O ponto central que tentarei defender aqui é: ser contrário à presença de partidos políticos em manifestações populares acaba por reduzir a demanda dessas a pura superficialidade, o que torna sua luta impotente e faz, sem querer, o jogo do sistema vigente! Naturalmente essa frase pode parecer um exagero absurdo sem que o caminho que a ela conduz seja percorrido. Mas a apresento assim, logo de cara, como uma provocação/convite ao leitor.
Os argumentos centrais apresentados pelos contrários à presença dos partidos tem sido: 1- Trata-se de uma manifestação popular com uma reivindicação comum, e ao participarem com suas bandeiras os partidos tentam se "apropriar" da passeata, ao mesmo tempo em que dividem o movimento (No FaceBook pode ser lido numa enquete: "nenhum partido deve se apropriar dessa manifestação espontânea do povo"). 2- Os partidos, com seus métodos e formas de organização estão ultrapassados. Devemos agora agir sem líderes, nos movimentar de maneira "horizontal", o que irá garantir a liberdade e o "exercício radical de democracia direta".
O primeiro aspecto a ser destacado é que é uma tremenda ingenuidade achar que todas as pessoas presentes nessas manifestações (estimadas em 8 mil na que ocorreu em BH neste sábado) estão lá pelo mesmo motivo! Apegar-se a esta mera APARÊNCIA é um grande engano e centro do problema, porque ser contrário a um aumento de passagem, ou mesmo ainda defender a redução desta tarifa, não diz nada sobre qual é a relação de cada uma daquelas pessoas com o problema do transporte coletivo, o que vai influenciar decisivamente qual proposta de solução será bem vista por cada um!
O problema do custo do transporte coletivo urbano sempre foi "resolvido" pelo sistema vigente através de subsídios públicos para baixar a tarifa. Esta medida – meramente burocrática e financeira – preserva intocado o próprio modelo de transporte e mobilidade urbana: privado (pelo que o lucro das operadoras e concessionárias deve ser prioritariamente assegurado); elitista (o que em Belo Horizonte é escandalosamente escancarado pelos trajetos que os ônibus vindos da periferia fazem no centro, evitando a Savassi/Zona Sul); e voltado para garantir, antes de tudo, o lugar do automóvel (elemento cuja generalização a nível nacional só pode ser compreendido atentando para a centralidade que a indústria automobilística exerce em nossa economia). Como resultado destas três determinantes temos um serviço de transporte caro, ineficiente e lento!
Isso já é suficiente para mostrar o enorme equívoco que é considerar que as pessoas estão todas lá contra o preço da passagem. Se a demanda é reduzida a isso (mesmo se tratando do ponto culminante do problema da mobilidade urbana) poderá ser "atendida" através demais um aumento do subsídio público/estatal para as empresas de transporte coletivo (leia-se: transferência direta de recursos do estado para o bolso de empresários!). Além de deixar em branco a questão "de onde vai sair o dinheiro para isso?" (saúde? educação?...), tal medida não toca em absolutamente nenhum dos fatores causadores do problema. Motivo pelo qual não configura de maneira alguma uma "solução". Seria, como dizem, "tampar o sol com uma peneira", adiar o aumento para um outro contexto onde não haja mobilização contrária etc.
Dito isso fica clara a necessidade urgente de discutirmos um outro modelo de mobilidade urbana. É preciso discutir o problema da concentração dos serviços nos centros das cidades, da relação da população com os espaços públicos, o foco prioritário de investimento em obras para automóveis e muitos outros pontos que se interconectam inevitavelmente numa visão de mundo, sistêmica.
Alguém pode estar agora se perguntando "e o que diabos isso tem a ver com os partidos?". Ora, se um indivíduo militante de um partido simplesmente vai à manifestação, quem está ali é um "fulano de tal" entre todos (que naturalmente tem o mesmo valor e importância que cada um). Se ele vai vestido com a camisa de seu partido, quem está ali é um militante daquele partido. Mas se um grupo de militantes está presente com suas bandeiras, quem está ali é "O partido", e inevitavelmente o que aquele partido pensa sobre o problema e qual solução propõe.
O que foi recusado pelo medo de "apropriarem-se de nossa manifestação espontânea", é na verdade uma ocasião privilegiada para cada um dos manifestantes saberem o que determinado grupo sugere como solução, para ler o que os diferentes partidos escrevem sobre o assunto, ouvir as falas de seus membros e contrapor os argumentos. Em suma: é uma oportunidade para PENSAR!!! Ao invés disso, a maioria esmagadora dos indivíduos que responderam à enquete on-line quer a supressão das bandeiras, como se essa supressão dos símbolos significasse unidade e autonomia.
Há quem diga que todos os partidos são iguais. O preconceito metafísico por trás dessa fala só pode de fato ser sustentado por propostas assim, antidemocráticas e repressivas, já que bastaria conhecer de perto dois partidos para saber o quão diferentes eles são.
Temos por aí uma multidão de pessoas profundamente apegadas à ilusão romântica e burguesa de que aquilo em que elas acreditam são "suas" ideias, como se tivessem brotado a partir do nada dentro de suas cabeças, como se ideias não fossem construções sociais, produtos históricos surgidos em condições determinadas! Baseadas nessa ilusão, tais pessoas acreditam que as ideias "delas" têm um estatuto diferenciado em relação às ideias "dos" militantes dos partidos. As "suas" são livres, as "deles" manipuladas e ultrapassadas. E por fim, todo partido quer liderar.
Nos tempos atuais um discurso entre ativistas de esquerda "por uma movimentação sem líderes" vem ganhando espaço. O curioso é que qualquer observador atento poderá em manifestações desse tipo identificar aqueles que mesmo sem reivindicarem para si a função de líderes, exercem efetivamente tal papel, e muitas vezes de maneira antidemocrática, já que a recusa aos métodos de organização os permite fazerem o que querem.
Ninguém é, naturalmente, obrigado a entrar para uma organização política, seja ela dita um partido ou algo outro. E é de fato necessário estabelecer relações onde o espaço político não fique restrito às organizações políticas. Mas atentemos por favor a dois pontos: 1- defender a inibição da presença de partidos políticos numa manifestação pública é uma ideia que só se articula em nível geral com uma visão de mundo repressiva e opressora, no extremo a das recentes ditaduras sanguinárias na América Latina, do nazi-fascismo etc. E tornar natural esse tipo de repressão cria um "ambiente cultural" propício à emergência de novos regimes de exceção. 2- generalizações grosseiras não contribuem para nenhum debate, nem mesmo para a crítica às organizações partidárias. Quaisquer críticas deveriam ter um mínimo de conteúdo concreto.
Cabem a todos nós construirmos esse espaço democrático de manifestação e debate. As ferramentas para isso hoje são inclusive muito mais diversificadas e eficientes do que há 10-15 anos atrás. Mas é fundamental ter clareza de que a unidade para uma luta não é construída restringindo o debate e reduzindo a demanda a seu aspecto mais superficial! Pelo contrário, é através da discussão exaustiva das diferenças. Por isso, ao contrário da manifestação lamentável de vaias aos partidos na última passeata, eu clamo pela presença de mais bandeiras. É preciso fazer dessas manifestações não apenas um espaço de protesto, mas um espaço de pensamento e debate. Do contrário nos tornaremos presas fáceis de mais uma pseudo-solução que preserve toda a estrutura do problema.
Independente da simpatia ou antipatia de cada um por este ou aquele partido, deveriam todos saber que os partidos estão lá e continuarão presentes. Para uns porque aquela manifestação é um espaço para propagandear sua política sobre aquele e (por que não?) outros temas. Para outros talvez seja mero oportunismo, tirar fotos de suas bandeiras no meio da multidão para depois na eleição dizerem que estão do lado do povo. Mas cabe a cada um pensar, conversar, observar e tirar suas conclusões.
Para finalizar, e para não ficar em cima do muro, há alguns temas que considero imprescindíveis para que uma avaliação sobre a questão da mobilidade urbana seja minimamente qualificado: ocupação dos espaços públicos, habitação, especulação imobiliária, centralização/descentralização dos serviços públicos, incentivos fiscais para a indústria automobilística, duplicação de avenidas e construção de trincheiras e viadutos, propriedade dos meios de transporte coletivo, financiamento de campanhas eleitorais (sim, porque quem paga pela campanha do prefeito e dos vereadores tem interesses econômicos bem diretos). Só depois de considerados esses elementos é que poderemos responder perguntas do tipo: por que não temos até hoje um metrô minimamente descente em bh?, e a partir daí pensarmos uma demanda concreta que enfrente o problema e seja viável. Porque afinal, é preciso saber que numa cidade onde há transporte coletivo rápido, barato e eficiente, as pessoas tendem a comprar menos carros, não há motivos para os governos gastarem rios de dinheiro com obras, as centenas de estacionamentos espalhados pela cidade ficariam vazios... Se é desnecessário ir ao centro da cidade para encontrar serviços como de comércio, saúde e lazer, o valor dos imoveis nessas regiões tende a cair... Se todas as regiões da cidade contarem com parques e espaços públicos equipados para o ócio e divertimento (atividades essenciais para uma vida mais humana), ou mesmo e simplesmente lazer (apesar da conotação já mercantilizada dessa expressão), seria razoável supor que os shopping's podem com o tempo terem menos frequentadores. Enfim... poderia me alongar exaustivamente aqui, mas creio que o ponto está claro, que há uma pergunta que precisa ser respondida: a QUEM serve o atual sistema? Afinal, sem ilusões românticas, nós temos sim inimigos! Eles são vários, estão organizados (inclusive em partidos), e não têm vergonha de levantarem suas bandeiras. Por que teríamos nós de deixar de levantar as nossas?

