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rsz_fotografiaGaliza - Diário Liberdade - Na véspera da Greve Geral convocada polos sindicatos para esta quarta-feira, o Diário Liberdade quijo conhecer a posiçom de um dos representantes da corrente independentista e revolucionária no seio da CIG.


É conhecida a posiçom das direcçons das principais centrais, mas é menos conhecida a visom dos trabalhadores e trabalhadoras que defendem um modelo sindical diferente, baseado no horizontalismo e no protagonismo das bases. Para isso entrevistamos Óscar Peres, trabalhador do sector da construçom em Narom e integrante da Executiva Comarcal da CIG em Ferrol, identificado com posiçons independentistas e revolucionárias numha central, a CIG, cuja cúpula parece cada vez mais dependente do reformismo autonomista da UPG-BNG.

Óscar Peres é responsável da área de juventude da CIG na comarca de Trasancos, dedicando ao sindicato o tempo que lhe fica depois de cumprir o seu horário laboral. Num intervalo no trabalho de organizaçom da Greve Geral deste 29 de Setembro, tivemos umha conversa com Óscar Peres, que agora reproduzimos para as leitoras e leitores do Diário Liberdade.

Diário Liberdade - Nas últimas greves gerais galegas, em 2001 e 2002, a CIG mantivo a iniciativa mobilizadora, mas nesta parece andar ao ritmo que marcam UGT e CCOO. Que aconteceu para que as cousas mudassem tanto?

Óscar Peres - Efectivamente, a CIG foi nas últimas duas greves o elemento dinamizador e mobilizador da classe trabalhadora na Galiza, inclusive nos últimos trinta anos o sindicalismo nacional e de classe que hoje representa a CIG foi sempre o motor, tanto em solitário como conjuntamente com o resto de centrais sindicais, que fijo por exemplo que a Galiza seja a naçom no conjunto do Estado espanhol onde mais greves se tenhem desenvolvido, só igualada por Euskal Herria. A história demonstra, nom só a capacidade mobilizadora do sindicalismo nacional e de classe, como a própria resposta que a classe trabalhadora foi dando através das diferentes greves, ou da multidom de conflitos e luitas que tem havido no nosso país. Mas apesar disto, e da necessidade de darmos umha resposta contunde ao sistema económico dominante, digamos que a direcçom da CIG nom estivo à altura das circunstáncias e passamos de ser elemento dinamizador a ter que fazer seguidismo das centrais sindicais espanholas, convocadas polas elites sindicais de CCOO e UGT, cúmplices dos retrocessos históricos que nas últimas décadas leva padecendo e sofrendo o povo trabalhador.

A análise desta situaçom deve incluir várias circunstáncias, que explicam em parte esta perda mobilizadora por parte da CIG:

Em primeiro lugar, devemos assinalar o contínuo abandono do modelo sindical do sindicalismo nacional e de classe de princípio dos setenta, até mesmo a década de noventa, caracterizado pola combatividade e a luita, além dos conflitos sectoriais e territoriais pontuais, rupturista tanto da perspectiva de classe como em chave nacional. Este modelo vai sendo substituído por um outro mais burocrático e de gestom, perfeitamente integrado no sistema, e que infelizmente se parece, em chave galega, com o modelo proposto polo sindicalismo espanholista, representado por CCOO e UGT.

Em segundo lugar, caminha-se para o sindicalismo das elites sindicais, no qual a própria "aristocracia obreira", em muitas ocasions alheia ao próprio mundo do trabalho, domina os postos de direçom do sindicato, existindo na praxe umha separaçom perigosa entre sindicalismo e mundo do trabalho. Se historicamente @s lideres sindicais nasciam da própria praxe sindical nos centros de trabalho, produzindo-se umha chegada aos postos de direcçom a partir de baixo, no modelo actual pretende-se que pessoas com nula experiência no mundo do trabalho e na própria acçom sindical "aterrem" a partir do alto.

Também há que assinalar a perda progressiva da democracia interna dentro CIG, ao passar cada vez mais a um modelo tutelado e de controlo, no qual, por exemplo, o próprio assemblearismo na tomada de decisons ou a potencializaçom e auto-organizaçom de certos sectores, como a juventude ou a mulher, ficam ao margem ou mesmo som atacados.

A existência dumha maioria sindical, na direcçom da CIG, ligada fundamentalmente ao autonomismo representado pola UPG-BNG, e a inexistência dumha oposiçom forte a nível nacional à mesma, fai com que se fortaleçam os aspectos antes assinalidos e que se opte por um modelo muito mais institucionalizado e dócil para o sistema, com o ojectivo de obter réditos eleitorais para determinadas siglas e sendo, portanto, em muitas ocasions interesses alheios à classe trabalhadora os que marcam as linhas a seguir pola central sindical.

Todo isto, unido à falta de audácia da direcçom actual da CIG, fai com que cheguemos à greve geral do dia 29-S fazendo seguidismo do sindicalismo espanholista de CCOO e UGT, sem que fôssemos capazes de marcar linhas próprias, como tinha feito historicamente o sindicalismo nacional e de clase, ou como fijo agora o sindicalismo basco.

DL. Também existe umha polémica importante sobre o papel da juventude na central, depois das decisons tomadas no último congresso, que parecem dificultar, em lugar de favorecer, a participaçom da gente nova. Que podes dizer-nos sobre essa questom, como responsável comarcal da CIG-Mocidade em Trasancos?

Como dizia antes, a maioria sindical ligada fundamentalmente à UPG, depois do V Congresso Nacional realizado em Junho, pretende umha maior verticalizaçom do sindicato, um maior controlo e tutela tanto na tomada de decisons como na própria auto-organizaçom de sectores, como é o caso da mocidade, e que está a influir de jeito negativo, junto com outros aspectos, na participaçom da filiaçom e, concretamente, da gente mais nova.

Se realmente pretendemos que a juventude participe na CIG, haverá que deixar que seja ela que decida as políticas a seguir, as campanhas a realizar ou o trabalho concreto a desenvolver. Qualquer outra via de intervençom está abocada ao fracasso, já que será umha imposiçom e nom um espaço de participaçom. Assim nom vamos conseguir atrair a gente mais nova para o nosso projecto.

Realmente, no caso da juventude, há que dizer que, infelizmente, a direcçom actual nom acredita nela e por isso aposta num modelo tutelado, no qual nada escape ao controlo da maioria actual. Realmente isto é muito nocivo, já que nom acreditar na mocidade supom nom acreditar no futuro do sindicato.

Neste sentido e apesar de ter que jogar com estas regras, a nível comarcal, pretendemos por umha parte potenciar a participaçom da mocidade, para isso devemos ajudarnos dos poucos mecanismos que nos deixam, sendo precisamente que sejam as assembleias da mocidade, os principais motores na tomada de decissons para a juventude, neste sentido estamos a começar um caminho que aguardamos vaia tendo os seus frutos. Temos que fomentar portanto espaços de participaçom para a mocidade, frente aos que pretendem por-lhe cadeias ou limitaçons, sabendo que um modelo no que pretendamos que a gente jovem seja mera observadora do que decidem as cúpulas sindicais nom é o acertado.

rsz_12fotografia2DL. Que dirias a quem, apelando à traiçom das burocracias sindicais, pensa que nom vale a pena aderir à greve geral umha vez que a reforma laboral já foi aprovada?

É claro que a greve chega tarde; também é claro que precisamente esta greve parte dumha situaçom em que o descrédito por parte dos sindicatos é o mais alto nas últimas décadas, fruto de umha verdadeira traiçom das burocracias sindicais. Mas a verdade é que a classe trabalhadora nom pode desperdiçar umha jornada de luita quando o ataque que estamos a sofrer novamente como classe vai agravar ainda mais a situaçom do conjunto dos trabalhadores e trabalhadoras e vai levar a um modelo que nos vai empobrecer ainda mais. Neste senso, há que ter em conta que @s grandes prejudicad@s nom vam ser precisamente as burocracias sindicais, vam ser as trabalhadoras e os trabalhadores em geral. Nom participar nesta jornada de luita supom nom só aceitar a reforma laboral, mas que também o pacote de medidas que já estám preparadas e que nos levam anunciando desde há meses, que vam na linha de reduzir direitos, para poder manter o sistema em pé para que uns poucos mantenham os seus privilégios, frente a umha maioria que vai piorar as suas condiçons de vida e trabalho.

Também é importante que esta jornada sirva para dizer aos governos e aos poderes económicos que nom aceitamos este modelo esgotado e nocivo para a humanidade, os povos e o meio natural, e que portanto devemos caminhar claramente para um outro sistema, para um modelo socialista. Além disto, também é preciso que as mobilizaçons tenham umha boa participaçom, para assim também dizer às burocracias sindicais que nom aceitamos esse modelo de contençom social, que nom podemos ser novamente nós, a classe trabalhadora, que paguemos a crise, e que há apostar num modelo sindical de luita e combate, de confronto directo. Por isso, participar nessa jornada e fazê-lo activamente supom também todo isso.

É preciso que a classe trabalhadora participe activamente na Greve Geral do dia 29-S, sabendo também que o dia 29 nom é nengum ponto final. Deve ser o início dum caminho que traga metas maiores para a classe trabalhadora. E fago este apelo, tendo em conta também os termos absolutos com que se apresenta esta jornada por parte dalguns. O dia 29 deve ser umha jornada mais na luita colectiva da nossa classe contra o sistema.

DL. A CIG tem participado em diferentes organismos junto a representantes patronais e mesmo se tem mobilizado partilhando convocatória com associaçons de empresários. Qual é a tua opiniom sobre essa linha sindical?

Em primeiro lugar, é umha linha totalmente equivocada. A CIG nom pode participar como central sindical em nengumha plataforma, convocatória ou organismo em que se pretenda umha conciliaçom de classes, nom podemos compartir mesa precisamente com quem nos está atacando. A nível comarcal pola minha parte assim o tenho manifestado, tanto na participaçom, no passado, no chamado Plano Ferrol, como na Plataforma Rumbo 21 ou outro tipo de mesas similares, que realmente o que fam é aproveitar-se da classe trabalhadora em favor dos interesses patronais ou, em todo caso, para evitar a conflitualidade.

A concialiaçom de classes, ou o diálogo social, som instrumentos de controlo e contençom, nos quais só sai favorecido é o patronado, em detrimento da classe trabalhadora. Um exemplo claro disto foi precisamente a encenaçom do"diálogo social" por parte de CCOO e UGT e os patrons, antes da aprovaçom por parte do governo do PSOE da actual reforma laboral, ou do Real Decreto para a reduçom do défice público do mês de Maio.

Se realmente estamos a favor de romper com o sistema actual, nom podemos participar em espaços que o único que fam é justificá-lo. A única posiçom que deve ter a CIG como sindicato de classe diante do patronato é a de luita, é a do confronto e o combate cara a cara, qualquer outra posiçom pode obedecer a interesses pessoais ou partidaristas, mas nunca vai atender aos verdadeiros interesses da defesa da classe trabalhadora.

DL. Em numerosas ocasions tem sido denunciada a instrumentalizaçom da CIG por parte do BNG, em funçom do seu peso nos organismos de direcçom da central. Como vês a relaçom entre sindicalismo e política?

Eu penso que nom existe problema porque um sindicato esteja politizado, ao contrário, um dos grandes males que existem na actualidade em muitas ocasions é a falta de ideologia ou politizaçom da gente, que o próprio sistema alimenta fomentando o individualismo. Frente à falsa demagogia de que nom se podem misturar política e sindicatos, penso que é inevitável e mesmo conveniente, sabendo que no mesmo momento que um grupo de trabalhadoras e trabalhadores se enfrenta ao patrom está a fazer política, ou no momento em que se convoca umha jornada de luita estamos a fazer política, já que som exemplos claros de que se está a questionar o poder estabelecido e mesmo se aposta por mudar o sistema. Portanto, a ligaçom entre política e sindicalismo é clara e evidente.

O problema radica, do meu ponto de vista, no caso concreto do poder do BNG dentro da CIG, em se realmente os interesses que defende o BNG favorecem os interesses da classe trabalhadora galega e, portanto, estám ligados com os que deveria defender a CIG. A resposta é, em minha opiniom, que nom. Em primeiro lugar, trata-se dum modelo integrado totalmente no sistema, cada vez mais institucionalizado e no qual, no melhor dos casos, a ligaçom necessária entre questom nacional e de classe fica diluída. No fim de contas, isso conduz para um modelo nacional em chave burguesa, alheio aos interesses da classe trabalhadora. Por outra parte, essa maioria ligada ao BNG na direcçom da CIG leva o seu modelo à central, variando totalmente a linha combativa que caracterizou a histórica do sindicalismo galego (com excepçom de conflitos concretos) e apostanto num modelo burocratizado e sectário, reduzido à gestom e aos serviços, como estrutura de poder dentro do sistema. Interessa-lhe ter a CIG controlada e ao serviço do seu projecto interclassista e reformista, evitando a participaçom, a combatividade e a orientaçom anti-sistema que deve ter umha central operária.

Em todo o caso, a ligaçom entre política e sindicalismo é necessária, sempre com a premissa de que haja um escrupuloso respeito pola independência sindical e pola própria autonomia da organizaçom, sem tutelas nem verticalismos, ainda existindo umha ligaçom clara de defesa nacional e de classe entre ambas.

DL. É possível combater o burocratismo enquistado nas principais centrais sindicais actuantes na Galiza, CIG incluída?

Nom só é possível, é totalmente necessário. Para isso, é fundamental defender e desenvolver um outro modelo sindical, do qual creio que expugem algumhas características durante esta entrevista. No caso concreto da CIG, é imprescindível trabalhar por um modelo baseado no conceito de militáncia, quer dizer, na participaçom das trabalhadores e trabalhadoras; e onde exista um verdadeiro assemblearismo, frente a um modelo como o actual, que potencializa a promoçom e perpetuaçom de elites sindicais, limitando ou até anulando a partipaçom na tomada de decisons.

É necessário recuperar a ligaçom entre o mundo do trabalho e o sindicalismo, favorecendo sem dúvida os mecanismos necessários para obrigar a que as pessoas que acedem à direcçom do sindicato provenham dos centros de trabalho e das fábricas, desterrando a figura actual de pessoas que aterram na central sindical e que só alimentam o cancro do burocratismo.

Recuperar o aspecto mais combativo e de mobilizaçom, frente ao modelo de gestom dos serviços ou resultadista. Nom podemos defender um modelo no qual os sindicatos actuem como simples "gestorias" ou que o seu fim último seja mais ou menos delegad@s. A maior ou menos combatividade nom podemos geri-la em funçom da representatividade a obter.

Aposta clara na independência e o socialismo e, portanto, umha ligaçom clara entre a questom nacional e a de classe.

DL. A CIG costuma reivindicar nas suas campanhas "um outro modelo socioeconómico". Porque parece custar-lhe tanto falar de socialismo ou de umha ruptura radical com o capitalismo?

Em grande parte, isso deve-se à relaçom que existe entre a maioria sindical da CIG e o autonomismo representado pola UPG-BNG e, portanto, ao abandono no caso da CIG desses sinais de identidade para passar a apostar num modelo de integraçom total no sistema, que choca claramente com um modelo rupturista, tanto no plano nacional como de confronto com o sistema dominante. Se bem a CIG defende um outro modelo socioeconómico com a boca grande, tam só com a boca pequena di qual.

Qualquer modelo reformista que pretenda defender a classe trabalhadora mediante a sua integraçom no sistema está abocado ao fracasso. A única via que existe, e a história do movimento operário assim o certifica, é umha ruptura clara com o capitalismo e umha aposta clara por um modelo socialista.

Em todo o caso, na CIG ainda há muita gente que precisamente aposta num outro modelo sindical em termos semelhantes aos que expugem. Essa é a melhor garantia para a necessária transformaçom da linha no interior do nosso sindicato.


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