A ideologia da Al-Qaeda penetrou profundamente no alto comando e nas fileiras dos Talibã paquistaneses, e sua influência já alcança também os Talibã afegãos. Recentemente, como correspondente de Asia Times Online, tive acesso exclusivo a um campo de treinamento no qual combatentes da al-Qaeda e Talibã vivem sob o mesmo teto, comem juntos e assistem juntos aulas sobre lei islâmica (Xaria).
Tudo indica que estavam corretas as previsões do livro An Enemy We Created [Um inimigo criado por nós]. Naquele trabalho, os autores Alex Strick van Linschoten e Felix Kuehn previram que vários traços da guerra dos EUA no Afeganistão – bombardeios aéreos indiscriminados com aviões-robôs (drones), ataques noturnos e mutilação de cadáveres de combatentes Talibã – fariam aumentar gradualmente o prestígio da al-Qaeda entre os Talibã.
Podem-se acompanhar laços organizacionais e financeiros entre a al-Qaeda e os Talibã desde meados dos anos 1990s, quando Bin Laden, então principal comandante da al-Qaeda, estendeu seu total apoio às milícias Talibã que começavam a emergir, em luta contra senhores-da-guerra mujahideen no Afeganistão.
Para alguns analistas, os primeiros pilares do Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP, Talibã paquistanês) foram plantados pelos líderes do Talibã afegão e da al-Qaeda, que fugiam, logo no início do morticínio que os EUA promoveram na região, em 2001.
A al-Qaeda foi particularmente bem sucedida na operação de construir pontes e pôr fim às lutas internas entre diferentes grupos de militantes com bases em território paquistanês. Uma fonte, de grupo combatente, contou a esse correspondente que, em 2009, quando o exército do Paquistão lançou a "Operação Caminho para a Salvação (Rah-e-Nejat)" contra a principal base do TTP no Waziristão Sul, foi a al-Qaeda quem convenceu o Talibã Hafiz Gul Bahadur, senhor-da-guerra no vizinho Waziristão Norte, a dar refúgio a membros do TTP, que fugiam dos ataques do exército do Paquistão.
A al-Qaeda tem hoje mais influência sobre os Talibã paquistaneses do que teve, antes, sobre os Talibã afegãos.
O militante paquistanês Ilyas Kashmiri, comandante da Brigada 313, braço operacional da al-Qaeda no Paquistão, e que teria sido morto num ataque dos drones norte-americanos ano passado, foi cogitado como possível sucessor de Bin Laden. Os Lashkar-e-Jhangvi Al-Almi, um dos principais grupos antixiitas paquistaneses, de sunitas sectários, é compatriota ideológico da al-Qaeda e executou numerosos ataques contra seitas rivais em território paquistanês.
A al-Qaeda está usando cada vez mais militantes locais em suas operações. E a imagem do grupo como organização de árabes está sendo progressivamente apagada, depois do assassinato de bin Laden. A al-Qaeda no AfPak é hoje organização que conta com inúmeras 'franquias' locais para escapar aos ataques dos drones norte-americanos, disseminar sua ideologia e organizar operações.
Depois do assassinato de Bin Laden, muitos analistas previram uma rápida desarticulação da al-Qaeda, mas especialistas que estudam o movimento e seus vários grupos afiliados dizem que a al-Qaeda só fez fortalecer-se desde então, espalhando sua influência por várias partes do mundo muçulmano hoje assolado pela violência da guerra. A Primavera Árabe abriu amplo espaço para que o grupo se expandisse para fora do chamado AfPak.
Sinal de que a al-Qaeda já influencia também os Talibã paquistaneses foi recente crítica, feita pelo TTP, contra a vitória do candidato da Fraternidade Muçulmana, Mohammed Morsi, no Egito, declarada "uma farsa".
Nos termos da declaração, antecipada com exclusividade para o Asia Times Online por porta-voz dos TTP, a vitória de Morsi seria vitória, não de forças islamistas, mas de forças seculares, "porque grande parte da Fraternidade Muçulmana foi secularizada e desviou-se da ideologia dos fundadores."
Os Talibã paquistaneses já haviam descrito o processo democrático como "anti-islamista"; para eles, qualquer partido que participe de eleições perde a identidade islâmica. "A democracia é um dos pilares de fundação do secularismo. Nenhum partido pode dizer-se islâmico, depois de render-se à democracia ocidental."
Mas os Talibã afegãos festejaram a vitória de Morsi, apresentada como "grande mudança" tanto no plano regional quanto internacional, que se espera que abra caminho para novos avanços do movimento Talibã no Afeganistão.
Os Talibã afegãos, que pregam a constituição do Emirato Islâmico do Afeganistão, distribuíram declaração em várias páginas jihadistas na Internet, em que dizem que a "vitória histórica" de Morsi marca o sucesso do "governo islamista".
"O sucesso do governo islamista no Egito é considerado o mais potente golpe assestado até agora, em todo o Oriente Médio e no mundo, contra o expansionismo de norte-americanos e sionistas. Que a nação muçulmana egípcia extraia todos os benefícios dessa importante ocasião e dessa vitória histórica, na defesa e realização dos interesses da Ummah islâmica" – diz a declaração.
Ihsanullah Tipu Mehsud é jornalista investigativo. Trabalha em Islamabad.
Original em: http://www.atimes.com/atimes/South_Asia/NG10Df03.html
Tradução do coletivo Vila Vudu