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Povo e GovernoO Diário - [Aurélio Santos] O agiotismo, que até na Idade Média era crime, passou a ser virtude. Os bancos (a quem é atribuído o heterónimo de “os mercados globais”) vão buscar o dinheiro ao BCE à taxa de 1%, e emprestam-nos a taxas que têm rondado os 10%. E os Estados pagam esse saque com o dinheiro dos contribuintes, sustentando um processo de reprodução capitalista cada vez mais parasitário.


É menos perigoso atravessar a estrada sem respeitar esta regra do que aceitar passivamente o rumo que este País leva.

Os partidos que nos têm governado aproveitaram desonestamente o facto de a maioria dos cidadãos não dominar os meandros do sistema financeiro capitalista para esconder a sua subordinação ao capital financeiro, agora coberto com o manto diáfano de «os mercados».

A arquitectura dos tratados europeus assenta em princípios ferozmente neoliberais em que tudo, incluindo os estados, está sujeito aos selváticos «mercados globais», para assim se cumprir a regra de ouro do mais puro neoliberalismo: «libertar a economia da política».

O resultado está à vista, as consequências também.

O Banco Central Europeu (BCE), por decisão dos países da zona euro não pode financiar directamente os estados. É aos ditos «mercados globais» (ou seja bancos) que têm de se ir financiar.

Mas é ao BCE que esses bancos vão buscar o dinheiro, à taxa de 1%, que nos emprestam a taxas que têm rondado os 10%.

Neste chorudo negócio de intermediação arrecadam muitos milhões, que são pagos pelos estados com o dinheiro dos contribuintes.

Os governos da União Europeia alimentam gostosamente este verdadeiro negócio de agiotagem, tipo Dona Branca.

Estamos perante a mais completa subversão de valores. O agiotismo, que até na Idade Média era crime, passou a ser virtude.

O cenário financeiro europeu traduz as fragilidades do sistema capitalista. É um preço que ele paga pela internacionalização dos fluxos de capitais, que com a globalização se tornou motor de operações especulativas para acumulação de grandes excedentes de capital. Na sua evolução o processo de reprodução capitalista revela-se cada vez mais parasitário. Em vez de canalizar recursos para a produção no circuito Dinheiro-Mercadoria-Mais Dinheiro, descrito por Marx no Capital, prefere especular sob a forma Dinheiro-Mais Dinheiro.

Num mundo em que os «mercados mandam», os vencedores e os perdedores são arrumados socialmente em duas categorias: os que acumulam o capital especulativo e os que são empurrados para uma competição desesperada pela sobrevivência. Esta situação, despoticamente imposta, é apresentada como prova da liberdade do indivíduo na sociedade capitalista…


*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2022, 30.08.2012


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