A coalizão da esquerda radical grega encerrou na noite de quinta feira sua campanha eleitoral com um ato que reuniu uma multidão no centro de Atenas. A Syriza enfrenta neste domingo nas urnas a aliança conservadora da Nova Democracia, liderada por Antonis Samaras. As duas forças aparecem empatadas nas pesquisas de intenção de voto. Essas pesquisas não mostram uma tendência determinante para uma ou outra força, ainda mais que suas lideranças, Samaras da Nova Democracia e Alexis Tsipras da Syriza, modificaram suas respectivas posições com respeito à permanência da Grécia dentro da zona do euro e ao futuro do pacote de austeridade importo pela União Europeia, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional em troca do "socorro" a Atenas.
Alexis Tsipras deu uma guinada ao centro e Samaras à esquerda. Tsipras vinha denunciando o plano de austeridade (chamado de "protocolo"), propôs sua anulação e o não reconhecimento da dívida grega. Hoje, às portas do poder, o líder da Syriza passou a falar de uma "renegociação" do protocolo. Antonio Samaras agiu de modo similar, só que com sinal contrário. Samaras foi um defensor encardido desse plano, pregando o cumprimento de cada um de seus termos. Já não é mais.Obediente soldado do europeísmo e do respeito aos compromissos, Samaras orientou seu discurso na direção do de Tsipras. Agora, os dois dizem que a "renegociação" do plano é uma condição absoluta para sair da crise.
A estratégia conservadora consistiu em dizer que se a Syriza ganhar as eleições virá o caos, porque a coalizão de esquerda retiraria a Grécia do Euro. "O que está em jogo nesta eleição ficou claro: euro ou dracma", sentenciou Samaras. Tsipras respondeu dizendo que fará tudo o que está ao seu alcance para "manter a Grécia dentro do euro". Essa é, em todo o caso, a opção majoritária da opinião pública. Uma pesquisa divulgada esta semana mostra que 87% dos gregos querem permanecer na zona do euro.
A certeza dessa opção e as eleições deste domingo se inscrevem em um cenário de patético naufrágio econômico, político e social. O país não sabe mais a que se agarrar. A população esvaziou os supermercados prevendo uma crise maior e os bancos viram seus caixas esvaziarem a uma média de 800 milhões de euros por dia, reinvestidos em dólares, bônus alemães ou protegidos debaixo do colchão.
As pesquisas ainda não indicam um claro vencedor e nada impede que o país volte a se encontrar na mesma situação do último dia 6 de maio. Após as eleições legislativas realizadas naquele domingo nenhum partido saiu com uma maioria suficiente para governar. No entanto, analistas e comentaristas apostam na hipótese da vitória dos conservadores. A análise se baseia no perfil da eleição deste 17 de junho. Vários analistas dizem que, se as eleições de 6 de maio, foram as eleições da raiva, as deste domingo serão as do medo: medo de sair do euro e de mergulhar em uma crise ainda maior, dando origem a outros "protocolos" (os planos de austeridade da troika UE, BCE e FMI).
Restaram sobre a mesa duas propostas claras e convergentes em um ponto: a Nova Democracia reconhece que o famoso "protocolo" representado pelo plano de austeridade firmado pelo governo anterior sacrifica o crescimento e, por conseguinte, não possibilita que se pague a dívida. As medidas de austeridade impostas desde 2010 agravaram a recessão com um retrocesso de 6,9% do PIB em 2011. Antonis Samaras propõe uma "renegociação amistosa" deste plano. Isso é a cópia exata do que Alexis Tsipras vem propondo desde mudou de orientação. Ele põe o acento na palavra "renegociação" e agrega uma proposta nova: um programa destinado a impulsionar o crescimento.
O carismático chefe da esquerda radical propõe cinco medidas imediatas: o fim das demissões no setor público, aumento do salário mínimo (de 480 para 700 euros), reativar as negociações coletivas, anular as dívidas das famílias asfixiadas e suprimir o controvertido imposto sobre bens imobiliários. As medidas parecem soar irreais em um país decapitado pelos cortes e atrasos no pagamento de salários. Tsipras não diz de onde sairá o dinheiro para financiar essas medidas. A Grécia está com os cofres vazios.
No dia 20 de julho, o Estado ficará sem fundos. A Bolsa de Atenas, em todo caso, aposta numa vitória conservadora. Algumas pesquisas sigilosas que vaticinam a vitória da Nova Democracia levantaram os índices da Bolsa nos últimos dias.