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100613 carme saboridoGaliza - Novas da Galiza - “A Galiza pode e deve ser uma referência cultural a nível mundial”.


Portugal e todos os países com que partilhamos língua encontram-se um bocado mais perto da Galiza graças à Ciranda, umha livraria e projeto cultual nado em Compostela que apanha o nome de umha dança de roda própria da Galiza e de Pernambuco. Umha aposta forte desenvolvida polo reintegracionismo que pretende ser um contributo à lusofonia.

O projeto complementa-se através da rede com umha loja virtual e com as redes sociais (facebook e twiter ) que dam conta de todas as atividades. No [passado] mês das Letras Galegas a nossa língua floresce[u] como nunca na Ciranda.

Como nasce a ideia de criar a Ciranda?

Ciranda é composta por quatro pessoas: Íria, Loaira, Xurxo e eu. A nossa é a história de quatro sócias da AGAL (Associaçom Galega da Língua) que colaboravam em projetos existentes (OPS, Falarmos, Imperdível, aPorto, etc.). A ideia parte um pouco disso, a associação sabia que os projetos estavam a crescer muito como para serem sustentados por trabalho voluntário e decidiu externalizá-los. Uma vez que sabíamos que íamos avante com o projeto, faltavam duas coisas: um espaço e um nome. O primeiro dos assuntos foi logo resolvido graças à Libraria Lila e Patrícia, com quem partilhamos espaço. O segundo levou mais tempo. Decidimos chamar-nos Ciranda, porque é uma dança existente em Pernambuco e também na Galiza, em que as pessoas dançam em roda de mãos dadas. É um nome lúdico que indica simbolicamente a união dos povos lusófonos.

Qual é o perfil da gente que acode à vossa livraria?

A maioria das pessoas estão relacionadas com o mundo do reintegracionismo ou com a militância na AGAL. No entanto, cada vez há mais pessoal jovem, estudantes de português da EOI ou da Universidade e também pessoal com certa sensibilidade e interesse pelo mundo da lusofonia mas que nunca tiveram contato direto com esta. O nosso público está a ser do mais variado e é uma das agradáveis surpresas; pessoas de Compostela e de todo o país, mesmo da Europa e do Brasil; professoras(es), alunas(os), escritoras(es), músicas(os), operários(as)...

Nos tempos da Internet onde muitos negócios prescindem de um espaço físico, porque achades necessário abrir um?

É certo que a net está a ganhar espaço, mas é importante sermos visíveis fisicamente. A Ciranda não é só uma livraria, atendemos outras áreas que precisam de uma sala, por exemplo, para serem realizadas. Aliás, o contacto direto com clientes é uma das nossas apostas. Muitas pessoas comentaram, após visitar-nos, que já era tempo de contarmos com um local de encontro e convívio, nestes tempos em que o público está a ser tão vilipendiado.

A Ciranda é muito mais do que umha livraria com material português; pretende ser um espaço aberto à lusofonia. Que atividades há programadas neste sentido?

Pois, a Ciranda é uma empresa de serviços culturais à volta da língua portuguesa. Desenvolvemos muitos projetos como os ateliês de português para secundário (OPS) e primário (Percussões), os cursos de imersão na cidade do Porto (aPorto) onde, devido à alta demanda, já é possível fazer a pré-inscrição em www.aporto.org, cursos online (Falarmos Brasil), concertos, exposições, apresentações de livros e palestras... Já no dia da apresentação houve um concerto de Ugia Pedreira e Najla Shami e nos meses a seguir tivemos a Carlos Taibo a falar de decrescimento, crise e capitalismo, Séchu Sende apresentando o seu Viagem ao Curdistám, Iolanda Aldrei que junto com Luz Fandiño é uma das nossas mais ferventes torcedoras, A banda hospitaleira do Minho (Uxía, Víctor Coyote e Rómulo Sanjurjo), a poeta portuguesa e perfomer Regina Guimarães e o grupo do Porto Osso Vaidoso, Márcio-André, ou um bate-papo com os músicos brasileiros Vinícius Cantuária e Pierre Aderne que, aliás, apresentou o seu documentário MPB - Música portuguesa brasileira. O nosso intuito é achegar a lusofonia ou galeguia através de várias vias, portanto, as atividades que programamos são sempre variadas. Em muitas ocasiões os eventos são partilhados com a Lila de Lilith e neles conjugamos a perspectiva de género e a lusófona. Há pouco Magin Blanco fez uma apresentação-lanche do livro-disco para crianças A nena e o grilo, do que temos uma exposição na nossa livraria.

Nos últimos anos fôrom surgindo diversos clubes de leitura de obras da lusofonia por todo o país. Pensades que hoje há mais recetividade à literatura em português do que antes?

Nós acolhemos um clube de leitura no nosso armazém, o clube de Leitura Santaengrácia, nascido arredor da EOI de Compostela. Todas estas pessoas são leitoras fieis, que mesmo pertencem a outros clubes de leitura ou a redes maiores, como o Clube de Leitura Pega no Livro. Com o trabalho das EOI, escolas de línguas, cursos, etc. cada vez a ortografia é menos uma barreira e as pessoas também reparam em que têm uma imensa facilidade por serem galegas. Obviamente saber galego é uma vantagem à hora de aceder ao mundo lusófono.

Porque achades necessário contar com um projeto como o vosso na Galiza?

Bom, mais cedo ou mais tarde, era necessário criar isto. A lusofonia nasceu na Galiza e a situação em que estivemos durante séculos, de costas viradas culturalmente está a mudar completamente. As pessoas precisavam de um espaço de referência, porque a cidade (e o país) estava órfã neste sentido até ao momento. Até há alguns anos o pessoal diria que estamos a “viajar na maionese” como se fala no Brasil, ao querermos abrir uma livraria especializada no mundo lusófono, mas hoje podemos ter orgulho no impacte que estamos a ter e no cálido acolhimento. A Galiza pode e deve ser uma referência cultural a nível mundial e assim, aos poucos, achegamos o nosso grãozinho para isto virar realidade.

 


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