Na última semana, os governos imperialistas têm se organizado para condenar o presidente sírio Bachar al Assad, que está promovendo um massacre contra a população de seu próprio país. Assad é herdeiro de Hafez al Assad, um carniceiro de primeira, que promoveu o massacre de 10 mil civis e mais de mil prisioneiros em 1982, com o objetivo de conter a revolta da população síria.
Nos últimos onze meses, as vítimas de Assad chegariam a 5.400 pessoas. Essa semana a ONU publicou um relatório em que acusa o governo sírio de "crimes contra a humanidade".
O massacre é uma tentativa de conter a revolta da população, que teve início em abril de 2011, com enormes manifestações contra Assad, um episódio da Revolução Árabe. O motivo da revolta foi a rápida deterioração econômica do País com a crise de 2007/2008, que levou o povo à miséria. Estima-se que um terço da população síria vive abaixo da linha da pobreza. Em outubro, antes das mobilizações, o ministro da Economia chegou a anunciar que a economia estava em "estado de emergência".
Por trás das sanções à Síria: a tentativa de estrangular a revolução árabe
As acusações da ONU e a ofensiva do imperialismo, que está promovendo uma série de sanções contra o país, no entanto, têm outro objetivo por trás. Com o enfraquecimento de Assad, há uma luta muito séria pelo controle da Síria. Esse governo é conhecido por sua hostilidade a Israel, sendo colocado no grupo de governos nacionalistas árabes.
Que as sanções têm um objetivo político bem claro para o imperialismo fica claro com o fato de que Rússia e China se recusaram a aprovar a moção contra Assad na ONU e nem participaram do grupo de 60 países que aprovou uma série de moções ao país. Trata-se de uma disputa entre o imperialismo e esses outros governos, incluídos aí também diversos governos árabes, em torno da Síria.
A crise abre para o imperialismo a possibilidade de controlar um estado importante e fortalecer suas posições no centro da zona de maior conflito. Note-se que a Síria está situada estrategicamente entre a Arábia Saudita, Israel, Irã e Iraque, país do qual é vizinha.
Nesse sentido, considerando que a situação do Iraque, país que os Estados Unidos invadiram em 2003, é extremamente delicada e que o Irã também está envolto em uma crise profunda, a Síria aparece como uma peça estratégica para o controle do Imperialismo no Oriente Médio, principalmente do ponto de vista político.
Embora seja pouco provável que o imperialismo tome conta do país, e a própria imprensa internacional considera isso, haveria o risco de haver uma regionalização da guerra no Oriente Médio, ou seja, entre os diversos países da região.
A crise está levando o imperialismo a colocar de maneira um tanto grave o problema da guerra. Devido também à sua posição geográfica, a Síria poderia ter um papel altamente desestabiliador. Com uma revolução na Síria, como se delineava, Israel ficaria entre duas revoluções, a do Egito e a da Síria. No Líbano a situação já está bastante avançada nesse sentido, com grande parte do país dominado pelo Hizbollah e há a situação da vizinha Jordânia também é delicada. Desse modo, Israel, enclave norte-americano na região, ficaria como uma uma ilha em meio à revolução. Isso além, é claro, da revolução interna em Israel, na Palestina. Os próprios trabalhadores israelenses tenderiam a se levantar. Toda essa situação revolucionária colocaria em xeque a dominação do imperialismo na região e por isso tende a levar a uma guerra.
O velho falso pretexto: a campanha "humanitária" do imperialismo
Para combater a disseminação da revolução árabe, o imperialismo está fazendo uma "campanha humanitária". A campanha, feita em toda a imprensa internacional e dentro de cada país, envolve de maneira extraordinária a classe média, sempre propensa a acreditar nas boas intenções imperialistas.
O truque, no entanto, já está bastante gasto. Foi supostamente para proteger os afegãos do Talebã que invadiram o Afeganistão em 2001. Com o pretexto de derrubar o sanguinário Saddam Hussein e impedir que ele usasse suas terríveis "armas de destruição em massa", os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003. O mesmo ocorreu em 2011 com Kadafi.
Nesse conto de fadas, o imperialismo teria a maior força militar do mundo para proteger as populações indefesas de seus terríveis ditadores. Isso quando já é notório que o interesse do imperialismo no Oriente Médio está longe de ser "humanitário": trata-se pura e simplesmente do controle das reservas de petróleo mundiais.
O que salta aos olhos é que apenas alguns determinados sanguinários são escolhidos para serem derrubados. Outros não apenas não são derrubados, como são apoiados pelo imperialismo. Mais uma vez é preciso lembrar das ditaduras militares que tomaram conta da America Latina e de vários países do mundo na década de 1960. Elas não foram combatidas: foram financiadas, organizadas e apoiadas pelo imperialismo. Da mesma maneira, quando quase um milhão de pessoas foram assasinadas a golpe de facão em Ruanda, nenhuma intervenção da ONU ou dos Estados Unidos ocorreu para impedir o massacre.
A "operação humanitária" é de um cinismo sem tamanho. Que o digam as centenas de milhares de mortos civis no Iraque. A intervenção do imperialismo serve apenas a interesses econômicos e políticos bem definidos do imperialismo, além de um ataque à soberania desses países que resulta em uma ditadura ainda mais cruel contra a população.
O caso que revela claramente a intenção do imperialismo de liquidar a revolução árabe é o da Líbia. Nesse país explodiu uma revolta que estaria dando lugar a um movimento revolucionário, de desestabilização do estado líbio. Após a intervenção estabeleceu-se um governo idêntico ao de Muamar Kadaffi, inclusive com as mesmas pessoas, exceto a camarilha mais íntima do mesmo. Do ponto de vista geral do regime, nada mudou; até mesmo a tortura e assassinato de pessoas continuam, segundo as denúncias. A intervenção imperialista na Líbia não serviu pura e simplesmente para colocar um governo imperialista, mas foi uma operação de estrangulamento de toda a tendência revolucionária que existia na Líbia. Na Síria hoje ocorre a mesmo coisa. A grande preocupação do imperialismo e montar um governo, que será idêntico ao de Bachar al Assad, mas sem ele. Ou seja, é uma operação para trocar a camarilha dirigente do regime, não o regime em si.
Mais claramente; uma operação que tem como objetivo principal esmagar a revolução.