Os nomes Hossein Derakhshan, Hussein Rongah Melki, Majid Tavakoli, Koohvar Godarzi ou Omid Reza Mir Sayafi provavelmente não significam nada para os brasileiros, mas são um símbolo de resistência para o povo iraniano.
Os quatro primeiros encontram-se presos, em um regime de reclusão sufocante. O último está morto. Em comum, o fato de serem blogueiros e líderes estudantis, e também o de estarem ou terem sido presos, torturados, terem passado por greves de fome e por humilhações. Tudo pelo simples direito à liberdade. E estes cinco são apenas parte dos blogueiros e ativistas presos por expressarem suas opiniões.
Derakhshan, mais conhecido como Hoder, está preso desde 1 de novembro de 2008 e apenas recentemente começou a ser julgado. Ele é um dos principais e mais influentes blogueiros do Irã e, como tal, constantemente vigiado e perseguido pela temida polícia local.
Majid cometeu o terrível crime de lutar pelos direitos humanos e ser uma das principais lideranças jovens nesta área. Godarzi foi preso por pedir aos leitores de seu blog para o ajudarem a parar uma execução. Melki era uma das principais lideranças do projeto Iran Proxy, que luta contra a censura e filtragem de conteúdo no pais.
Sayafi tinha 29 anos de idade morreu na prisão de Evin, em Teerã, em 18 de março de 2009. Era blogueiro, jornalista e dissidente. Ousou levantar a voz contra a opressão.
Tavakoli, preso em dezembro de 2009, foi fotografado em roupas femininas pelas autoridades. Uma tentativa de humilhá-lo que, como resposta, foi seguida por uma onda de blogueiros e ativistas postando fotos vestidos de roupas femininas, num sinal claro de apoio.
Nos últimos oito anos, vários blogueiros e ativistas vem sendo vítimas de perseguições e prisões por causa de suas opiniões e trabalhos. Alguns foram presos por poucos dias. Outros foram condenados a vários anos e, ainda, alguns não aguentaram até o fim de suas sentenças e morreram nas prisões sem sequer a chance de um julgamento justo.
As acusações costumam ser as de fazer propaganda contra a República Islâmica, a de se associar a elementos provocadores ou agentes estrangeiros ou a de insultar líderes religiosos. Em praticamente todos os casos as acusações não passam de farsas pessimamente apresentadas.
A onda de prisões de blogueiros teve início em 2003, com a prisão de Sina Motalebi – hoje exilado na Holanda -, ainda sob a presidência de Mohammad Khatami, considerado por muitos como um reformista, e apenas cresceu desde que Ahmadinejad assumiu o cargo, em 2005. De lá para cá, dezenas de blogueiros foram interrogados, presos e mortos enquanto lutavam pro uma ampla reforma na República Islâmica do Irã.
Há quase uma década os governos conservadores vêm prestando bastante atenção na internet e em seu potencial transformador. Durante o conturbado processo eleitoral de 2009, em que Ahmadinejad foi acusado de fraudar as eleições para vencer seu adversário reformista Mir Hossein Mussavi, o Twitter e outras plataformas eleitorais foram o fio condutor da revolta.
Em meados de junho, o blog jornalístico coletivo Huffington Post iniciou sua cobertura em tempo real (liveblogging) dos protestos pós-eleitorais do Irã. Desde então, uma forte censura foi baixada no país, contando com a expulsão de jornalistas credenciados para cobrir o processo eleitoral e, para os que puderam ficar, um cerco feroz contra suas atividades, proibição de sair às ruas e de divulgar o que acontecia no país: Protestos violentos entre manifestantes e a polícia e a famigerada Milícia religiosa Basij.
Através de blogs, Twitter, Facebook, Youtube e outras redes sociais, a população iraniana pôde expressar seu descontentamento com a situação, não só eleitoral, mas social de um país governado por milícias religiosas e constantemente sofrendo boicotes e sanções
Aqueles blogueiros e ativistas engajados em divulgar as manifestações e em encontrar formas de burlar a censura foram brutalmente perseguidos e os que já estavam presos se viram em uma situação ainda mais difícil.
Através de sites como o Global Voices Online, e comunidades no Facebook, amigos, familiares e ativistas buscam mostrar a o mundo o que acontece, na tentativa de angariam apoio e pressionar a comunidade internacional a agir e intervir.
Hamed Sabe, foto-blogueiro preso recentemente é um exemplo desta mobilização. Preso sem qualquer tipo de acusação conhecida, seus familiares e amigos iniciaram uma campanha mundial pela sua libertação e pedem, no mínimo, um julgamento justo.
Outro caso emblemático é o de Sakineh Mohammadi Ashtiani. Condenada a morte por apedrejamento por supostamente ter cometido aldutério, esta iraniana de 43 anos encontrou salvação – ao menos temporária – na pressão internacional tanto através da mídia tradicional, quanto da mídia social e de ativistas espalhados por todo mundo. Seus filhos e amigos criaram um site para dar visibilidade ao seu caso e a notícia logo se espalhou. Da mesma forma que o Twitter serviu para mobilizar as massas em apoio à Revolução Verde de Mussavi, a rede serve agora para salvar a vida de uma mulher comum.
Apesar de pequeno em termos de conquistas, o poder da internet no Irã vem sendo sentido e começa a assustar seriamente os donos do poder. A mobilização em prol dos direitos humanos e da liberdade de expressão no país vem crescendo a olhos vistos e, se ainda não foi capaz de transformar profundamente a sociedade, ao menos consegue espalhar a ideia de democracia pelo mundo e denunciar os abusos e crimes cometidos contra o povo.
Raphael Tsavkko Garcia é jornalista e blogueiro: http://tsavkko.blogspot.com
Publicado originalmente no site da revista Caros Amigos, em 30 de julho de 2010.