Você acha que é preocupante a concessom às corporaçons dos direitos das pessoas, no caso de Citizens United? Nesse caso, contemple o facto de que as corporaçons já patentearam genes humanos e tecidos em taxas alarmantes: nos últimos 30 anos, mais de 40 mil patentes foram concedidas só em genes.
Da mesma forma que o movimento Occupy luta contra a consumada influência das empresas nas nossas vidas, o livro da autora e especialista em ética médica Harriet Washington, intitulado "Deadly Monopolies: The Shocking Corporate Takeover of Life Itselt - And the Consequences for Your Health and Our Medical Future" (Monopólios letais: o impressionante poder das grandes corporaçons sobre a vida mesma e as suas conseqüências para a saúde e o futuro médico), é umha oportuna chamada de atençom para proteger a própria essência da vida humana diante do complexo médico-industrial.
Numha recente entrevista por telefone com a Alternet, Washington analisou as obscuras implicaçons da patentizaçom de produtos médicos outorgada às empresas, até que ponto nos encontramos neste cenário de pesadelo e o que se precisa fazer para cessar a influência dos lucros na investigaçom sobre a saúde humana. Washington é também autora de "Medical Apartheid" (Apartheid Médico), que recebeu o Book Critics Circle Award (Prémio do Círculo Nacional de Críticos Literários). Foi bolseira em ética médica na Escola Médica de Harvard, bolseira de investigaçom no Centro Nacional de Bioética da Universidade de Tuskegee e bolseira na Escola de Saúde Pública de Harvard.
Brad Jacobson: a principal lei que abriu as portas para as empresas começarem a patentear vida humana foi a chamada Lei Bayh-Dole, de 1980. Pode dizer-nos como foi vendida esta lei aos cidadaos americanos?
Harriet Washington: Apenas para rememorar o que é a Lei de Bayh-Dole, trata-se de umha lei que permitiu pola primeira vez às universidades transferirem legalmente as suas patentes às corporaçons privadas, para serem postas à venda, para serem licenciadas. Isto estivera praticamente proibido no passado porque a maioria destas novas invençons eram desenvolvidas com dinheiro do contribuinte. E fora razoado desta maneira: "Se é fomentado o desenvolvimento das investigaçons com os nossos impostos, entom nom devemos permitir que estes vaiam para companhias privadas que podam estabelecer monopólios com as patentes".
Foi vendido para o público americano principalmente polo ex-senador do estado de Indiana, Birch Bayh, naturalmente em parceria com o ex-senador de Kansas, Bob Dole. Mas, foi Birch Bayh quem elaborou o argumento de que nós temos todas essas patentes circulando, ninguém está fazendo nada com elas. Se deixarmos as empresas disporem delas, desenvolverám com estas os medicamentos necessários. Entom vendeu-se à populaçom que é este o caminho para conseguir os medicamentos e tratamentos que precisamos.
Entretanto, o que é realmente interessante é que quigem adentrar-me nos bastidores e com certeza olhei que, em vez de ser qualquer medida de apoio popular, a lei, de facto, passou na última hora, do último dia, da última sessom do Congresso por causa de algumhas boas redes clientelares.
BJ: Também no 1980, a contrapartida legal para essa abertura empresarial chegou com a decisom judicial Diamond vs Chakrabarty, na qual as patentes de um cientista que descobreu umha bactéria que se alimenta de petróleo foi contestada. Mas, como isso é diferente do que tinha sido patentável no passado?
HW: É certamente umha boa pergunta, porque as cousas vivas já foram patenteadas no passado. Mas nom é exactamente assim, trata-se duma ideia errada que tenhem as pessoas. Lois Pasteur patenteou uma levedura. Takamine (Hideo) patenteou a adrenalina. Gram quantidade de cousas naturais foram patenteadas com anterioridade. Porém, freqüentemente existiram muitos problemas legais porque as pessoas pensavam: "Esta patente nom é válida porque nom se pode patentear um produto da natureza".
Entom, no ano 1980, quando Ananda Chakrabarty, pesquisador da General Electric, decidiu promover a patentizaçom de algumas bactérias com as que se tinha investigado intensamente com o objetivo de ingerir petróleo, a oficina de patentes norte-americana afirmou: "Vamos patentear o processo utilizado, nom as próprias bactérias. Elas som seres vivos e só as invençons som patenteáveis. Nom é possível patentear produtos da natureza".
Conseqüentemente, Chakrabarty e General Electric demandárom e a oficina de patentes optou por transferir o caso à Corte Suprema. A Corte decidiu que, sim, os seres vivos podem ser patenteados, o qual é interessante porque Chakrabarty insistiu que ficara perplexo com a decisom. Dixo que esperava ganhar o caso com total seguridade, mas que estava surprendido de que a Corte Suprema permitira a patentizaçom de seres vivos de forma mais ampla.
Mas agora está sendo aplicado a cousas onde a contribuiçom do pesquisador está longe de ser tam extensa. E assim, naturalmente, as seqüências genéticas que se encontram no nosso corpo estám sendo patenteadas. Animais de importância médica (como o oncorato de Harvard que está garantido como portador de células cancerígenas) estam sendo patenteados. E assim estes produtos da natureza, incluindo produtos dos nossos corpos, criárom enormes problemas por estar sendo patenteados.
BJ: No ano 1951, Henrietta Lacks, umha mulher afro-americana, foi tratada de câncer cervical sem muito sucesso na Universidade de John Hopkins. Sem o conhecimento de Henrietta nem o da sua família, o Dr George Gey, investigador nesta universidade, obtivo dos seus médicos umha amostra do tumor, o que eventualmente levou à criaçom de umha linha de células inmortalizadas utilizada no desenvolvimento da vacina contra a poliomielite, bem como medicamentos para numerosas outras doenças. Também genou milions de dólares em lucros em todo o mundo, mas a família Lacks nunca foi compensada, quando nem sequer tinha seguro de saúde no momento. Como foi neste caso, um prenúncio do que viria a seguir, no contexto dos direitos dos pacientes em relaçom com as patentes médicas?
HW: Eu, de facto, encontrei-me com a família Lacks a meados da década de 1990. Escrevim sobre o caso dela e acho que há algumhas cousas que foram promulgadas com falta de veracidade. É certo que a família nom tinha seguro médico e que nom fora compensada. Mas eles nunca mostraram preocupaçom com nom serem compensados. Creio que posteriormente se desviou a atençom sobre este aspeto por pessoas que vinham com as melhores intençons do mundo. Algumhas das pessoas que escreveram sobre eles estavam muito preocupadas com o assunto da compensaçom económica.
Mas a família Lacks expressou insistentemente que a sua mae contava com um benfeitor e ninguém sabia disso. Seu nome fora mudado nas contas, por isso ninguém sabia disso. Eles estavam realmente desgustados em relaçom à sua independência. E evidentemente nom gostavam de terem sido enganados.
BJ: Você menciona no livro a natureza paternalista que Dr Gey tinha adoptado. A desculpa que ele usou foi que mudara o seu nome para a proteger, mas eles nunca aceitaram isso.
HW: O seu esposo pensava que eles nom queriam que o mundo soubesse que umha mulher negra estava ajudando a ciência. E esta atitude pareceu ser prevalecente na família. Eles ressentiam-se disso.
BJ: Qual é, no entanto, o impacto possitivo dessa linha de células de nunca ter sido patenteadas?
HW: O que aconteceu com Henrietta Lacks foi um abuso para ela e a sua família. Mas a difusom das suas células a baixo custo, nom de valde, mas mui baratas, fijo possíveis muitos avanços médicos. A razom pola que nom foram patenteadas foi que nom era legalmente possível ao ter acontecido isto antes de 1980. Também nom fazia parte da cultura médica na altura. A medicina era praticada por pessoas em ambientes universitários. Estes tiveram motivaçons diferentes e nom o dinheiro.
Agora é impossível especular sobre o que teria acontecido exatamente. Mas de ser patenteadas as suas células, e de ter isto acontecido antes de 1980, existe a possibilidade de que no caso de ser reconhecido certamente o seu valor, o Dr Gey, ou John Hopkins, ou algum outro pesquisador teriam tomado a patente das células e depois, as teriam licencenciado, como é habitual, só a investigadores e universidades que pagaram por elas robustos honorários. Ou talvez nom permitiriam de ningumha maneira a sua licença.
O que significa que a vacina contra a poliomelite, provavelmente ainda estaria a se desenvolver, mas poderia ter um custo muito mais alto. Poderia nom estar disponível para todo o mundo como estivo. Portanto, estas som as diferenças.
BJ: A John Moore, um paciente de leucemia em 1980, primeiramente retirou-se-lhe o baço no ano 1976. Sem que ele soubesse, derivaria na criaçom de umha linha celular estimada em tres milions de dólares pola companhia farmacêutica Sandoz. Moore demandou ao médico autor da remoçom do baço depois que descobreu que este tinha requerido umha patente das suas células e proteinas que resultaria nesta lucrativa linha de células. Você pode falar um pouco sobre a diferênça entre o que aconteceu neste caso e o seu impacto?
HW: Quando John Moore foi tratado inicialmente, a lei Chakrabarty nom fora ainda aprovada. A Bayh-Dole também nom tinha sido aprovada. Assim, como cousas vivas, as células nom eram elegíveis para ser patenteadas. De qualquer forma, umha vez que estas leis passárom, o seu médico, Dr David Golde, junto com a Universidade de California, respondeu imediatamente tirando a patente das suas células.
O seu médico reconheceu que o seu baço e as suas células eram clinicamente importantes. Ele sabia esto muito antes de poder tirar a patente delas. Tenho certeza de que naquele momento ele nunca sonhou que em poucos anos seria capaz de aproveitar esta recolha e amostra de células e tecidos ( que mantinha vivas e nas que investigava assiduamente ) para tirar umha patente delas e controlar os seus lucros.
Entom, quando a lei foi aprovada, Dr Golde já tinha estabelecido um laboratório para fazer pesquisas sobre elas. Ele e outro pesquisador na universidade proprietária da patente. Depois, eles fórom a Sandoz e estabelecérom um contrato por 3 milions de dólares. Sandoz poderia logo adquirir imensos lucros. Antes disso, Dr Golde tinha-se interessado polos assuntos habituais: seria capaz de desenvolver algum composto clinicamente útil e, mais ao ponto, converter-se em profissional famoso ademais de obter algumhas publicaçons. Agora, houvo um grande tratamento económico para se fazer.
BJ: Você escreve que hoje, de algum jeito, ao contrário do caso de Henrietta Lacks e John Moore, é normal patentear tecidos em grandes quantidades, que proporcionam imensas riquezas às pessoas que se aprópriam destas patentes. Entom, você está dizendo que todo o mundo é agora vulnerável ao mesmo tipo de apropriaçom, como aconteceu com Lacks e Moore?
HW: Sim. A vulnerabilidade de Lacks e Moore foi um pouco diferente, mas era o mesmo princípio. E hoje, todos somos vulneráveis a isso. Somos vulneráveis porque no caso de nos submeter à cirurgia em alguns hospitais, como nos hospitais universitários de Harvard ou no Duke ou num número deles, oferece-se-nos um formulário de consentimento para assinar, o que concederá a umha empresa privada, em muitos casos Ardais (Corp.), os direitos de quaisquer tecidos ou células retiradas do nosso corpo, a miúdo descritas no formulário como "descartados e sem valor". Mas eles nom som inúteis ou a corporaçom nom os teria comprado.
Além disso, em muitas cidades deste país (verdadeiramente, em mais da metade dos estados) existe algo chamado "leis forenses" ou "lei do presumido consentimento". Estas leis determinam que os médicos forenses dessas cidades, quando alguém morre, podem tomar quaisquer tecidos do corpo que pudesse ter algum valor médico. Em seguida, eles som transferidos a um corretor ou dous, que depois, eventualmente, os transfere aos cirurgiâos ou aos hospitais. A cada passo, há um pago de taxas. E, em seguida, a instituiçom paga mais umha taxa. Assim, ainda que tecnicamente seja contra a lei vender órgaos ou vender os tecidos, do meu ponto de vista estes já estám a ser vendidos.
E entom, naturalmente, o resultado é umha pesquisa médica realizada por empresas privadas ou nas que as corporaçons pagam às instituiçons médicas para conduzir as investigaçons de acordo com os ditados destas, o que significa o seu controle. Assim, umha cousa que começaram fazendo foi aproveitar-se de umha lei do 1996 que regula a investigaçom médica, que aponta que se você estiver nos Estados Unidos e for vítima de um trauma (tiro no peito, ataque cardíaco, atingido por um carro) a pesquisa médica pode ser realizada em você sem a sua permissom.
Algumha vez falei com sujeitos da investigaçom que nom tinham idéia de que eles eram usados em pesquisas médicas até que foram informados por algum membro da sua família. Todos nós esperamos que se nos ofereça um consentimento informado. Na investigaçom médica, isto é umha exceçom.
BJ: Existe alguma legislaçom hoje que você conheça que se introduza para deter estas questons?
HW: Nom sei de nengumha legislaçom que esteja sendo promovida ou que até mesmo tenha sido sugerida. Eu acho que isto é assim porque mui poucos membros do público apenas conhecem o que é que está acontecendo. Você nom pode lutar contra algumha cousa se nom sabe que existe. E encontro realmente interessante que, apesar de que algumhas revistas médicas me tenhem chamado e entrevistado sobre este assunto nom se publica em ningum lugar acessível à maioria das pessoas.
Eu escrevim um artigo para umha revista ( por prudéncia nom aportarei o nome), umha revista popular com umha circulaçom mui grande. Eles disseram que gostaram muito do artigo, que gostariam poder tê-lo publicado, até o momento em que recebim umha chamada de telefone dizendo que eles estavam decidindo o seu cesse e que de qualquer forma receberia o pago por ele.
BJ: Em quanto a situaçom "consensual", quando umha paciente é requerida para firmar umha autorizaçom antes de ir para a cirugia? Pode ser legal, mas também é mui enganador, nom é?
HW: Isso é consensual. Mas a legalidade de fazer isso realmente resulta um pouco imprecisa. Acho que nom foi bem estabelecido se é legal ou nom tomar os tecidos de alguém nas cirurgias sem pedir a sua autorizaçom primeiro. Assim o que acontece é que os investigadores e as corporaçons decidiram cobrir-se, ao conseguir pessoas que neste cenário assinam formulários de consentimento, e a dificuldade, como você sugire, consiste em se estas pessoas certamente entendem o que estam assinando.
Mas o pedaço de papel, o formulário de consentimento, nom é informado consentimento. Se você tem num archivo um formulário de consentimento assinado e vai ao tribunal com ele, isso nom é prova de consentimento informado. Isso é apenas umha peça de evidência para apoiar a sua afirmaçom de ter informado ao paciente. O atual consentimento informado é um processo contínuo entre o pesquisador e o sujeito. Você tem que fazer saber ao sujeito nom só toda a informaçom sobre o estudo, sobre o que é conhecido em quanto as consequências, senom que também deve informar se emergem novas informaçons, manter a pessoa informada disso. Isso é o consentimento informado.
O que eles estam fazendo é acumular formulários de consentimento que provem que estam proporcionando aos pacientes informado consentimento. Mas a verdade é que, como pode presentir, se você é paciente dum hospital, e som as seis horas da manhá, ainda está adormecido pola medicaçom para dormir na noite anterior, você é acordado, oferecido um formulário de impresos para assinar por umha cirugia que presumivelmente precissa e tem profissionais em pé ao redor... isso nom é conducente ao consentimento informado.
A maioria dos pacientes nom vam ler o formulário, mas isso é lógico. Você entende, você precissa desta cirurgia. A última cousa que quer fazer apenas antes de passar pola faca é contrariar as pessoas que estám fazendo a sua cirurgia.
BJ: Como é que estas leis de patentes médicas atualmente impedem a inovaçom?
HW: Um bom exemplo disso, porque o processo judicial está pronto para ir à Corte Suprema, som as patentes dos genes BRCA1 e BRCA2 que predisponhem as mulheres ao cancro de mama. Som genes mui importantes e há nove patentes feitas sobre eles por Myriad Genetics. A Myriad Genetics comporta-se como um capitalista bem inteligente. Durante muito tempo, tem minimizado o número de pessoas às que concederá licencenças de acesso aos genes. Investigadores e investigadoras que tenhem trabalhado com genes, tentando encontrar os melhores tratamentos para o câncer de mama, tenhem recebido cartas de cessamento e desestimaçom de advogados por ordem de Myriad, dizendo: "Nós controlamos este gene, temos a patente, você nom pode trabalhar sobre ela sem a nossa autorizaçom" que muitas vezes eles se recusam a dar.
Entom isso é um problema agora. Assim, olha para o preço do teste para mulheres que querem comprovar o risco de padecer cancro de mama. A maioria das mulheres evidentemente nom precisam de fazer este teste, mas a publicidade dirigida por Myriad, diretamente ao consumidor, confunde às mulheres e realmente fai que se entenda necessário para elas, polo qual, é óbvio que incrementa os seus lucros. Ele também asustará innecesariamente a muitas mulheres que som induzidas a pagar até 3.000 e 4.000 dólares polo serviço.
Um desenvolvimento recente é especialmente desagradável porque agora você pode pagar inicialmente esses 3.000 ou 4.000 dólares, mas há também um teste adicional, um teste relativamente novo, baseado mais umha vez nos genes. E se você quer isso, deve pagar uns 600 dólares adicionais. Obviamente se você for umha mulher em risco de padecer cancro, nom vai considerar esses 600 dólares de forma opcional. Assim todo isto supom umha grande quantidade de dinheiro.
BJ: O que acontece se dentro do quadro legal do processo das patentes médicas de hoje um investigador ou investigadora procura um roteiro mais altruísta, semelhante ao que Jonas Salk fijo com a vacina da poliomelite? E isto possível hoje ou será este indivíduo esmagado polo sistema?
HW: É possível e trata-se de umha ótima questom porque umha das cousas realmente positivas que estam acontecendo e que, você sabe, com certeza nom som apenas eu ou outra gente as que estamos a fazer crítica deles (muitos investigadores médicos, como falei antes, estám vendo o perigoso resultado deste paradigma e estám trazendo alternativas viáveis).
A Fundaçom Gates é provavelmente o exemplo mais conhecido. Bill Gates tem trabalhado com uma velha iniciativa para levar vacinas ao mundo em desenvolvimento (a sua sigla é GAVI). Também trabalhou com os governos nos países em desenvolvimento e criou um modelo chamado Directivas de Mercado Avançado. Basicamente, o que eles fam é aportar fundos assim como impulsar os seus próprios fundos dizendo às empresas farmacêuticas: "Se você vai desenvolver, por exemplo, umha vacina contra a malária que seja barata e trabalhe bem para o mundo em desenvolvimento, nós pagaremos, e asseguraremos que um lucro seja ganho". E tivérom sucesso. Eles produzem algumha vacina (bastantes, de facto), mas umha em particular pode custar 70 dólares nos Estados Unidos. O equivalente na Nigéria é só de 50 cêntimos, por causa deste modelo.
Agora, adianto, nom ficamos a salvo ainda, porque todas as empresas farmacêuticas que figeram isso (que eu acho que é maravilhoso que estam indo para diante com o modelo dando-lhe umha tentativa) outorgam-se o sucesso do modelo. O qual nom é exatamente o caso.
Eles estam fazendo isso porque recebem dinheiro que é garantido por outros. E GAVI, o grupo que ajudou efetivamente a garantir o pagamento já tem ao redor de 3 bilions de dólares em dívida por causa disso. Entom isto significa que mesmo que o modelo funcione bem em alguns casos, preocupa-me que nom seja um modelo viável a longo prazo.
Nos já vimos isto antes, quando as empresas farmacêuticas, por exemplo, forneceram de medicaçom para a doença do sono, Eflornithine. Proporcionavam esta medicaçom apenas a curto plazo, por cerca de 5 anos, logo suspendiam a distribuiçom. Agora as pessoas que estám em risco, e eu acho que som como 60 milions de pessoas na África subsaariana, nom tenhem acesso a essa droga. Por isso, para mim, estamos ante umha moral da história enquanto nós precisamos soluçons de longo prazo.
E há outros grupos de investigadores ao redor do mundo que também estam adoptando um modelo nom-corporativo diferente. Um homem chamado Alan Edwards em Toronto juntou umha coaliçom de muitos investigadores e investigadoras. Trabalhou anteriormente com a mesma estratégia para o governo. Ele nom pretende descobrimentos patenteados. Assim o que fam cada dia (qualquer cousa na que trabalhem naquele dia, qualquer soluçom com a que se encontrem, qualquer cousa que identifiquem ou categorizem como clinicamente importante) será colocado na internet. É considerado conhecimento público, o que significa que nom pode ser patenteado.
Portanto, há estratégias que estam sendo agora adoptadas para trabalhar ao redor do controle corporativo na investigaçom médica.
BJ: Como afetou a febre do ouro das patentes médicas à acessibilidade das vacinas que salvam vidas no caso de doenças estendidas?
HW: Bem, simplesmente porque o interesse é a maximizaçom do lucro, nom o restabelecimento da saúde no máximo número de pessoas possível. Michael Kremer, um economista de Harvard, explicou melhor este ponto. Ressaltou que durante o período entre 1975 e 1997, dos 1.233 novos medicamentos que a indústria farmacêutica concebiu, apenas quatro deles foram drogas desenhadas para as pessoas dos países em desenvolvimento.
O resultado é que, embora seja possível criar vacinas que procurem salvar as vidas das pessoas no mundo em desenvolvimento, nom é feito porque estas pessoas nom podem pagar os inflacionados preços que as corporaçons carregam. Assim eles ignoraram o pessoal destes países em desenvolvimento.
E como assinalei no caso da doença do sono, onde a Eflornithine foi encontrada eficaz contra ela, as pessoas nas áreas afectadas pola doença africana nom podem pagar os altos preços das drogas. Deste jeito, depois de alguns anos em que estes medicamentos foram proporcionados de graça, eles pararam de fazê-lo e exatamente a mesma molécula, a Eflornithine, é agora o componente ativo em Vaniqa, que é usado no Ocidente para ajudar as mulheres a livrar pêlo indesejável do seu rosto. Neste caso as mulheres pagam 50 dólares por mês em Vaniqa, mas as pessoas nos países em desenvolvimento nom podem pagar esses 50 dólares por mês para manter-se vivos, para se protegerem contra a doença do sono.
BJ: No seu livro, você cita um estudo de 2009 no New England Journal of Medicine, que constatou que um terço dos ensaios clínicos norte-americanos som realizados no exterior, principalmente nos países em desenvolvimento, onde as drogas podem ser testadas de forma mais barata. Você pode falar da desigualdade existente no facto de que a maioria dos sujeitos testados nestes ensaios (nos quais as empresas estam ganhando milhons por trabalhar lá) nunca serám capazes de poupar, ou ter a necessidade das drogas que estam sendo testadas neles?
HW: Normalmente ambos. Mas, mesmo nos casos em que é umha droga, como você aponta, que poderia ajudá-los, nom vai ser assim porque eles vam ser carregados com os mesmos elevados preços que as pessoas no Ocidente. E sabendo que eles nom podem pagar, deixam de se fornecer.
O que eu acho fascinante é que, se você pensar bem, essas pessoas nos países em desenvolvimento estam possibilitando a oportunidade de realizar ensaios clínicos que som muito mais baratos e rápidos para essas corporaçons. As empresas teriam que pagar bastante mais dinheiro se eles realizaram os testes nos países desenvolvidos. E assim, em verdade nós somos os endividados.
Temos um novo medicamento para o câncer, por exemplo, que foi concebido testando pessoas no mundo em desenvolvimento para nós a podermos ingerir sem medo de morrer, eu espero. Devemos isto às pessoas no mundo em desenvolvimento. As corporaçons reservaram demasiado dinheiro usando esta gente nos seus testes. A rapidez é mui importante porque maximiza a quantidade de tempo da patente para que eles podam fazer mais lucro desta. Também a FDA exige que os estudos sejam concluídos num prazo de dous anos e meio, o que é às vezes difícil de acometer.
Assim, proporcionar-lhes drogas que eles figeram possíveis parece ser o mínimo que podíamos fazer. Ainda há constante reticência para fornecer medicamentos ao pessoal destes países.
BJ: Ensaios clínicos em países em desenvolvimento também pode envolver ensaios em sujeitos em circunstâncias perigosas, o que nom seria sequer legal neste país. Você aponta o exemplo do ensaio de Pfizer para um antibiótico em Kano, na Nigéria nos anos 1990. Que foi errado?
HW: Eles testaram Trovan em Kano e esperaram até que (isso é bem típico, em verdade), eles esperárom até que houvo umha epidemia de meningite para testar os seus medicamentos para a meningite. Primeiro de tudo, o pessoal testado é gente que nom recebe assistência médica em toda a sua vida. Nom podem ir ao médico, nom podem comprar medicamentos. Quando estam doentes, apenas esperam a fazer o melhor que podem para se tratar uns aos outros.
Portanto, acontece umha epidemia. E nos encontramos com gente, especialmente nenos, a morrer sistematicamente. Os Médicos Sem Fronteiras presentam-se no país e trabalham febrilmente contra o relógio tentando salvar tantas crianças como podem. Estes tenhem umha enorme tenda lá para o estabelecemento dumha clínica. Pfizer levou a sua gente lá também e abriu a sua loja ao lado dos primeiros. O povo de Kano nom conseguia discernir a diferença entre a tenda de Pfizer e a tenda dos Médicos Sem Fronteiras. Tudo o que eles sabiam era que havia medicamentos e médicos nas duas tendas. Se eles nom podiam entrar numha, procuravam na outra.
Agora, eu nom acredito que eles receberam algum tipo de consentimento informado. Primeiro de tudo, os registos foram perdidos. Pfizer (dijo) perdeu os registos que teriam provado este consentimento informado. Porém Pfizer produziu algumhas cartas de doutores locais e colégios de médicos dizendo que houvo consentimento informado, mas semelha que estes foram claramente falsificados. Um médico admitiu que efetivemente foram forjados. Mais outro médico apontou que a instituiçom médica que supostamente aprovou este estudo ainda nom tinha sido estabelecida até um ano ou dous após o ensaio ter terminado. Assim, todas as evidéncias monstram a posibilidade de que esta gente nom recebera um adecuado consentimento informado.
Mas entom eu também me pergunto, mesmo de obter o consentimento informado, tiveram estas pessoas direito a umha escolha real? Eles queriam que os seus filhos tiveram acesso a qualquer classe de medicamento. Por isso se tratava inerentemente de um meio coercivo.
E Pfizer daria essa medicaçom sem seguir métodos prescritos para a realizaçom de investigaçom médica no país; ainda que algumhas das cousas que eles figeram foram permitidas neste. Por exemplo, a rapariga nova cujo destino relatei, fora tratada com Trovan, e nom melhorou, de facto empiorou. Se a moça estivera em, digamos, Connecticut ou Nova York, quando empiorar, seria enviada da terapia experimental a outra que pudesse funcionar. Eles nom figeram isso lá. E finalmente morreu, outra criança morta, outras ficaram surdas, e outras ficaram com todo tipo de problemas neurológicos. Em verdade, houvo tantas mortes e tantos problemas sérios e permanentes como resutado disto, que a FDA nom aprovaria a droga.
No período que veu imediatamente depois, apareceram muitas demandas e finalmente Pfizer tivo que pagar umha multa. Mas a multa que eles foram convidados a pagar foi tirada dos seus enormes benefícios anuais. É apenas o custo de fazer negócios com eles. Certamente, em um caso como este, considerando o custo final, pode-se argumentar que valeu a pena para eles.
BJ: Podem etender-se os protestos de Occupy nos Estados Unidos como uma consequência direta desse tipo de invasom corporativa nas nossas vidas?
HW: É um paralelismo feito com muita frequência. Eu só vou alegar certa ignorância a este respeito. Por mais que eu leia e pense sobre isso, acho que existe a mesma frustraçom com o grau de controle que as corporaçons tenhem sobre as cousas que nom deveriam ser controladas por interesses monetários. E ainda esta é a nossa prática habitual na medicina. Assim na medida em que os protestos da Occupy Wall Street manifestam esse sentimento, imediatamente nós concordamos com eles. Mas existem outros elementos que nom considero que expressem um paralelismo entre eles e a gente da que estou a falar.
Comecei este livro realmente preocupada com os pobres, com as pessoas nos países em desenvolvimento, pessoas que eu pensava e ainda penso que estam fortemente prejudicadas por isto. Mas rapidamente reparei em que nós também estamos prejudicados. Quero dizer, também a classe meia está afectada. Porque os preços dos medicamentos som tam altos, e porque o controle das empresas na investigaçom médica é tam extensa, e porque as nossas políticas para a saúde tam extensivamente os protege, a classe meia nom está realmente saindo melhor parada. A gente da classe meia está pegada à mesma ligadura.
Assim que eu adivinho que este é um sim qualificado (risos).
BJ: Depois a decissom judicial no caso Citizens United, estamos vivendo umha época onde, com efeito, as empresas som consideradas como as pessoas e, simultaneamente, as empresas estam comprando a propriedade dos direitos da própria esência da vida humana. Você descreveu de maneira inquietante estas corporaçons como "os nossos proprietários biológicos". Isto tem umha qualidade de pesadelo hoje. Em relaçom ao futuro das patentes médicas, você contempla o pêndulo de volta ou a situaçom está piorando?
HW: Infelizmente, se a história nos ensinou algumha cousa, é que as cousas podem sempre piorar. Mas nom acho que isto vaia ser assim. O pêndulo pode balançar para atrás, mas vai precisar um grande esforço da nossa parte. Nom vai retroceder por conta própria. Porque as pessoas mais poderosas deste país estam bem servidas neste sistema. A gente mui rica nom tem as mesmas preocupaçons que a maioria de nós. E as corporaçons certamente também nom tenhem as mesmas preocupaçons. Eles nom som perturbados polos altos preços. Eles estám continuamente a se defender. Neste caso nom estam desgostados pola falta de cuidado das pessoas no mundo em desenvolvimento. Eles nom parecem ter ningum problema quando reivindicar que: "Nom nos culpe, nom é causa da nossa patente, mas da sua pobreza."
Isso pode ser feito, mas vamos ter que empurrá-lo. É a a maneira de empurrá-lo é revogando a Bayh-Dole e encontrando outros legisladores e legisladoras. Já existem aqueles e aquelas que tratam de revogar partes deste problema lá fora, as patentes de genes, por exemplo. E investigadores e investigadoras também estam começando a ver que o seu sistema é disfuncional e começando a aparecer com modelos diferentes.
Assim que, vai ser cousa nossa trazer o pêndulo de volta.
Bard Jacobson é um jornalista freelance assentado em Brooklyn e reporteiro colaborador para AlterNet. Podes vê-lo no Twitter@bradpjacobson.
Traduçom de Ana Sánchez para o Diário Liberdade.
