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220813 algoEgito - Página 12 - [Robert Fisk, tradução do Diário Liberdade] O crisol egípcio quebrou. A “unidade” do Egito –essa cola abrangente, patriótica e essencial que uniu a nação desde a derrocada da monarquia em 1952 e o governo de Nasser– derreteu no meio de massacres, batalhas e repressão contra a Irmandade Muçulmana.


Uma centena de mortos –200, 300 “mártires”– não fazem diferença quanto ao resultado: para milhões de egípcios, o caminho da democracia desviou-se no meio do fogo e da brutalidade. Que muçulmano que procurar um Estado baseado em sua religião confiará novamente nas urnas?

Esta é a verdadeira história do banho de sangue de hoje (14 de agosto). Quem pode ficar surpreendido de que alguns partidários da Irmandade Muçulmana tivessem Kalashnikov nas mãos nas ruas do Cairo? Ou de que os partidários do exército em seu “governo interino”, nas áreas de classe média da capital, pegassem suas armas ou produzissem as próprias e começassem a disparar. Isto não é Irmandade contra exército, embora essa seja a forma em que nossos estadistas ocidentais vão tratar de retratar esta tragédia. A violência de hoje criou uma cruel divisão dentro da sociedade egípcia que levará anos curar; entre os esquerdistas e os seculares e os coptos cristãos e os muçulmanos sunitas, entre a gente e a polícia, entre a Irmandade e o exército. Pelisso, Mohamed Ao Baradei renunciou ontem à noite. A queima das igrejas foi um corolário inevitável de um terrível assunto.

Na Argélia em 1992, no Cairo em 2013 –e quem sabe que acontecerá na Tunísia na próximas semanas e meses? os muçulmanos ganharam o poder com justiça e democraticamente através do voto comum e foram expulsos do poder. E quem pode esquecer nosso vicioso assédio de Gaza quando os palestinos votaram, novamente democraticamente, no Hamas? Não importa quantos erros cometa a Irmandade Muçulmana no Egito, não importa o promíscuo ou néscio que seja seu governo, o presidente Mohamed Mursi, democraticamente eleito, foi derrocado pelo exército. Foi um golpe e John McCain esteve no certo ao usar essa palavra.

A Irmandade, é verdade, faz tempo que devia ter freado seu amor próprio e tentado ficar dentro da casca da seudodemocracia que o exército permitia no Egito, não porque fosse justo ou aceitável, mas porque era evidente que a alternativa seria um regresso à clandestinidade, às detenções à meia-noite, à tortura e ao martírio. Esse foi o papel da Irmandade, com períodos de vergonhosa colaboração com os ocupantes britânicos e os ditadores militares egípcios, e um regresso à escuridão sugere dois resultados: que a Irmandade será extinta com violência ou terá sucesso em um futuro longínquo –que Deus o salve o Egito de tal destino– em criar uma autocracia islamista.

Os analistas fizeram seu trabalho sujo antes de que o primeiro cadáver chegasse ao seu túmulo. Pode o Egito evitar uma guerra civil? Será a Irmandade “terrorista” apagada pelo exército leal? E o que é que se passa com aqueles que se manifestaram antes do derrocamento de Mursi? Tony Blair foi só um daqueles que falaram do “caos” iminente ao dar seu apoio ao general Abdul-Fattah Al Sisi. Cada incidente violento no Sinaí, cada arma nas mãos da Irmandade Muçulmana será usada agora para persuadir o mundo de que a organização, longe de ser um movimento islamista pobremente armado mas bem organizado, era o braço direito do Al Qaida.

A história pode ter uma visão diferente. Certamente será difícil explicar como muitos milhares –sim, talvez milhões– de egípcios educados e progressistas seguiam dando seu total apoio ao general que passou muito tempo após o derrocamento de Mubarak justificando as provas de virgindade das manifestantes femininas na praça Tahrir. Ao Sisi estará abaixo do grande escrutínio nos próximos dias: sempre tinha a reputação de ter simpatia à Irmandade, embora esta ideia possa ter sido provocada porque sua mulher usa o niqab. E muitos dos intelectuais de classe média que deram seu apoio ao exército terão que enfiar suas consciências dentro de uma garrafa para acomodar os fatos futuros.

Poderia o Prêmio Nobel e especialista nuclear Mohamed Al Baradei, a personalidade mais famosa a olhos de Occidente, mas não dos egípcios, ter ficado no poder, no “governo interino”, tendo uma visão tão em desacordo com as ações de “seu” governo? É claro que não. Tinha-se que ir, porque nunca teve a intenção de que surgisse este resultado de seu aposta política quando aceitou apoiar a eleição de ministros que fez o exército após o golpe do mês passado. Mas o círculo de escritores e artistas que fizeram questão de considerar o golpe como só outra etapa na revolução de 2011, após a renúncia da o Baradei, tendra que usar uma linguística um pouco angustiada para escapar à culpa moral por estes acontecimentos.

Esperem, certamente, as perguntas mais coloquiais. Significa isso o fim do Islã político? Pelo momento, com certeza, a Irmandade não tem ânimo testar qualquer outro experimento em democracia, uma negativa que é um perigo imediato no Egito. Porque sem liberdades, há violência. Vai se converter o Egito em outra Síria? Improvável. O Egito não é um Estado sectario, não foi nunca, ainda com 10 por cento de sua população cristã, não foi violento. Nunca experimentou a crueldade dos levantamentos dos argelinos contra os franceses ou sírios nem as insurgências libanesas ou palestinas contra os britânicos e os franceses. Mas muitos fantasmas pairarão sobre suas cabeças hoje envergonhadas; aquele grande advogado do levantamento de 1919, por exemplo, Saad Zaghloul. E o general Muhammad Neguib, cujo breve tratado de 1952 dizia coisas similares às que exigiam os manifestantes da Praça Tahrir em 2011.

Mas sim, algo morreu no Egito ontem. Não a revolução. Porque através do mundo árabe a gente exigiu ser ela a dona –e não seus líderes– de seu país, embora permaneça tingida de sangue. Morreu a inocência, sem dúvida, como acontece após cada revolução. Não. O que expirou ontem foi a ideia de que o Egito era a eterna mãe da nação árabe, o ideal nacionalista, a pureza da história onde o Egito considerava a todo seu povo como seu filho. Porque as vítimas da Irmandade ontem, junto da polícia e os partidários pró-governo, também eram filhos do Egito. E ninguém o disse. Converteram-se nos “terroristas”, nos inimigos do povo. Essa é a nova herança do Egito.

 


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