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310811_tomatesGaliza - Galizalivre - [Ugio Caamanho] Nengum de nós pode saber quantos produtos transgénicos ingere ao longo do dia, como também nom podemos saber quantos milhares de hectares de milho comercial estám cultivados com sementes de Monsanto na Galiza: pode ser qualquer umha das que rodeiam as nossas casas e as nossas hortas.


O que sabemos é que temos a desgraça de estar colonizados polo Estado europeu mais submisso à indústria agrotecnológica, e até conhecemos, polas pesquisas do movimento popular, a localizaçom exata de algumhas das plantaçons de variedades experimentais. Numha delas, a que sementou em Messia a multinacional Pionner, o ensaio foi abandonado antes de acabar, e alegadamente destruíram-se os restos para evitar a poluiçom. Estes dias, porém, acabamos de conhecer pola Plataforma Galega Antitransgénicos que nesse terreio o milho transgénico rebrotou, de maneira que o experimento se descontrolou e as sementes experimentais incorporárom-se ao ecossistema.

Um 'incidente' como este ganha a sua verdadeira dimensom se repararmos no dado divulgado polo Serviço Internacional para a Aquisiçom de Aplicaçons Agro-biotecnológicas (ISAAA), um organismo apologista da transgénese, segundo o qual as plantas fabricadas nos laboratórios das multinacionais ocupam já 10% das terras cultivadas no mundo. Mesmo que nom existisse tanta pressom económica e política no seu favor, nom vejo como se poderia deter umha praga desta magnitude: o contágio às plantaçons nom OGM é inevitável e praticamente irreversível.

Sendo como é um processo catastrófico para a natureza, as sociedades e a saúde das pessoas, a verdade é que nom passa de um caso particular do processo geral de artificializaçom do mundo em que anda empenhado o capitalismo. Animado polo ódio e o nojo que sente contra o mundo, propujo-se substituir todo o habitat das pessoas, isto é, o meio natural de que fazemos parte entanto que organismos vivos, por umha emanaçom da inteligência: o mundo do capitalismo nom é materialista, como se pode pensar, senom radicalmente idealista. Por repulsom à matéria extermina do mundo (do seu mundo, do nosso mundo) as espécies vegetais, o chao de terra, o ar sem condicionar, as estaçons, o dia e sobretodo a noite, o pó, os 'germes'... e instala no seu lugar este deserto de superfícies lisas e mortas que nos alheiam da nossa condiçom natural. O custo secundário disto, que lhe vamos fazer, é a destruiçom do mundo também para o resto das pessoas e para a vida em geral.

Muitas sociedades no passado concebêrom planos disparatados ou perversos, e algumhas delas conseguírom até culminá-los, para desgraça das suas vítimas. Mas esta neurose particular, a que nos leva a tornar artificial todo o que nos rodeia, tem um perigo inédito: o perigo de que prolifera, e fai-no automaticamente, sem necessidade de açons e quase sem possibilidade de retorno.

Na medida em que somos parte integrante do ecossistema, o ambiente artificial agride os nossos corpos causando os flagelos do cancro, a obessidade ou a depressom, que patologizam de umha forma ou outra a ruptura dos galegos com a Terra. Mas pior ainda é o efeito psicológico, porque acaba por insensibilizar-nos até tal ponto que nem sequer sentimos repulsom perante estas monstruosidades. Logo teremos o gosto e a mente tam atrofiados que nom distinguiremos um tomate normal de um cruze entre tomate e cascuda, nem sequer nos importará. De facto, estamos mais perto de fascinar-nos polo artificial que de rejeitá-lo...

Há décadas que estamos a aguardar por umha 'crise do sistema' que torne insuportável a vida e desencadeie a revolta, mas teríamos que ser capazes de notar que a catástrofe nom está por vir, senom que habitamos nela há muito: basta olhar ao redor e reparar nas ruínas de um mundo, a Galiza, em processo de demoliçom mui avançado. Sem dúvida esta crise tem produzido efeitos políticos, mas resumem-se principalmente na insensibilizaçom e na indiferença. É certo que também suscitou a reaçom política de um nacionalismo que exprime a urgência de retomar o vínculo, de reverter a artificializaçom. Cumpriria quiçá que nos tornássemos mais conscientes e mais sensíveis do detestável que é o que está a fazer Espanha e o capitalismo com o nosso mundo e abandonar a tentaçom de nos convertermos em simples gestores do desastre em curso. Somente umha força assim, que confrontasse os planos de destruiçom física e social da naçom em lugar de pretender corrigi-los ou capitaneá-los, poderia, chegado o caso, preservar algo do que constitui a Galiza: a língua, sim, mas também as nossas serras, as nossas festas populares... ou as nossas sementes autótones.


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