A Organização Europeia para a Investigação Nuclear (CERN) anunciou hoje a descoberta de uma nova partícula, com uma região de massa 125-126 Giga electrões-volts (GeV) (30 vezes a massa de um protão) e refere mesmo que "é consistente com o tão procurado bosão de Higgs", conhecido como a"partícula de Deus". Os resultados preliminares sobre as experiências ATLAS e CMS do grande colisador de hadrões (LHC), baseada em dados recolhidos durante este último ano, foram apresentados esta manhã durante a Conferência Internacional de Física de Altas Energias (ICHEP 2012) que decorreu em Melbourne (Austrália).
"A partir de hoje não vai haver grandes dúvidas sobre se encontrámos alguma coisa e que pode ser o bosão que estávamos à procura. Se for, óptimo, mas se não for talvez seja ainda mais engraçado, porque pode ser alguma coisa completamente nova", avançou Ricardo Gonçalo, investigador português no CERN .
Este sentimento que parece consensual entre os físicos da organização, que acreditam que uma grande descoberta pode levar a mais questões. Aliás, Rolf Heuer, director-geral do CERN, disse esta manhã: "Atingimos um marco histórico na compreensão da natureza. A descoberta de uma partícula compatível com o bosão de Higgs abre caminho a estudos mais detalhados, exigindo mais estatística, que confirmará as propriedades da nova partícula, e provavelmente lançará luz sobre outros mistérios do universo".
Aprofundar conhecimentos
Esta descoberta é fundamental para percebermos por que existe matéria tal como a conhecemos. O Bóson de Higgs é a única das 32 partículas fundamentais do universo (protões, neutrões e electrões, entre outras) previstas pelo Modelo Padrão da Física. As experiências CMS e Atlas, duas das principais do maior acelerador de partículas do mundo, que opera na fronteira franco-suíça, que se têm dedicado essencialmente a tentar encontrá-lo.
André David, investigador do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP) ligado à experiência CMS do CERN, explicou ao jornal «Ciência Hoje» que "a probabilidade apresentada hoje é o sinal da partícula subatómica a um nível de 5 sigma, com uma região de massa 125-126 GeV, ou seja, o equivalente a 30 vezes a massa do protão".
Esta descoberta é fundamental "para aprofundar o conhecimento da estrutura do universo e perceber o que a matéria negra, a energia negra", mas sublinha que "ainda falta confirmar se se trata de facto do bosão de Higgs ou de 'um bosão de Higgs'", concluiu André David.
Cientista na experiência Atlas, Fabiola Gianotti, assinalou que "foram encontrados sinais claros da existência de uma nova partícula, mas a observação necessita de um pouco mais para que os resultados sejam publicados".
A existência da partícula da Deus é baseada numa teoria defendida, nos anos 60, pelo físico britânico Peter Higgs, que assenta no modelo padrão da Física de Partículas. A sua descoberta ou negação poderia vir a refutar ou confirmar a existência do modelo padrão. Higgs, já com 83 anos, esteve presente aquando da comunicação e mostrou-se emocionado.
No entanto, os investigadores do CERN ressalvaram que "isto é apenas o início e ainda há muito trabalho a ser feito", já que apenas um terço das colisões de 2012 foram analisadas. Recorde-se que, actualmente, existem mais de 140 físicos portugueses a trabalhar directa ou indirectamente em projectos do CERN e o LIP mantém estreita relação científica com esta organização internacional.
Foto: CERN
