Foto: Presidente Bashar al-Assad se reúne com o ministro de relaçõex externas russo, Sergei Lavrov
Não é difícil ver como a oposição joga com o ocidente. A artilharia de imagens horrendas de Homs, pelo Facebook; declarações do ‘Exército Sírio Livre’; a zanga arrogante de La Clinton; e a surpresa indignada por os russos se mostrarem tão cegos ao sofrimento dos sírios – como se os EUA algum dia tivessem tomado conhecimento do sofrimento dos palestinos, quando, arredondando, mais de 1.300 palestinos foram mortos, no massacre pelos israelenses em Gaza – nada disso tem qualquer conexão racional com a realidade em campo, na Síria e no mundo. E por que os russos se preocupariam com Homs? Preocuparam-se com os mortos na Chechenia?
Invertamos a perspectiva. Sim, todos sabemos que o serviço secreto sírio cometeu vários abusos de direitos humanos. No Líbano, por exemplo. Sim, todos sabemos que o governo de Damasco não foi eleito. Sim, todos sabemos que há corrupção. Sim, todos assistimos à humilhação da ONU no fim de semana – embora paire o mais denso mistério sobre por que La Clinton esperava que os russos bateriam calcanhar e continência a ela, depois que a “zona aérea de exclusão” virou “mudança de regime” na Líbia.
Destruir o governo dos alawitas na Síria – os alawitas são xiitas – será como cravar uma espada na alma do Irã xiita.
Consideremos agora o Oriente Médio, visto de uma das janelas do imenso palácio presidencial de onde se descortina toda a área mais antiga de Damasco. É verdade: o Golfo voltou-se contra a Síria. É verdade: a Turquia voltou-se contra a Síria (apesar de a Turquia, generosamente, ter oferecido teto para o exílio de Bashar, no velho império otomano).
Mas observemos o leste. Se volta os olhos para o leste, o que Bashar vê? O leal Irã, ao seu lado. O leal Iraque – hoje, o Iraque é o melhor mais novo amigo do Irã no mundo árabe – que se recusou a impor sanções contra a Síria. E o oeste? A oeste, o leal pequeno Líbano recusou-se a impor sanções. Assim, da fronteira do Afeganistão até o Mediterrâneo, Assad vê uma linha reta de alianças que conseguirá impedir, no mínimo, o colapso econômico do regime.
O problema é que o ocidente foi de tal modo inundado de matérias jornalísticas, ‘análises’, contos, conferências e da conversa-delírio dos think-tanks de sempre sobre o amaldiçoado Irã, o Iraque traidor, a perversa Síria e o assustado Líbano, que é quase impossível limpar o raciocínio, excluir do pensamento todas essas ‘análises’ delirantes, e, afinal, ver que Assad absolutamente não está sozinho. Não se trata de ‘proteger’ Assad, nem de pregar que continue no poder. É que essa é a simples e pura verdade. É fato: Assad não está sozinho nem isolado.
Os turcos, apesar das idas e vindas e ‘declarações’ espalhafatosas à moda Clinton, não montaram o “cordão sanitário” que prometeram montar no norte da Síria. Nem o rei Abdullah II respondeu afirmativamente ao pedido da oposição síria para que montasse outro “cordão sanitário” no sul. Muito estranhamente – e já escrevi sobre isso – só Israel mantém-se em silêncio.
Enquanto a Síria puder comerciar com o Iraque, pode comerciar com o Irã e, claro, pode comerciar com o Líbano. Os xiitas do Irã e a maioria xiita no Iraque e a liderança (embora numericamente minoritária) xiita na Síria e os xiitas (a maior comunidade religiosa do país, mas não majoritária na população) do Líbano, permanecerão ao lado de Assad, embora em alguns casos relutantemente. Acho que é aí que a porca torce o rabo. Gaddafi tinha inimigos com real poder de fogo, que tinham a OTAN. Os inimigos de Assad têm Kalashnikovs e não têm a OTAN.
Assad tem Damasco e Aleppo – e essas cidades fazem toda a diferença. Suas principais unidades militares não desertaram.
Entre os “mocinhos” há também vários “bandidos” – fato que o ocidente esqueceu de ver na Líbia, nem quando os “mocinhos” assassinaram seu comandante militar desertor e torturaram prisioneiros até a morte. Ah, sim, e a Marinha Real britânica conseguiu atracar em Benghazi. Não consegue atracar em Tartous, na Síria, porque, ali, a Marinha Russa atracou antes (e continua atracada).
Original aqui.
Tradução do coletivo Vila Vudu