Compaginou o seu activismo galego com a investigaçom histórica, e vem de rematar a sua memória de licenciatura na Faculdade de História da USC sobre o fenómeno da direita regionalista na Galiza. É das poucas ocasions em que se aborda monograficamente esta corrente política no nosso país, com o valor acrescentado de ser um arredista quem realiza a pesquisa. Falamos longamente com ele para tencionar esclarecer umha das incógnitas da história recente do nosso país: por que a aposta etnocida das elites políticas e económicas galegas, e por que a frustraçom reiterada daquelas correntes conservadoras que visavam um certo reconhecimento -ainda tímido- da nossa condiçom nacional.
Como começa a tua investigaçom? Donde nasce o interesse pola direita galeguista?
A ideia nasce depois de falar com ou meu tutor da Memória de Investigação, o professor Núñez Seixas. Tinha muito interesse em especializar-me no estudo dos nacionalismos e o facto de existir uma corrente como a do centro galeguista, com poucos trabalhos de carácter historiográfico, serviu de estímulo. Além disso, eu sou de Ourense. Na sua "província" esta corrente tem tido especial importância sobretudo através da experiência de Coalición Galega. Paradoxalmente, trabalhei em COREN, empresa que o fundador deste partido, Eulogio Gómez Franqueira, ajudou a criar. Deste modo, tanto desde uma perspectiva académica como pessoal, achava interessante tentar desvendar a chaves da estrutura clientelar artelhada polo Grupo Franqueira assim como encontrar as causas da inexistência de uma formação política de centro nacionalista.
O nacionalismo espanhol tivo umha versom 'regional' ou mesmo regionalista, como o nacionalismo galego tivo umha versom hispanodependente e moderada. Onde estám as origens desta direita galeguista que teu estudas?
Antes de mais dizer, que num começo ou meu trabalho ia exclusivamente sobre a formação de Coalición Galega. Porém, a própria composição deste partido, produto da união entre um sector do reconstituido Partido Galeguista e algumas elites políticas originárias do franquismo, fazia necessária uma contextualização. Deste modo, embora com anterioridade a 1936 há organizações dentro desta corrente (uma delas é a escisão protagonizada dentro do Partido Galeguista por Direita Galeguista, ou experiências católicas e galeguistas como a revista LOGOS), a minha investigação tenta centrar-se na formação desta corrente na década de sessenta. Sobretudo, ao abeiro das transformações experimentadas dentro da Igreja após o Concilio Vaticano II, assím como na responsabilidade do Grupo Galaxia na liquidação da corrente liberal-conservadora do Partido Galeguista.
Quais som as suas expressons organizativas mais importantes?
Dentro da Igreja sem dúvida a editorial SEPT (Sociedad de Estudios, Publicaciones y Trabajos). Impulsionada por Jaime Ilha Couto, começou a publicar na década de sessenta numerosos textos litúrgicos em galego ademais de editar a revista Encrucillada. Nas páginas desta revista publicaram-se vários artigos tentando elaborar uma Teología do Galeguismo da mão de Andres Torres Queiruga ou Xosé Chao Rego. Jaime Ilha foi o artelhador de toda esta infraestrutura de apoio. Tinha uma clara vocação de elaborar um discurso dentro da Igreja onde conflui-se o galeguismo com o cristianismo. Ele mesmo manifestou em mais de uma ocasião a necessidade de chegar a determinadas capas sociais de classes meias urbans que pudessem ser permeáveis a este discurso, e que posteriormente apoiasem projectos políticos social cristiáns. São os casos de dois partidos que ele mesmo ajudou a criar, o PPG (Partido Popular Galego) e o PG-SD (Partido Galego Social Democrata). Nestas formações vão participar os galeguistas históricos desconformes com a táctica do Grupo Galaxia de galeguizar os partidos políticos de âmbito estatal e contrariados ante a decisão de Pinheiro de entrar nas listagens do PSOE como independente.
Mas a organização mais relevante se antendemos ao respaldo eleitoral ou ao poder político é sem dúvida Coalición Galega. Nas eleições autonómicas de 1985, obtivo 163.425 votos (13% dois sufragios emitidos) e 11 escanos, sendo ou melhor resultado conseguido por uma formação política situada no espectro ideológico do centro galeguista. Porém, a sua categorização como formação de centro galeguista ou nacionalista apresenta os problemas derivados da sua própria composição interna.
Num certo paralelismo com ou arredismo, esta direita foi historicamente fraca e atomizada. Quais as razons?
Tradicionalmente a historiografía do nacionalismo tem assinalado entre os motivos desta debilidade três elementos: a estratégia desenhada pelo Grupo Galaxia, a falta de uma burguesia permeável as reivindicações do nacionalismo ou a beligerância do sector majoritário da Igreja Galega. Porém, além destas características de caráter interno também há outras de caráter externo como a habilidade dos partidos políticos de âmbito estatal ao aprópriar-se de elementos discursisvos do galeguismo. Há que lembrar que ou próprio Manuel Fraga criou um termo como o de autoidentificação. O objectivo não era outro que o de promover determinadas expressões da cultura popular galega, para legitimar-se socialmente, mas sem que isso tivesse uma traslação jurídico-política.
Mas de todos os factores assinalados, penso que a estratégia desenhada pelo Grupo Galaxia, em especial a partir da década de setenta, foi a causante de que não se consolida-se uma formação política de centro galeguista. O que Beiras alcunhou como ou entrismo, é dizer, a táctica de entrar nos partidos de âmbito estatal para galeguiza-os, na minha opinião, foi determinante. Deste modo, Ramón Pinheiro, que fora uma das pessoas que lutou com mais força para construir o Partido Galeguista na clandestinidade, que sofrera quatro ânos de cadeia e que realizou a partir da década de sessenta um trabalho de recuperação da cultura galega através da editorial Galaxia, foi também a mesma que construiu uma categoria política nova como é o "galeguismo", separada neste caso do nacionalismo e que não futuro proporcionará às elites políticas originárias do franquismo, um repertorio discursivo ótimo para legitimar-se socialmente.
Há que lembrar que ou próprio Ramon Pinheiro na clausura do II Congresso do Partido Galeguista em Junho de 1981, fez um famoso discurso no qual lhe negava ao novo partido a legitimidade do velho. Segundo ele, o Partido Galeguista pertencia a um momento da história da Galiza no que o galeguismo estava representado por um só partido. Isto não acontecia agora, e de aí a necessidade de galeguizar as forças políticas galegas de âmbito estatal.
Os historiadores oficiosos do nacionalismo vincam sempre na 'frustraçom' deste projecto, mas ocultam um aspecto interessante: porquê todas estas forças hesitam em ser declaradamente nacionalistas e independentistas e porque se mantenhem sempre num regionalismo ambíguo? Por outras palavras: porque nom há umha fracçom da nossa burguesia e classe média que aposte no Estado galego?
Vaiamos por partes. Quanto as forças de centro galeguista, haveria que diferenciar entre o PPG e o PG-SD que confluem no Partido Galeguista e por outra banda Coalición Galega. Ao analisar o seu discurso, pode observar-se como está influenciado pola análise dos economistas marxistas da Universidade de Compostela (Beiras, Suevos..). O PG-SD por exemplo fala da Galiza como colónia interior, terminologia muito comum na época. Outra cousa é a posição que mantiveram ante a aprobação do estatuto de autonomia. Eles entendiam que ao igual que o Partido Galeguista no 36, deviam ter uma posição favorável a sua aprobação. Mas na minha opinião erão forças eminentemente nacionalistas.
No caso de Coalición Galega, não se pode dizer o mesmo. São poucas as declarações programáticas onde se fala da Galiza como nação. Acho que o seu discurso respostava mais à ideia da famosa "síndrome da aldraxe" polo que não iamos ser menos que bascos ou catalães a hora de reivindicações competenciais. Discurso também utilizado polo nacionalismo de esquerdas e que na minha opinião esconde um certo temor por parte do nacionalismo a não ser entendidos pola sociedade galega com discursos mais abstractos tipo a reivindicação do direito de livre determinação.
Quanto a segunda questão, porque nom há uma fracção da nossa burguesia e classe média que aposte no Estado galego. Na minha opinião a Galiza não tinha as condições objectivas para que houve-se uma burguesia permeável às teses do galeguismo. Os factores determinantes já têm sido analisados com anterioridade por outros historiadores que pôem em destaque: o atrasso da generalização do modo de produção capitalista, a ausência de vias de comunicação, o grande peso e controle ideológico da Igreja, a escassa industrialização etc. Além disso, ou levantamento do 36 tem lugar num momento de crescemento exponencial do nacionalismo galego, polo que a ruptura foi muito mais dura que no caso Catalão ou Basco, com um movimento mais consolidado. Quando começa a reconstituir-se o galeguismo durante ou franquismo, os poucos sectores dá burguesía vinculados ao nacionalismo dentro do Grupo Galaxia (Pescanova, Zeltia..) optaram por apoiar a estratégia pinheirista e em consequência renunciar a reconstituir o Partido Galeguista. Além disso, ainda há questões por resolver: Por que sectores como ou Grupo Coren ou a própria Pescanova que iam sair perdendo com a entrada do Estado Espanhol na União Europeia (devido a dependência das suas exportações do mercado interior espanhol), não foram capazes de artelhar uma força política eminentemente galega para a defesa duas seus interesses?
O fenómeno da direita galeguista é privativo de algumhas zonas da Galiza? Porquê essa importáncia de Ourense?
Em primeiro lugar porque Ourense foi a "província" na que houve um maior porcentagem de persistência das elites políticas locais nos governos municipais durante a transição. Em concreto registou uma destacada presença de mandatos neocensitarios, incluídos os que foram candidatos em 1973 (22,8 por 100 do total dos concelhais em 1979). A continuação ia Ponte Vedra (15,5 por 100).
Esta persistência estava directamente relacionada, com as próprias redes de poder político, social e económico, assim como as práticas de tipo clientelar construídas ao redor do Grupo Franqueira. Este fora quem de construir toda uma complexa estrutura de poder que pivotava em torno a três pilares: As Cooperativas Ourensanas (Uteco-Coren), a Caixa Rural e a Organización Sindical de las Hermandades de Labradores (antecedentes do que serão posteriormente as Cámaras Agrárias). Ademais contava com o apoio mediático de La Región, o jornal de maior difusão provincial.
O poder económico do chamado Grupo Franqueira vai ser fundamental para compreender o seu posterior sucesso eleitoral em a cada um dos projectos políticos que impulsou (tanto na UCD como posteriormente em Coalición Galega). Os seus candidatos estavam viculados directamente com o complexo agroindustrial de COREN, bem como grangeiros-cooperativistas, bem como assalariados do mesmo (Condutores, administrativos), mentres outros eram pequenos empresários ou comerciantes, estando assim mesmo representadas as pessoas relacionadas com a banca (Caja Rural de Orense).
Mas, para além do assinalado, Franqueira tinha também toda uma rede de informadores encarregados de elaborar um dossiê sobre a cada um dos 95 concelhos da província de Ourense. Este dossiê foi encontrado no antigo local de Coalición Galega na cidade de Ourense. Segundo os dados por ele achegados, foi realizado entre as eleições legislativas de 1977 e as municipais de 1979, e tinha como objectivo, assegurar na medida do possível, o triunfo das candidaturas da UCD. Deste jeito, o controlo da informação era uma ferramenta fundamental neste processo. A união de todos estes fatores ajuda a compreender a importância de Ourense com base eleitoral de Coalición Galega.
Que salientarias do 'fenómeno Franqueira'? Foi a tentativa dum outro nacionalismo ou mais bem um caciquismo de novo tipo?
A figura de Franqueira, tem multiples faces, e isso fai-na mais interessante para o historiador. Fora militante das Mocidades Galeguistas. Estivera a ponto de ser passeado no 36. Já no Franquismo artelhou toda uma estrutura económica graças em parte às amizades que tinha dentro do régimem, o qual também lhe facilitou o passo à atividade política. Mas semelha que a passagem pola política tinha como objetivo continuar a manter o controlo económico na província de Ourense. Controlo que na trasição precisava de um lavado de imagem, para o qual os restos do reconstituído Partido Galeguista erão os mais ajeitados.
Aliás, ele era um homem que não se caracterizava por fazer declarações aos meios, polo que sabemos pouco das pretensões reais que podia ter com a criação de Coalición Galega. Muitos dos seus colaboradores assinalam que ele tinha a ideia de fazer um partido nacionalista de centro homologável aos existentes em Eukadi e Catalunya. Porém, mais que um nacionalismo de novo tipo, eu sou partidário de analisar o fenómeno de Coalición Galega, dentro do processo de reacomodação das elites políticas originárias do franquismo, sobretudo após a desaparição da UCD. É nesta altura quando começam a surgir novos partidos de orientação regionalista ou autonomista Estado Espanhol, como ou PAR, Coalición Canaria, Unión Valenciana ou ou PRC (Partido Regionalista Cántabro).
O nacionalismo destes sectores (Cuiña, etc.) é mais declarativo que real, fundamenta-se em ameaças mais que em realidades, mas afinal sempre deságua no poder (PP, por exemplo). A que pensas que se deve?
Acho que se deve a que afinal estes sectores não são própriamente nacionalistas galegos. Podem ser um bocado mais respeitosos com o reconhecimento de determinados aspectos da cultura galega (língua, costumes etc..), em certa maneira por causa de que ainda grande parte do seu eleitorado é de estração rural e galego falante. Mas isto não tem uma traslação jurídico-política no sentido de entender o povo galego como sujeito de soberania, que afinal é o factor determinante que marca a diferença entre um partido nacionalista galego ou nacionalista espanhol. Assim, o fracasso da experiência de Coalición Galega fez que estes sectores se reacomodasem com certa facilidade no Partido Popular. Neste ponto, Manuel Fraga jogou um papel fundamental ao saber integrar dentro do partido os restos de Coalición Galega. Algo que não fora possível com anterioridade dada a falta de sintonia entre Fraga e Franqueira.
