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280411_dianaGaliza - Café Portugal - [Ana Clara] A galego-portuguesa Diana Gonçalves, 25 anos, licenciada em Comunicação Audiovisual pela Universidade de Vigo, na Galiza, cumpriu o sonho bem cedo: realizar o seu primeiro documentário.


A jovem realizadora oferece-nos em 42 minutos de «Mulleres da Raia», uma verdadeira viagem ao mundo do contrabando, da emigração clandestina dos anos 1950 e 1960 e do «trapiche». Tempos em que a ditadura e a repressão, nos dois lados da fronteira, obrigavam as mulheres da raia minhota a arriscar a própria vida. Havia que sobreviver e manter o sustento da casa. «Foram heroínas e sem dúvida, importantes agentes económicos para o desenvolvimento das terras fronteiriças», relata Diana Gonçalves.

Café Portugal - Como e quando começa a aventura deste documentário sobre as «Mulleres da Raia» minhota dos anos 1950 e 1960 e nas quais se centra as histórias do contrabando, «trapiche» e emigração?

Diana Gonçalves - Este projecto nasce em 2008, quando estava a concluir o curso de Comunicação Audiovisual na Universidade de Vigo, na Galiza. E, nessa altura, questionei-me sobre o que iria fazer da minha vida, sobretudo porque tinha o interesse do cinema do real. Entretanto, nasceu um festival de documentários em Tui, em 2005, o PlayDoc (Festival Internacional de Documentários de Tui) e que actualmente tem uma projecção internacional e é uma referência em termos de documentário em Espanha. Foi ai que aprendi a fazer documentário como espectadora. Recordo-me que faltava às aulas naquela semana para me dedicar unicamente a este evento. Nesse festival, desde cedo eles apostaram na formação e criaram um espaço de ateliês de documentário. E naquela altura, em que estava a finalizar o curso, achei uma boa ideia participar e inscrevi-me numa maratona de documentário.

C.P. - E foi aí que tudo começou com as «Mulleres da Raia»?

D.G. - Sim, o desafio do festival era construir uma história de quatro minutos sobre a palavra «caminho». Foi aí que nasceu o «Trapicheiras», que é a semente de «Mulleres da Raia». Basicamente fiz uma curta-metragem de quatro minutos onde falava daquele que era o meu caminho todos os dias. Ou seja, diariamente eu tinha que usar a ponte internacional, que separava um país do outro e, nessa procura de um significado para a minha identidade, através dessa ponte, fui à procura do referente das mulheres da minha comunidade. No fundo, fiz esta história não só para relatar a luta diária destas mulheres, e que corria o risco de desaparecer, tendo caído no esquecimento colectivo mas também para, de certo modo, descobrir a minha identidade e reconhecer a comunidade à minha volta. E foi aí que eu decidi procurar uma destas mulheres. Mas também tenho que referir que essa história apareceu quando eu pensava na palavra «caminho» já que, de certa forma, tinha uma lembrança de ter ouvido essa história das mulheres que cruzavam a fronteira.

C.P. - Essas lembranças vinham de onde, da sua própria família?

D.G. - Sim, sempre tive uma relação muito especial com a minha avó, desde criança. Estava sempre acompanhada por ela nas lides do campo. E recordo-me de ela fazer referência a estas mulheres. Tenho noção que, de algum modo, construí uma imagem sobre aquela realidade, a realidade das mulheres que cruzavam aquela ponte, tal como eu fazia todos os dias, e quando pensei na palavra «caminho», automaticamente, essas imagens correram-me a memória.

C.P. - Quando é que tomou a decisão de fazer o documentário?

D.G. - Na sala de projecção. Quando vi aqueles quatro minutos, tive a resposta para aquela dúvida que tinha há muito tempo, a decisão de fazer um documentário. A reacção das pessoas também foi muito boa e isso ajudou.

C.P. - Como começa concretamente a produção do «Mulleres da Raia»?

D.G. - Esta curta-metragem, para minha surpresa, além de ter tido uma receptividade junto do público, foi bem recebida junto dos meios de comunicação social. Tanto que é assim que saiu em vários jornais, regionais e nacionais, e este pequeno prémio de oficina quase que se colocou na primeira linha de interesse do festival. E, naquela altura, um professor meu (Xaime Fandiño), inserido no meio audiovisual e cinematográfico em Espanha, e que sabia que tinha ideia de avançar com o documentário, ofereceu-me a possibilidade de fazer o «Mulleres da Raia» com uma produtora. Era, de facto, uma oportunidade. Mas tomei a decisão de fazê-lo por conta própria.

C.P. - Porquê?

D.G. - Não sei que filme teria feito se tivesse aceite o convite da produtora, mas certamente seria outro filme. Decidi fazê-lo sozinha porque, já naquela altura, tinha uma forma particular de entender o documentário. Queria encontrar o meu próprio caminho de fazer cinema, com liberdade, isso era um requisito essencial para mim e apercebi-me que se o fizesse neste regime empresarial iria ter muitas limitações, sobretudo, ao nível do meu olhar. Depois contactei um colega de Faculdade (Miguel Barbosa) que estava na área do som. Expliquei-lhe que não tinha meios e que o documentário tinha um orçamento muito reduzido e provavelmente não iríamos ter benesses económicas. E ele aceitou à mesma. Depois, os meus pais ajudaram-me imenso, sobretudo porque foram eles que injectaram dinheiro para eu fazer o meu primeiro investimento: numa câmara, num tripé e num microfone. E tudo começou aqui.

C.P. - E no terreno, como decorreu a construção deste documentário?

D.G. - Estive acompanhada por este colega na fase de filmagens e na fase de pós-produção. No resto do processo estive sempre sozinha e fui eu que decidi. Comecei pela investigação do fenómeno do contrabando e da emigração clandestina e por recorrer aos arquivos locais, uma vez que já tinha decidido quais os locais da fronteira que iria filmar: Tui-Valença (as minhas duas vilas natais) e São Gregório-Ponte de Baxas, ou seja um ponto de fronteira da raia seca e outro da raia fluvial. Esta fase foi muito importante porque era necessário conhecer qual era o discurso oficial do Estado, dominar a matéria que iria tratar e porque todo o conhecimento da realidade local deu-me ferramentas para depois entender o que estas mulheres iriam testemunhar.

«Dificuldades»:

C.P. - O que encontrou nessa primeira pesquisa?

D.G. - Essa primeira fase durou cerca de dois meses. Estive nos arquivos, não só para conhecer o movimento dessas fronteiras mas porque este documentário tinha uma realidade histórica de fundo, já que estamos a falar de um fenómeno complexo e ainda recente. Esta era uma actividade clandestina, em que houve imensas dificuldades para ter acesso a determinados processos judiciais e aos registos de apreensões. Tudo isto exigia um certo conhecimento de legislação de fronteira, sendo que a legislação aduaneira era complexa e o próprio período tratado no documentário também era amplo.

C.P. - O período abarcou só as décadas de 1950 e 1960?

D.G. - Começou nos princípios do século XX até 1993, o ano em que se abrem as fronteiras. Centrei-me mais na época das ditaduras, franquista e salazarista, mas era importante compreender o antes e o depois neste espaço de fronteira. Curiosamente, parte desta informação também a tinha em casa, pois o meu avô e o meu pai tinham sido guardas-fiscais e tínhamos muitos livros de legislação aduaneira em casa. E é curioso que quando fui investigar o arquivo da raia seca, não fazia a mínima ideia que o meu avô tinha trabalhado naquela fronteira. Foi muito engraçado, porque eu sabia que ia encontrar resistência mas não fazia ideia que essa resistência iria começar na minha casa, sendo que os meus pais sabiam que eu ia lá todos os dias. Se já tinha um laço afectivo com esta história destas mulheres que travaram uma luta silenciosa, isto só ajudou ainda mais.

C.P. - Como é que chegou às protagonistas, a estas mulheres marcadas por uma «luta silenciosa» da fronteira, como diz?

D.G. - Quando acabei esta pesquisa fui ao terreno. Podia tê-lo feito por indicação de outras pessoas. Mas tinha determinado que isto seria uma autêntica descoberta do território e isso também passava por descobrir as pessoas. Percorri aldeia por aldeia, porta por porta, parava no campo enquanto as pessoas estavam a trabalhar, ia até ao café, sentava-me com as pessoas para ter uma conversa, ia à praça pública, etc. Foi a maneira de me aproximar à comunidade. O meu objectivo não era ir lá, retirar esta história e ir-me embora mas sim perceber a forma de vida destas pessoas e estabelecer uma relação com elas.

280411_raiaC.P. - Como foi a reacção inicial das pessoas quando lhes contou ao que ia?

D.G. - Não as abordei logo, até porque eu própria estava à espera de descobrir outras realidades. Eu sabia que isto era um tema tabu nestes pequenos núcleos locais porque todos se conhecem e, de uma forma ou outra, estavam ligadas à temática. Sendo uma realidade clandestina, ainda tem uma conotação negativa que se arrasta até aos dias de hoje. E, nessa medida, tinha consciência que tinha de fazer um trabalho de sensibilização com esta população. Quando já tinha confiança com a comunidade, expliquei-lheporque estava ali, e tentei fazer-lhes perceber a importância de elas contarem a sua história de vida. Tudo isto durou dois meses.

C.P. - Que mulheres são estas e como as caracteriza?

D.G. - As mulheres da raia têm uma força incrível. São mulheres que estiveram condenadas a uma realidade secundária, em que foram protagonistas desta história da fronteira, mas que nunca foram reconhecidas como tal. E, sobretudo, são mulheres que têm uma força especial e que continuam a tê-la. Para mim, são autênticas heroínas e mulheres de luta. E compõem uma história de luta diária pela sobrevivência, uma travessia pelas emoções e sentimentos provocados pelo trânsito da fronteira.

C.P. - Houve mulheres que resistiram, sozinhas, trabalhando no campo, sem os maridos, e a viver, paralelamente, esta realidade do contrabando e da fronteira. Isto é uma marca psicológica muito intensa, presumo...

D.G. - Quando falamos de contrabando, no caso das mulheres, estamos a falar de uma realidade local, de pequena escala. Elas eram transportadoras de mercadorias, que ganhavam para o dia-a-dia mas também o elo mais fraco de um sistema de transporte ilegal numa fronteira que não lhes permitiu evoluir, mas simplesmente sobreviver. Foram, sem dúvida, importantes agentes económicos para o desenvolvimento das terras fronteiriças.

C.P. - Que produtos transaccionavam?

D.G. - Estamos a falar de produtos alimentares, como carne, peixe, ovos e café. Muitas vezes eram elas donas da mercadoria, mas também haviam apenas as transportadoras destes produtos que arriscavam este trânsito da fronteira para ganhar algum dinheiro e para sobreviverem.

C.P. - Estamos a falar de um contrabando diário?

D.G. - Quando comecei a investigar sobre o contrabando não havia sequer um dia que a folha não esteja escrita no registo de apreensões. Mas havia outro contrabando que não existia, porque as autoridades nem sequer tinham conhecimento dele.

C.P. - Que tipo de contrabando?

D.G. - Estamos a falar de meios pequenos, onde toda a gente se conhecia. Os guardas sabiam que estas pessoas faziam isto por necessidade, logo, isto tornava-se num conflito diário. Como sempre há duas partes da história. Havia guardas que cumpriam com o seu dever e não faziam qualquer distinção. Depois aqueles que tinham conivência e deixavam passar a mercadoria porque era também um ganho para eles. E outros, por uma questão humana, fechavam os olhos. Recordo que isto não é apenas uma história só de mulheres. Os homens também tiveram um papel fundamental. A diferença é que as mulheres nunca tinham falado.

«Mandrana e trapiche»:

C.P. - Sabemos que estas mulheres usavam disfarces para passar a fronteira e produtos que não constavam nas listas oficiais. A «mandrana» era um desses disfarces. Pode defini-lo?

D.G. - É um vestuário próprio adaptado ao trabalho diário destas mulheres, que se dedicavam à actividade agrícola, tinham de cuidar da casa, da educação dos filhos e ainda faziam contrabando. Nem todos os produtos estavam proibidos de passar na fronteira, como refere. Alguns podiam passar mas com uma determinada quota, que passava pela aduana e pagava taxas. Porém, havia produtos proibidos. Na altura da Guerra Civil Espanhola, por exemplo, quando se registou um pico no contrabando de Portugal para Espanha, produtos como o pão não eram permitidos passar e tinham de ser escondidos debaixo de um casaco ou uma saia. Desta forma, criaram uma segunda saia, uma espécie de avental (mandrana) que estava preparada para armazenar, por exemplo, o café cru.

C.P. - O contrabando fazia-se mais à noite nesta região?

D.G. - Depende do tipo de contrabando. O que passava pelo rio, era feito essencialmente pelos homens, com cargas de café e amêndoa, e fazia-se através das barcas pelo rio, sobretudo à noite. Muitos deles eram pescadores e tinham autorização para estar no rio, o que facilitava o contrabando. E na zona da raia seca também era sobretudo à noite. Mas há outro fenómeno dentro do contrabando, o «trapiche». Sendo que estas mulheres eram revistadas, elas tinham de passar pela ponte. O «trapiche» faz precisamente referência a esta actividade legal, e não propriamente ao contrabando. Além disso, as mulheres tinham um passaporte especial de raiana que lhes permitia ter direito de trazer, por exemplo, sete quilos de carne, cinco quilos de peixe, etc. Havia quotas que lhes davam a possibilidade de fazer o comércio legal. E aproveitavam para levar mais coisas. Daí o nome de «trapicheiras». Nesta parte da fronteira em que se deu-se este fenómeno do «trapiche», estas mulheres praticaram o chamado «descaminho», porque elas passavam pela aduana e por um controle fiscal.

C.P. - Como eram as sanções?

D.G. - O contrabando era um delito sério na altura com multas elevadíssimas, podiam também ser presas ou ser-lhes aplicada a pena do desterro. Mas a emigração clandestina era um delito mais grave que o contrabando.

C.P. - Como era a emigração clandestina portuguesa nesta altura?

D.G. - A emigração foi um fenómeno sangrento no nosso país. É terrível a asfixia que sofreu a população portuguesa. Um país que estava na miséria e que proibia as pessoas de tentarem um futuro melhor onde quer que seja. Na raia seca, por exemplo, onde a corrente emigratória clandestina era mais fácil, não houve um dia que não encontrasse nos registos uma tentativa de emigração clandestina. Deram-se casos violentos até. Há pessoas que morreram a tentar passar a fronteira, um homem ou uma mulher podiam ser baleados.

C.P. - E hoje qual é o sentimento destas mulheres perante esta realidade?

D.G. - Estas mulheres, por um lado, sentiam um medo que ainda carregam, até porque estamos a falar de uma época altamente repressiva, de uma ditadura que colocou em cima da população toda uma carga psicológica muito grande. E é até muito interessante comparar as duas ditaduras. No caso da ditadura espanhola exerceu-se uma repressão mais sangrenta e mais à vista, menos camuflada do que a portuguesa, que tinha uma maneira muito refinada de exercer essa tortura diária. E estas mulheres carregam ainda essa herança e esse medo. Outras sentiam vergonha de reconhecer esse passado, não por elas, mas pelos que estavam à sua volta. Com este projecto, senti-me uma privilegiada porque senti que fui a primeira pessoa a quem estas mulheres contaram esta história, como um sinal de libertação. E percebeu-se claramente a necessidade que tinham de falar. Por outro lado, percebi que era fundamental que a comunidade se reconciliasse com o seu passado, que aconteceu, em 2009, quando eu projectei o documentário em cada uma das fronteiras.

C.P. - Recebeu alguns prémios por «Mulleres da Raia». Que importância tem essa valorização?

D.G. - O facto de ser valorizado é fundamental. Os prémios são um modo de dar uma visibilidade à história. O primeiro prémio que recebi em Portugal foi em 2009, no ano da estreia do documentário, no Festival Caminhos do Cinema Português, o único festival do país dedicado a cinematografia nacional. Depois veio o prémio da Academia Galega de Audiovisual e Cinema. Na verdade, «Mulleres da Raia» esteve presente em três festivais: (Caminhos do Cinema Português, Filminho (festival e cinema galego-português) e o Fike (Festival Internacional de Curtas Metragens de Évora).

C.P. - Que projectos tem no futuro?

D.G. - Em Maio vou para o Brasil, com a câmara de novo na mão e vou tentar retratar novamente a identidade e o território, nomeadamente com a casa do Minho no Rio de Janeiro. No fundo será o retrato da comunidade minhota, com um peso importante no Rio de Janeiro, bem como a corrente migratória portuguesa para o Brasil do século XX.


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