Aqueles jogos criados e construídos com grande originalidade polos nossos antepassados para ocupar de forma positiva o seu tempo livre. Aproveitando especialmente o que em cada estação lhe oferecia a natureza. Jogos como o da bilharda, que ainda hoje em Goa e na Bengala índia é o mais típico jogo com os nomes, respetivamente, de goindabal e danguli, e que é o jogo galego por antonomásia. O que recebe outros nomes, segundo as comarcas, como por exemplo estornela.
Os jogos da roda, as andas [os sancos], a turra-soga, as argolas, a rã, a chave, que em Ourense se jogou pola primeira vez em Velhe e que lembra a chave dos paços, com a qual se jogava escondida entre a palha, atirando-lhe os pesos de prata. Jogos como a viola e viola corrida, a subida ao pau ensebado, os bolos, a porca, o pano, o marro, as corridas de sacos, o truque da macaca ou do caracol, o sapo, o ovo-pico-aranha, os bugalhos ou carraboujos, que depois foram berlindes ou bolas [canicas], o trompo ou pião, o partir os potes [romper as olas], o da farinha ou farelo, a procura dos ninhos, etc. são jogos todos que ainda conservam o espírito lúdico, festivo e harmonioso, e que tanta alegria provocou em galegos e galegas. Jogos que estão, polo seu valor educativo e psicomotor, por formar jogando e polo mesmo prazer de jogar sem ter que competir, em contra da nefasta influência que em toda a sociedade, e especialmente em jovens e crianças, têm os desportos competitivos como o futebol, o basquetebol e o automobilismo e motociclismo. Nos quais os valores positivos que se podem observar são mínimos. Agora que em vez de clubes são sociedades anónimas e as contratações alcançam quantias astronómicas contrárias a qualquer princípio moral.
Desde a Bengala indiana onde de novo me encontro, lembro com carinho os trabalhos de pesquisa dos nossos jogos tradicionais por parte de Risco, Ben-Cho-Shei, Joaquim Lourenço, Romani, Brandim, Bouça-Brei... E em Portugal os de Pires de Lima, Leite de Vasconcelos e de António Cabral de Vila Real, nosso amigo, que infelizmente faleceu há vários anos na sua morada da cidade transmontana. A Cabral considero-o eu como o que mais sabia no mundo sobre o tema, e publicou vários e interessantes livros depois da sua recolha de jogos realizada no território de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Sinto orgulho de que a ASPGP, associação pedagógica a que presido, leve difundindo, na teoria e na prática, os jogos populares galegos, em infinidade de lugares e com muitos tipos de públicos, desde o ano 1980. E organizando durante os últimos dezassete anos o seu programa "Ourense Lúdico". Já em 1981 publicara um suplemento monográfico da revista O Ensino com o título de Os Enredos dos Rapazes. O limiar fora elaborado polo professor Jurjo Torres e por mim, e Joaquim Lourenço permitira-nos traduzir ao galego o seu estudo da Revista de Diactelogia de Madrid. Porém, lamento muito o abandono do parque de jogos de Velhe, na minha cidade de Ourense, para o que no seu dia redigi eu o projeto de uso e utilização, requisito imprescindível para auferir a respetiva ajuda da Comunidade Europeia, para o seu levantamento e construção.
E agora que me encontro em Bengala, e tenho casa alugada no meio de uma fraga cheia de flores, árvores e animais na localidade tagoreana de Santiniketon (Morada da Paz), desfruto ao ver muitos rapazes e raparigas a jogarem com infinidade de jogos tradicionais exatamente iguais aos nossos, dos que a única diferença é o nome que empregam para os nomear. Quando tenho tempo fico a jogar com eles, e surpreendem-se de que eu saiba jogar à bilharda, o truque ou macaca, as andas, o pião ou os bilros. Aos que de criança jogava nos recreios da minha escola da Corna em Pinhor, perto de Ceia.
Praticar nas nossas escolas todos os nossos jogos populares e tradicionais, fazendo intercâmbios inter-centros e encontros lúdicos, considero que é a melhor maneira para que terminem por ser recuperados. Sem esquecer o importante que para a Galiza é que se organizem encontros de brinquedos e jogos populares com centros de ensino de Portugal, especialmente no território de Minho e Trás-os-Montes, onde os jogos são os mesmos que os nossos. E algo também poderiam ajudar para a sua recuperação e divulgação os meios de comunicação, nomeadamente a TV.


