As guerras da Tunísia e Líbia e a rigidez da UE explicam a tragédia.Nadjia Bouaricha é uma jornalista que em Argel não pára de perguntar no jornal Ele Watan pela atitude distante dos chefes de Estado europeus que lhes negam refúgio a milhares de pessoas que viajam em embarcações improvisadas ou construídas para um destino que muitas vezes se converte em trágico.
Organizações não governamentais levam realizando uma macabros números, nestes cinco primeiros meses do ano, dentre 1.500 e 1.800 afogados no Mediterrâneo. Nesta estatística, foram cruciais conflitos como o da Tunísia primeiro, e o de Líbia, ainda em toda a intensidade. Estatísticas que "rompem" a média de outros anos. Os relatórios das ONG citavam para 2006 dois milhares de mortes e 1.785 em 2010.
O aumento do número de refugiados teve uma subida exponencial desde o início do conflito entre as fações libias. A grande quantidade de trabalhadores emigrantes que viviam neste país africano, a liquidação dos seus postos de trabalho e o medo à guerra civil aberta gerou uma vaga migratória que tenta chegar à Europa a partir dos portos líbios. Uma diáspora que se soma à anteriormente começada nas costas tunisinas e à qual há que acrescentar a que, partindo de países subsaarianos, procurava chegar igualmente à Europa. Uma catástrofe social e humanitária que os governantes europeus estão longe tanto de solucionar ou administrar. Itália, o Estado que mais sente esta pressão, parece que abriu uma guerra não declarada aos emigrantes que chegam por milhares às suas costas. Ultrapassados, os governantes italianos com Silvio Berlusconi à frente, enfrentam conflitos diplomáticos, especialmente com França, enquanto promoveram estratégias de comunicação que fizeram crescer entre alguns setores cidadãos a rejeição aos emigrantes procedentes da Líbia e da Tunísia.
Os regimes ditatoriais da África, os conflitos bélicos e a imagem de riqueza de Ocidente estão detrás de um êxodo que não deixa de gerar mortes no Mediterrâneo. A casos como o de um barco com possível destino a Lampedusa que transportava mais de 300 pessoas e que foi dado por desaparecido haveria que somar outras duas embarcações com quase 200 emigrantes cada e das quais, segundo as organizações humanitárias, Forteresse Europe e United for Intercultural Action, também não se têm notícias. Um outro fenômeno que, segundo estas mesmas fontes, se estaria a detetar, é o do aumento de suicídios entre os emigrados que conseguiram desembarcar. Preferem morrer que se repatriados.
As organizações de ajuda aos refugiados insistem em que não se pode converter em crime "buscar uma vida melhor". "Fogem da insuportável vida do seu país e enfrentam-se a um mundo que lhes nega o direito a pisar o seu solo", aponta Nadjia Bouaricha.
