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Arquivado em: Música  Gonzaga  música brasileira  

211212 luiz gonzagaBrasil - PCO - O músico pernambucano participou do êxodo nordestino para o Sudeste e sua música tornou-se uma das grandes expressões desse movimento social geral que criou a classe operária moderna das maiores metrópoles industriais do País.


Completou-se este mês o centenário de nascimento do músico pernambucano Luís Gonzaga, o “Rei do baião”, uma das maiores personalidades que já surgiram na música popular brasileira.

O enorme sucesso que Gonzaga adquiriu a partir da década de 1940 está diretamente ligado ao fenômeno da grande imigração nordestina para os estados Sudeste, que se deu entre 1930 e 1970, sendo sua música um produto típico desse movimento social.

Músico extremamente talentoso e criativo, Gonzaga foi capaz de criar um gênero próprio de música, o baião, e com ele tornou a música nordestina tão popular quanto o samba ou o sertanejo.

Gonzagão nasceu em 1912, no Dia de São Luís Gonzaga, 13 de dezembro, e daí veio seu nome, em homenagem ao santo. Ele nasceu e cresceu na cidade de Exu localizada na região do chamado Polígono das Secas, no sertão pernambucano, uma das regiões mais pobres do país.

De origem extremamente humilde, Gonzaga teve cedo contato com a música. Seu pai, Januário José, era sanfoneiro, de modo que desde a infância Gonzaga teve já contato com o instrumento, tocando e cantando nas festividades locais, em bailes, festas juninas, feiras e comemorações diversas.

Sua primeira oportunidade de tocar regularmente veio quando ele se alistou no Exército, em 1930, aos 18 anos. Gonzaga logo se engajou na banda militar, onde permaneceu, como cabo corneteiro, durante os nove anos seguintes em que viajou com o Exército por diversos estados brasileiros.

Gonzaga estava baseado no Rio de Janeiro quando deu baixa do Exército, e estava já decidido a dedicar-se à música. Acompanhado de seu acordeão, Gonzaga tocava então gêneros populares no Rio, como o samba e o choro, além de valsas, marzucas e polcas, entre outros gêneros estrangeiros vindos da influência cultural europeia e norte-americana no País. Nesse momento ele se apresentava principalmente em bares da zona do meretrício e outros bairros boêmios da cidade.

A situação permaneceu assim até 1943. Participando do programa de calouros de Ary Barroso, na Rádio Cruzeiro do Sul, Luís Gonzaga apresentou uma música de ritmo nordestino, Vira e Mexe, composta por ele. Ele foi entusiasticamente aplaudido pela composição, sucesso que lhe valeu um inesperado contrato com a gravadora RCA Victor, e a música tornou-se a primeira gravação de Gonzaga.

Esse sucesso súbito da música nordestina no Rio está intimamente relacionado com um fenômeno social da época ainda pouco analisado, que foi a grande migração nordestina que se inicia na década de 1930, juntamente com o processo de industrialização brasileira e da formação das grandes metrópoles industriais do Sudeste, particularmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O triunfo da música de Gonzaga na capital federal está relacionado, dessa maneira, à formação da classe operária moderna do Sudeste, em grande medida de origem nordestina.

Apesar do êxito inicial do músico, por determinação da RCA Gonzaga estava proibido de cantar, podendo fazer gravações apenas instrumentais. Foi dessa maneira que Gonzaga gravou cerca de 50 faixas com a RCA nos anos seguintes.

Essa situação durou até o momento que uma das composições cantadas de Gonzaga fez um grande sucesso na voz de outro intérprete. A partir daí a RCA reviu o contrato de Gonzaga, dando a ele, somente aí, cartão verde para gravar suas canções. Em abril de 1945, ele gravou sua primeira música cantada, a mazurca Dança Mariquinha.

Já em 1946, Gonzaga lançava seu primeiro grande sucesso, Pé de serra, que relembrava sua vida na fazenda Caiçara, onde nascera, situada no pé da Serra de Araripe, em Exu. Do mesmo ano é a composição Respeita Januário, que narrava o reencontro de Gonzaga com seu pai, em Exu, pela primeira vez desde que abandonara a cidade, em 1930.

Foi ao afirmar plenamente seu estilo que Luís Gonzaga passou a adotar também os trajes típicos nordestinos com que ficou famoso, combinando adereços de vaqueiro e cangaceiro.

Gonzaga, em 1947, grava Asa Branca, composição própria do artista que lhe renderia notoriedade nacional, fazendo grande sucesso das rádios. A música viria a se tornar um dos maiores clássicos da música nacional. 

O rei do baião

Luís Gonzaga carrega o mérito de ter tornado o baião, gênero tradicional nordestino, um ritmo conhecido nacionalmente. O baião tornou-se dessa forma o primeiro gênero típico do nordeste a se tornar conhecido em todo o país.

O baião nasceu de uma forma particular dos violeiros nordestinos tocarem o lundu, ritmo surgido entre os escravos. O que é importante destacar, porém, é que o baião nunca teve uma identidade muito definida como ritmo próprio, era quase uma denominação genérica entre os músicos. Desse modo, o baião, tal como se conhece hoje, foi inventado, ou reinventado, por Luís Gonzaga e seu parceiro de composições, Humberto Teixeira.

O próprio Luís Gonzaga relata esse fato: “Quando toquei o baião para ele [Humberto Teixeira] saiu a ideia de um novo gênero. Mas o baião já existia como coisa de folclore. Eu o tirei do bojo da viola do cantador, quando faz o tempero para entrar na cantoria e dá aquela batida, aquela cadência no bojo da viola. A palavra também já existia. Uns dizem que vem do “baiano” outros que vem de “baía grande”. O que não existia era uma música que caracterizasse o baião como ritmo. Era uma coisa que falava: Dá um baião aí... Tinha só o tempero, que era prelúdio da cantoria. É aquilo que o cantador faz, quando começa a pontilhar a viola, esperando a inspiração”.

Gonzaga não foi apenas o criador, mas também o principal expoente do baião, ritmo hoje muito popular e muito apreciado em diferentes partes do país. Ao desenvolver um gênero próprio de música nordestina, Gonzaga trouxe à tona suas grandes qualidades como músico. Ele era um virtuoso na sanfona e músico também extremamente talentoso no canto e na composição. Dentro de seu gênero popular, foi ainda capaz de criar uma linguagem sofisticada e inovar o uso do instrumento. 

A popularidade de Gonzaga

No final da década de 1940, Luís Gonzaga já havia firmado seu nome como o "Rei do baião". Ao longo de toda a década seguinte seu nome permaneceu extremamente popular, sendo ele já uma figura central no movimento musical de seu tempo. Sua enorme popularidade só seria minada em parte com o surgimento da bossa nova e a geração de músicos cariocas que ela revelou, que abocanharam um grande espaço que Gonzaga conquistara nas rádios e publicações especializadas. Ainda assim, entre a população nordestina emigrada para o Sudeste, Gonzaga era um ídolo absoluto, encarado como a grande manifestação de afirmação da cultura tradicional do nordeste no sul do país.

A influência de Gonzaga foi igualmente importante entre os músicos nordestinos das novas gerações da década de 1960 e 70, como os pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos e Geraldo Azevedo e os paraibanos Elba Ramalho e Zé Ramalho, entre outros. Sua influência foi igualmente atestada por músicos como o baiano Gilberto Gil, no auge do tropicalismo.

A característica que sempre foi fundamental na música de Gonzaga era o retrato da vida da população nordestina. Ele cantava em suas composições temas tipicamente regionais, chorava as dores de seu povo, a saudade da terra e suas alegrias. 

A ditadura militar e os últimos anos 

Um tema sempre controverso e em geral mal comprometido na biografia de Gonzaga era sua proximidade com o governo durante a ditadura militar. Gonzaga declarou seu apoio ao regime e tocou em diversas ocasiões em eventos oficiais, comícios e jantares.

O primeiro aspecto e mais fundamental para se compreender isso é que Gonzaga era um homem simples, não era um político e nunca exerceu qualquer atividade política. Sua compreensão do que fosse a ditadura militar era, de fato, extremamente limitada, e suas ilusões e ignorância sobre aquele regime, eram enormes, a ponto de declarar em certa ocasião que “não havia tortura no Brasil”.

Considerar que Gonzaga era um apoiador consciente do regime de esmagamento da população, de perseguição da classe operária, de torturas e assassinatos, é simplesmente absurdo.

Gonzaga foi, na juventude, e durante quase uma década, um militar de carreira. Essa proximidade com o Exército o deixaria marcado por toda a vida. Quando ele começa a fazer sucesso, já em 1945, torna-se um alvo fácil das adulações e da demagogia popularesca dos líderes políticos. Isso se dá, primeiro, já com o General Eurico Gaspar Dutra, após a reabertura. Dutra era o principal líder do Exército e rapidamente se encarregou de aproximar de si aquele músico que se tornava cada vez mais popular no país. O mesmo fizeram também Jânio Quadros e Carlos Lacerda, que usaram Gonzaga em suas campanhas eleitorais.

Em outras palavras, Gonzaga havia já sido cortejado por diferentes alas de políticos com os quais colaborou bem antes do golpe, o que o músico, por pura ingenuidade, continuou fazendo depois de 1964, como no famoso episódio em que cantou para o Marechal Castelo Branco em Fortaleza, e no seu conhecido apoio ao partido da ditadura, a Arena, ou ainda ao cogitar de candidatar como deputado pelo MDB, partido da “oposição oficial” ao regime. Desde seus tempos no Exército, na década de 1930, Gonzaga nunca desenvolveu uma crítica aos militares, e sempre olhou a instituição de forma idealizada e provavelmente acrítica, o que foi a base para sua cooptação pelo regime.

Percebe-se logo a contradição que essa relação representava no episódio em que, durante o governo Médici, foi chamado a comparecer no departamento de censura da Polícia Federal, onde os militares lhe comunicaram que ele estava proibido de cantar três de suas músicas mais famosas, Paulo Afonso, Vozes da Serra e Asa Branca, seu maior sucesso e um dos grandes patrimônios da cultura nacional.

Depõe em defesa de Gonzaga duas das músicas que gravou mais tarde, na década de 1970, Salmo dos aflitos, (de 1978, um ano após o escândalo do assassinato de Vladimir Herzog pelos militares) que muitos consideram se tratar uma canção de protesto contra a tortura; e a regravação da música de Geraldo Vandré Para não dizer que não falei das flores, um dos hinos do movimento de luta à ditadura militar.

A reaproximação de Gonzaga e seu filho, Gonzaguinha, para gravar um disco em conjunto em 1979, Eu e meu pai poderia ser encarado como um atestado das mudanças de opinião de Gonzaga sobre a ditadura, já que a ruptura entre pai e filho se deu justamente em função das posições esquerdistas de Gonzaguinha, contrário à ditadura, que estavam em franca oposição ao conservadorismo do pai. Na década de 1980, Gozagão e Gonzaguinha fizeram inúmeros shows históricos, que reacenderam a popularidade do músico entre o grande público.

Nesse período o músico anunciou diversas vezes que estava se aposentando, o que nunca aconteceu de fato. Gonzaga participou também nessa época diretamente da organização de um museu em sua homenagem, o Museu do Gonzagão, em sua cidade natal, em Pernambuco, museu que seria mais tarde inaugurado pelo filho.

Seu falecimento veio em agosto de 1989, aos 76 anos, vítima de parada cardiorrespiratória no Hospital Santa Joana, no Recife. Ele estava ainda bastante ativo, tendo gravado somente naquele ano três discos. O músico sofria já de osteoporose e recentemente descobriu estar com câncer na próstata. Seu corpo foi sepultado em um mausoléu situado nas dependências do Museu do Gonzagão.


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