ver vinculações, que os primeiros não negam, polo menos no plano teórico. O dia 11 de Novembro de 2008 marca a involuntária saída à luz de um movimento que se proclama subterrâneo, e a tentativa de redução mediática do mesmo aos velhos esquemas da “célula” e o “líder”. Nove jovens “neorrurais” são detidos na aldeia de Tarnac, na região occitana de Lemosin, após uma sabotagem ao abastecimento eléctrico do TVG. Entre as suas pertenças estava um exemplar de L´insurrection qui vient, e a um deles, Julien Coupat, a polícia atribuiu a autoria. A construção mediática da ameaça “terrorista” foi imediata, assim como as condenaçons da esquerda: do trotskista Olivier Besencenot a Christian Mahieux, dirigente do SUD-Rail. Mas ao pouco tempo Le Monde liderou uma estratégia que se mostrou mais efectiva: reduzir o subversivo por fagocitação. Nas suas páginas publicou o manifesto de tintes cidadanistas “Não à nova ordem”, assinado polos filósofos da chamada esquerda radical: Zizek, Agambem, Badiou, Rancière, etc.
Gente como Alain Brossat saiu ao passo denunciando a manobra pacificadora destes intelectuais, tentando “tranformar A insurreição que vem em fantasia cultural, em inofensivo exercício de Kulturkritik (...) uma imagem que se caracteriza por volatilizar a dimensão política do que está em jogo”. Em efeito, o manifesto visava demonstrar uma “inocência” da qual os presos renegavam: se no estado policial pôr em prática as ideias revolucionárias acarreta o risco de cadeia, eles dizem serem culpados. Milhares de comités de apoio surgiram por todo o hexágono, enquanto “os 9 de Tarnac” publicavam uma carta em que sublinhavam que “não há nove pessoas que salvar senão uma ordem que tombar”, incitando à “generalização de práticas coletivas de autodefesa ali onde for necessário”.
A insurreição que vem
Na realidade, o fenómeno temnas todas consigo para ser o último modelo da esquerda radical francesa, ou ser percebido como tal: um estilo na escrita tipicamente barroco, gosto pola dificuldade filosófica, e até a origem social dos seus indesejados protagonistas: o que Bourdieu chamava les héritiers, filhos e filhas da elite universitária parisina, estudantes forjados nas luitas estudantis contra o Contrato do Primeiro Emprego e na ocupação da Sorbona. O próprio Coupat era um doutorando na EHESS, a instituição mais prestigiosa da Europa em ciências sociais.
Porém, mais além destes pré-conceitos do “pecado original” de classe, aparece o que já é qualificado como o pensamento revolucionário mais fresco dos nossos tempos, com a intenção explícita de fugir da “esquerda” e dos seus mitos. A trajectória deste grupo anónimo começa com a revista Tiqqun, apadrinhada por Giorgio Agamben, e continua com a publicação sob a rubrica de Comité Invisible d´A insurreição que vem para diluir-se actualmente no anonimato total que faz parte da sua filosofia: renegam do ego e da condição de autor/a, mas também da sua prática: “transformar o anonimato em posição ofensiva”.
Nas suas ideias tivo grande impacte a Primavera Negra de 2001 na Cabília: uma revolta não retransmitida na Europa. A chamada “insurreição argelina” caracterizou-se por uma ruptura com as formas clássicas de política, a volta às organizações assembleares tradicionais, a destruição de tudo aquilo que pudesse simbolizar o Estado, e sobretudo, a constante vigilância e luita contra qualquer forma de representação política que pudesse tentar falar em nome da insurreição e instrumentalizá-la.
A diferença dos teóricos do Grande Hotel Abismo de Lukács, os jovens franceses assumem a destruição social atual como um dado objectivo do qual partir, “nada parece menos provável que uma insurreição, mas nada é mais necessário”. Atacam com descaro os valores tradicionais do esquerdismo: receitam a abolição das assembleias gerais, onde “somos vítimas do mau exemplo dos parlamentos burgueses”, criticam o ativismo frenético e folclore contestatário: “Aqueles que pretendem responder à urgência da situação pela urgência da sua reacção não fazem mais do que aumentar o sufoco”, rejeitam o “liberalismo existencial” que se prodiga nas suas redes militantes. Dim desertar dos “tristes rituais da política clássica –a assembleia, a reunião, a negociação, a contestação, a reivindicação”, e falam de comunismo como algo antónimo dos partidos comunistas, chamando a “organizar-se materialmente para subsistir, organizar-se materialmente para atacar”. Eis a proposta prática, o entretecido de solidariedades na luita (“Deixou de existir outra amizade, para nós, que não seja política” que se salvem do que chamam “deserto”, a eliminação da distinção entre vida privada e vida pública, a forma-devida como resistência).
Tirado do Novas da Galiza nº 94
