Recentemente, se reuniram na cidade de Durbam, África do Sul, os primeiros mandatários dos países conhecidos como BRICs – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Entre os principais assuntos tratados está a criação de um banco de desenvolvimento, a criação de uma agência qualificadora de riscos e outros mecanismos para tentar conter a crise capitalista.
O capital inicial do Banco de Desenvolvimento será de US$ 50 bilhões e pretende ser uma alternativa ao Banco Mundial e ao sistema financeiro estabelecido em 1944 pelos acordos de Bretton Woods. Além de aumentar o comércio, os governos desses países tentam buscar alternativas ao aprofundamento da crise capitalista nos países imperialistas, cujo contágio tem aumentado fortemente no ano passado provocando a queda generalizada do crescimento.
Apesar de tratar-se de uma medida de oposição ao imperialismo tímida, reflete as dificuldades para este impor a sua política em escala mundial. O aumento do comércio usando moedas locais, particularmente o Renminbi (yuan chinês conversível) desafia a ditadura do dólar norte-americano que tem como base os petrodólares, mas também produz novos efeitos colaterais. A China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil, mas, ao mesmo tempo, a inundação do País com produtos manufaturados chineses de baixo custo tem se tornado num dos fatores fundamentais da desaceleração industrial.
Os petrodólares são viabilizados por meio da venda do petróleo, principalmente pelas seis reacionárias monarquias do Conselho do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Kuwait, Bahrem, Omã, Emirados Árabes Unidos e Catar) em dólares. Sobre esta base, o imperialismo norte-americano, com o imperialismo britânico a reboque, domina a especulação financeira que hoje representa o coração da economia capitalista parasitária. As derrotas militares no Afeganistão e no Iraque, assim como o aprofundamento da crise capitalista, enfraqueceram esse domínio. A escalada das revoluções árabes ameaça levar à lona esse esquema, o que imediatamente inviabilizaria a monetização da dívida pública norte-americana, provocando a hiperinflação.
O acirramento das contradições inter-imperialistas e com as potências regionais é inevitável. A atuação mais ou menos homogênea do bloco imperialista desde a Segunda Guerra Mundial está apresentando rachaduras e deverá entrar em colapso no próximo período. O principal motivo é a impossibilidade de estruturar uma nova política que substitua o neoliberalismo que colapsou em 2008, ou seja, de encontrar uma forma viável de fazer com que as massas paguem pela crise e que este ataque permita uma recuperação capitalista.
Outro dos acordos foi o estabelecimento de um mecanismo para ser usado nas trocas comerciais no caso de um colapso financeiro – em torno ao equivalente a US$ 100 bilhões em moedas locais. A China e o Brasil já tinham assinado um acordo com esse objetivo por US$ 30 bilhões. Uma iniciativa similar, denominada Chiang Mai, foi implementada pelos 10 países membros da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático), mais China, Japão e Coreia do Sul, por US$ 240 bilhões.
Qual é o significado do acordo energético Rússia-China?
Na recente visita do presidente chinês Xi Jiping a Rússia, foram feitos vários acordos relacionados a questões energéticas. A China passará a pagar pelas compras de petróleo a vista e por adiantado em troca de concessões para a participação em vários projetos. A chinesa CNPC explorará petróleo no Mar de Baring e outros blocos em terra em conjunto com a russa Rosneft. A CNPC fará investimentos na região de Trans-Baikal, na Sibéria extremo oriental, em conjunto com a Gazprom, com o objetivo de construir um gasoduto que lhe garantirá o fornecimento de gás a longo prazo. Diminuir os riscos relacionados com o fornecimento de energia do Oriente Médio, e os problemas dos estreitos de Ormuz e Malacca, é fundamental para uma economia cuja desaceleração tem provocado o crescente ascenso do movimento operário. Pelo primeiro passa 20% das importações de petróleo; pelo Estreito de Malacca, que divide Singapura ao norte e Indonésia ao Sul, passa 80%.
O comercio entre ambos países hoje soma em torno a US$ 90 bilhões anuais e a expectativa e que dobre nos próximos cinco anos.
Para o governo russo, o acordo alivia a dependência da venda de hidrocarbonetos à Europa, atingida em cheio pela crise capitalista. Um novo colapso, apenas no mesmo nível de 2008, levará a Rússia imediatamente à lona.
Tanto a Rússia quanto a China têm como um dos pilares de contenção da crise a expansão regional, incluindo o aumento da venda de armas. Por esse motivo, as contradições com as potências imperialistas têm se acirrado. O Pentágono direcionou a metade do orçamento militar para Ásia Pacífico e aumenta o cerco da OTAN sobre a Rússia. O imperialismo japonês ameaça usar o seu poder econômico para tornar-se novamente uma potência militar de primeira ordem. Ao mesmo tempo que as contradições aumentam, as potências, regionais e imperialistas, são obrigadas a aumentar os acordos na tentativa de conter a crise econômica e o avanço da revolução – abertura à especulação financeira, acordos para conter a revolução na Síria, o Transcáucaso e os países mais débeis de Ásia Pacífico, como a Birmânia, Filipinas e Indonésia.
As principais contradições em matéria energética entre a Rússia e a China se relaciona com os esforços realizados pelo governo chinês para direcionar boa parte do gás das repúblicas da Ásia Central para o Extremo Oriente passando pela China. A Rússia, com as multinacionais europeias por trás, se encontra em enorme disputa para controlar esses recursos contra os interesses dos monopólios norte-americanos na região.
Na crise do Oriente Médio, estão em jogo os acordos com o regime de al-Assad, na Síria, a iminência da escalada guerrilheira na própria Rússia e a oportunidade de disputar a influência no Oriente Médio tanto seja no fornecimento de gás para a Europa como para a própria China que luta para reduzir os custos energéticos.
O aprofundamento da crise capitalista nos BRICS
Todos os países do BRICS têm sido fortemente afetados pelo aprofundamento da crise capitalista.
A dependência do Brasil, da Rússia e da África do Sul das exportações de um punhado de matérias primas têm deixado esses países muito expostos aos mercados especulativos. O direcionamento das políticas públicas para esses setores tem provocado a desaceleração industrial e o aumento das importações, corroendo a balança comercial e atingindo em cheio as contas públicas.
A Índia enfrenta problemas sérios de abastecimento de energia e de alimentos, o que tem provocado um déficit gigantesco da balança comercial, pois são justamente esses dois dos principais componentes da especulação financeira que tem levado à disparada recorde dos preços.
O aprofundamento da crise capitalista na China tem representado um aspecto particularmente grave para o sistema capitalista mundial, pois tem implicado no esgotamento de um dos principais mecanismos de contenção da inflação – o mercado manufatureiro de produtos de baixo custo. Os salários chineses saíram de US$ 30 na década de 1980 para US$ 230, e continuam aumentando devido ao ascenso do movimento grevista, impulsionado pelo aumento das pressões inflacionárias, que em várias greves importantes tem ultrapassado a burocracia sindical. As bolhas financeiras avançam, principalmente a bolha imobiliária, e a produção industrial cai devido à queda das exportações. O governo tenta conter o aprofundamento da crise mediante o aumento do consumo interno, promovido por meio da injeção de dinheiro público, gerado a partir das emissões de títulos públicos podres, para os bancos. Mas essa política está condenada de antemão ao fracasso devido às amarrações especulativas e imperialistas da economia chinesa.
Além da pressão financeira, a pressão social é enorme e, além do ascenso do movimento grevista, a burocracia tenta conter as centenas de milhões de trabalhadores muito pobres que, mesmo formando um enorme exército industrial de reserva de baixíssimo, não acha ocupação devido à queda da demanda doméstica e externa.
O comum denominador da saída para a crise proposta pelos BRICs é a manutenção das políticas neoliberais ditadas pelo sistema financeiro do imperialismo, a começar pela monetização da dívida pública em cima das emissões de títulos públicos podres. Os governos nacionalistas formam parte do sistema capitalista mundial e, por esse motivo, são atingidos em cheio pelos mecanismos que operam em escala mundial e que são controlados pelas potências imperialistas. Por esse motivo, as supostas saídas não passam de paliativos e, basicamente, são mais do mesmo. A diferença apontada no último acordo entre os BRICs é a tentativa, mesmo que relativamente tímidas, de colocar uma barreira aos interesses das potências imperialistas.
Sem uma ação decidida para quebrar o poder do sistema financeiro que domina a economia mundial em cada país, através do confisco dos bancos privados e da criação de um banco estatal único que coloque todo o crédito sob o controle do Estado, anulando a dívida pública especulativa não há como se subtrair significativamente à dominação financeira do imperialismo. Esta medida, no entanto, os governos burgueses de esquerda no Continente mostram-se incapazes de levar adiante por medo de chocar-se perigosamente contra o imperialismo mundial. Nessas condições, as tentativas de criar pequenos nichos de autonomia financeira estão fadados ao fracasso mais completo.