Na Irlanda, as restrições impostas à realização do aborto estão sendo agravadas pelo aprofundamento da crise econômica europeia. O jornal The Guardian entrevistou na primeira semana do mês de julho três mulheres que foram obrigadas a manter gestações com fetos que apresentavam anomalias fatais. Ao realizarem os exames de acompanhamento da gestação, receberam a notícia de que seus bebês morreriam em algumas semanas. Diante dessa situação, o médico lhes disse que seriam obrigadas a manter a gestação até o fim, mesmo sem que o feto tivesse possibilidade de vida. Caso preferissem abortar sem serem punidas, a alternativa possível seria viajar até a Grã-Bretanha.
Diante da falta de alternativas, essas mulheres, assim como muitas, lançaram mão dos poucos recursos materiais que dispõem para realizar o aborto no estrangeiro. Ser obrigada a viajar sozinha, para outro país, sem família e amigos para dar fim a uma gravidez condenada foi caracterizado por elas como “bizarro, bárbaro e absolutamente cruel”.
No entanto, o índice de mulheres irlandesas que procuram instituições estrangeiras para a realização de aborto aumentou. Diante da falta de perspectivas promovida pela crise econômica que assola o continente, a possibilidade de mais um filho é descartada pelas famílias.
Com a crise econômica, as mulheres se vêem obrigadas a viajarem sozinhas para economizar. Para as mais pobres, mesmo a dura alternativa de realizar o aborto fora do país é inviável economicamente.
Segundo as estatísticas, a previsão é de que pelo terceiro ano consecutivo triplique a quantidade de mulheres irlandesas que procuram abortar fora do país. O aborto somente é permitido quando a vida da mãe estiver em risco.
Diante da imposição do Estado sobre o poder de escolha que deveria ser da mulher, ativistas da República da Irlanda e da Irlanda do Norte, onde o aborto também é proibido, estão realizando uma grande campanha para pressionar o governo por reformas. Em Belfast, uma grande manifestação foi realizada para reivindicar o direito de a mulher optar ou não pela realização do aborto e, também, para denunciar a reacionária campanha do movimento religioso Rally for Life contra os direitos das mulheres.
Na Irlanda, a bancada religiosa impôs uma emenda à constituição em 1983, em que um embrião formado após a fertilização é oficialmente um cidadão irlandês. Logo, o aborto é, nestes termos, um assassinato.
As mulheres irlandesas estão se organizando nacionalmente para anular essa emenda.