A frase, pela sua eficácia, propagou-se a outros protestos mesmo fora dos EUA, nomeadamente Portugal. No entanto, ela encerra uma mistificação sobre as divisões de classes: nem a força de trabalho, nem, muito menos, as posições anticapitalistas correspondem a 99% da população, em qualquer parte do mundo. As desigualdades e o domínio dos meios de produção, que as manifestações combatiam, não são na realidade entre 99% de um lado e 1% do outro. O real conteúdo da frase não é anticapitalista, mas antimonopolista. É o que diz Fred Goldstein (*) no seguinte comentário acerca do assunto.
O slogan dos 99% contra o 1% é um slogan de agitação popular. Não é de modo nenhum uma palavra de ordem anticapitalista, ou seja, das classes trabalhadoras. Pelo contrário, a frase evita atacar o capitalismo.
Na verdade, ao dividir a população por percentagens, na base de uma classificação segundo o nível de rendimento, esconde a verdadeira divisão da sociedade: entre explorados e exploradores, oprimidos e opressores. Esconde a verdadeira natureza das divisões de classe na sociedade capitalista: classe capitalista, classes intermédias e classe trabalhadora.
As classes dominantes não são apenas os muito ricos. Os capitalistas financeiros dominam porque controlam globalmente os meios de produção. Eles vivem ricos e aumentam a sua riqueza através da exploração do trabalho. Estes factos têm de ser postos a nu.
De um ponto de vista de classe, o slogan expressa as queixas da pequena burguesia, dos sectores intermédios da sociedade capitalista que são esmagados pelo grande capital mas que são alheios à classe trabalhadora. Como corrente de classe eles são antimonopolistas. Podem atacar a riqueza e a desigualdade, mas receiam a ideia do socialismo e do domínio da classe trabalhadora.
A nossa posição não hostiliza a juventude que participou nos protestos Occupy Wall Street e que levantou o slogan dos 99% contra o 1%. Ocasionalmente fazemos uso dele em solidariedade para com a luta, ao mesmo tempo que levamos por diante as nossas próprias palavras de ordem anticapitalistas e pró-socialistas. Colaboramos com esses sectores e demonstramos solidariedade com a sua resistência – mas, sempre que possível, não abdicamos de tentar influenciar os melhores elementos do movimento para uma perspectiva proletária e socialista.
(*) Autor de "O capitalismo num beco sem saída", colaborador do jornal Workers World.