Estes dias vemos como os líderes europeus estão espremendo ao máximo a casca da laranja grega, para se assegurarem de que todo o suco seja vertido em seus vasos, sedentos como estão de recobrar dívidas helênicas. As exigências da Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI) ao governo grego nos mostram quão cruel é a falta de solidariedade entre os sócios quando se trata da cobrança de dívidas impagáveis. Da mesma maneira, vemos como a democracia e a garantia de direitos sociais se diluem à mesma medida em que a pressão internacional exige do Governo grego que priorize o pagamento das dívidas ao pagamento social, que todo Estado tem a obrigação constitucional de atender. Mas o que a Grécia deve? A quem o deve? Por que deve? E o mais importante: o que se deve fazer diante desta chantagem?
Estima-se que a dívida pública da Grécia no final de 2011 teria chegado aos 355 bilhões de euros, cifra que já representa 165% de seu PIB. Quase 75% do total (uns 260 bilhões) são bônus que se negociam - com custosas margens de benefícios - nos mercados secundários de valores e que estão nas mãos de agentes privados (fundos, seguradoras e bancos, possuem quase 70% dos mesmos), do BCE (que ostenta outros 20%) e do seguro social grego (10% restantes).
Por outro lado, pouco mais de 25% do reclamado (95 bilhões) são créditos que lhe outorgaram – com suculentos lucros – países sócios da mesma EU (53 bilhões), com a Alemanha e a França encabeçando; outros países da comunidade internacional (22 bilhões) e o próprio FMI (20 bilhões), a raíz do primeiro pacote de resgate – já falido -, aprovado há apenas dois anos, em maio de 2010. Sendo assim, o primeiro que cabe denunciar é o papel que representa a Troika nas negociações, já que, apesar de se apresentar como um negociador neutro para salvar a Grécia da tragédia do calote, na realidade o que pretende é assegurar o pagamento das dívidas que reclamam para eles e para o capital privado ao qual representam.
Alguém dirá que a dívida deve ser paga. Em todo caso isso dependerá de como e quem a originou e para que benefício. No caso grego, o povo está denunciando que a dívida se quadruplicou com a ditadura dos Coronéis, que logo aumentou vertiginosamente a raíz dos Jogos Olímpicos de 2004, com projetos megalômanos nos quais empresas alemãs como Siemens, levaram vultosos benefícios subornando políticos; ou com a compra sistemática de armamento da França, Alemanha e USA, que fazem com que a grécia seja o primeiro país da UE em gasto militar em relação ao seu PIB. Nesse sentido, é significativo comprovar como enquanto se cortam pensões, soldo e assistências sociais, a troika não exige cortes no gasto militar.
Por tudo isto, a sociedade grega está reclamando a suspensão unilateral de pagamentos, acompanhada de uma auditoria da dívida que permita conhecer sua origem, repudiar toda dívida ilegítima e processar os responsáveis, tanto nacionais como estrangeiros, que levaram o país à bancarrota. Da forma que estão as coisas, essa parece ser a única saída razoável e realmente democrática; isto é, a única que permitirá ao povo grego recuperar o poder de sua soberania econômica, social e política.
Agora que um segundo resgate está em cima da mesa, defende-se que é necessário ajustar ainda mais a economia e aprofundar as reformas estruturais para garantir, dizem, a saúde econômica da Grécia (não de sua população, está claro). Isto, para poder alcançar um nível "sustentável" de dívida de 120% do PIB em 2020. Se esta cifra é sustentável, por que não o foi no final de 2009, justo antes do primeiro resgate, quando a dívida "tão somente" era de 125%? Todo esse custoso ocorrido, em termos sociais, para chegar ao mesmo lugar de partida? Não será porque o interessante para os credores não seja tanto a cobrança da dívida, mas também, senão que seu pagamento implique no seu próprio benefício: ajustar as condições para que a classe trabalhadora esteja ainda mais indefesa? Não por acaso, há quem afirme que a Grécia é o novo laboratório de testes do neoliberalismo, como foi, em seu momento, a América do Sul nos anos 70.
Na grécia está-se apostando mais do que acreditamos. O que está em jogo é a correlação de forças entre o povo e a classe dominante mundial, que está aproveitando a crise, que ela mesma provocou, para nos fazer perder os direitos conseguidos durante décadas. Diante disso, ficaremos impassíveis?
Daniel Gómez-Olivé i Casas é pesquisador do Observatorio de la Deuda en la Globalización
Tradução de Cássia Valéria Marques para o Diário Liberdade