O que sabemos é que temos a desgraça de estar colonizados polo Estado europeu mais submisso à indústria agrotecnológica, e até conhecemos, polas pesquisas do movimento popular, a localizaçom exata de algumhas das plantaçons de variedades experimentais. Numha delas, a que sementou em Messia a multinacional Pionner, o ensaio foi abandonado antes de acabar, e alegadamente destruíram-se os restos para evitar a poluiçom. Estes dias, porém, acabamos de conhecer pola Plataforma Galega Antitransgénicos que nesse terreio o milho transgénico rebrotou, de maneira que o experimento se descontrolou e as sementes experimentais incorporárom-se ao ecossistema.
Um 'incidente' como este ganha a sua verdadeira dimensom se repararmos no dado divulgado polo Serviço Internacional para a Aquisiçom de Aplicaçons Agro-biotecnológicas (ISAAA), um organismo apologista da transgénese, segundo o qual as plantas fabricadas nos laboratórios das multinacionais ocupam já 10% das terras cultivadas no mundo. Mesmo que nom existisse tanta pressom económica e política no seu favor, nom vejo como se poderia deter umha praga desta magnitude: o contágio às plantaçons nom OGM é inevitável e praticamente irreversível.
Sendo como é um processo catastrófico para a natureza, as sociedades e a saúde das pessoas, a verdade é que nom passa de um caso particular do processo geral de artificializaçom do mundo em que anda empenhado o capitalismo. Animado polo ódio e o nojo que sente contra o mundo, propujo-se substituir todo o habitat das pessoas, isto é, o meio natural de que fazemos parte entanto que organismos vivos, por umha emanaçom da inteligência: o mundo do capitalismo nom é materialista, como se pode pensar, senom radicalmente idealista. Por repulsom à matéria extermina do mundo (do seu mundo, do nosso mundo) as espécies vegetais, o chao de terra, o ar sem condicionar, as estaçons, o dia e sobretodo a noite, o pó, os 'germes'... e instala no seu lugar este deserto de superfícies lisas e mortas que nos alheiam da nossa condiçom natural. O custo secundário disto, que lhe vamos fazer, é a destruiçom do mundo também para o resto das pessoas e para a vida em geral.
Muitas sociedades no passado concebêrom planos disparatados ou perversos, e algumhas delas conseguírom até culminá-los, para desgraça das suas vítimas. Mas esta neurose particular, a que nos leva a tornar artificial todo o que nos rodeia, tem um perigo inédito: o perigo de que prolifera, e fai-no automaticamente, sem necessidade de açons e quase sem possibilidade de retorno.
Na medida em que somos parte integrante do ecossistema, o ambiente artificial agride os nossos corpos causando os flagelos do cancro, a obessidade ou a depressom, que patologizam de umha forma ou outra a ruptura dos galegos com a Terra. Mas pior ainda é o efeito psicológico, porque acaba por insensibilizar-nos até tal ponto que nem sequer sentimos repulsom perante estas monstruosidades. Logo teremos o gosto e a mente tam atrofiados que nom distinguiremos um tomate normal de um cruze entre tomate e cascuda, nem sequer nos importará. De facto, estamos mais perto de fascinar-nos polo artificial que de rejeitá-lo...
Há décadas que estamos a aguardar por umha 'crise do sistema' que torne insuportável a vida e desencadeie a revolta, mas teríamos que ser capazes de notar que a catástrofe nom está por vir, senom que habitamos nela há muito: basta olhar ao redor e reparar nas ruínas de um mundo, a Galiza, em processo de demoliçom mui avançado. Sem dúvida esta crise tem produzido efeitos políticos, mas resumem-se principalmente na insensibilizaçom e na indiferença. É certo que também suscitou a reaçom política de um nacionalismo que exprime a urgência de retomar o vínculo, de reverter a artificializaçom. Cumpriria quiçá que nos tornássemos mais conscientes e mais sensíveis do detestável que é o que está a fazer Espanha e o capitalismo com o nosso mundo e abandonar a tentaçom de nos convertermos em simples gestores do desastre em curso. Somente umha força assim, que confrontasse os planos de destruiçom física e social da naçom em lugar de pretender corrigi-los ou capitaneá-los, poderia, chegado o caso, preservar algo do que constitui a Galiza: a língua, sim, mas também as nossas serras, as nossas festas populares... ou as nossas sementes autótones.


