Segundo informações publicadas no colombiano El Tiempo, o tesouro resgatado no fundo do mar, em frente da costa de Portugal, no Oceano Atlântico, de uma fragata espanhola, Nuestra Señora de las Mercedes, afundada em 1804, pela frota britânica, foi adjudicado ao Estado monárquico espanhol, por um juiz da Flórida (EUA). O Tesouro é composto de 594.000 moedas de prata e ouro, no valor de 500 milhões de dólares, que ao que parece foram cunhadas em Lima. Igualmente, entre os demandantes estava "também um grupo de descendentes dos donos da carga", 4 famílias colombianas, 3 espanholas e 11 famílias peruanas (Em uma semana chegará ao Reino de Espanha o tesouro das Mercedes, www.eltiempo.com, fevereiro 17-2012).
Por que o Reino de Espanha, poder colonial monárquico e que foi derrotado pelos movimentos independentistas do século XIX, em Latinoamérica, reclama um tesouro que foi produzido com trabalho escravo, tanto de africanos, principalmente, como de indígenas, nas minas, provavelmente peruanas?
Será que este tesouro não pertence a quem produziram os metais preciosos como escravos, as comunidades indígenas e afrodescendentes? Como um país reclama como próprio um tesouro que é produto de trabalho escravo? O problema não é jurídico, sob o princípio de imunidade soberana, como se tratou nas cortes, é de justiça para as comunidades escravizadas, que foram arrancadas das suas raízes, das suas vidas quotidianas e que foram afundadas nos buracos de por vida para que extraíssem riquezas para uma monarquia parasitária, rendista e decadente.
Durante a Segunda Guerra Mundial, muitas empresas alemãs, sob o regime nazista, usaram trabalho escravo ou forçado, de acordo à Biblioteca Virtual Judia, que reúne os nomes destas empresas (German Firms That Used Slave or Forced Labor During the Nazista Era, January 27, 2000). Em 1999, de acordo a Norman Kempster, de Los Angeles Times, os governos dos EUA e da Alemanha conseguiram um acordo sobre as reparações ao trabalho forçado ou escravo, durante o período nazista, faz 68-72 anos, de 5.200 milhões de dólares (Agreement Reached on Nazista Slave Reparations, dec 15-1999).
Igualmente, sob a Lei de Liberdades Civis de 1988, promulgada pelo presidente Ronald Reagan, o governo dos EUA desculpou-se pela detenção em campos de concentração, nos EUA, de imigrantes japoneses, durante a Segunda Guerra Mundial e pagou como reparação 20.000 dólares a cada sobreviviente, para compensar as perdas de propriedades e de liberdade durante esse período (Wikipédia, Reparations for Slavery). Além disso, a alguns bancos dos EUA, tem-se-lhes exigido pagar compensações pelo seu envolvimento e lucro no comércio de escravos.
Quanto vale o trabalho de um escravo? Na carta de um escravo liberto, Jourdon, dirigida a seu antigo amo, quem lhe pede que regresse, após a Guerra de Secessão dos EUA, publicada a 22 de agosto de 1865 no New York Daily Tribune, o próprio Jourdon faz os cálculos de quanto lhe deve: "Ganho 25 dólares poro mês, com comida e roupa". Para comprovar as boas intenções do seu amo, relativamente à sua sorte futura, pede-lhe que "envie os nossos salários pelo tempo que lhe servimos, por trinta e dois anos (Jourdon), e Mandy -sua esposa- vinte anos. A 25 dólares por mês para mim, e 2 dólares por semana para Mandy, os nossos rendimentos somariam 11.680 dólares. Agregue a isto os juros pelo tempo que os nossos salários foram retidos (...) Se o senhor não nos pagar pelo trabalho de fiéis trabalhadores no passado, podemos ter pouca fé nas suas promessas futuras".
Então, a quem pertencem as 594.000 moedas de ouro e de prata? Ao Estado monárquico espanhol? Aos descendentes dos esclavagstas? Aos escravos e aos seus descendentes? É uma vergonha que o Reino de Espanha, Estado rico, ainda aspire aos tesouros sacados da América e que jazem na profundidade dos oceanos, quando deveria estar pagando as compensações a quem escravizou, maltratou e assassinou. Também não pediu perdão. Pede preferências comerciais e de investimento.
Foto 1. Gravura retirada do Códice Kingsborough, representando a violência dos encomendeiros contra os indígenas.
Foto 2. Chegada a Algeciras em 2007 do barco com o tesouro de "Las Mercedes", recuperado pela empresa Odyssey Explorer do fundo do mar, em frente à costa portuguesa.
