No dia 1o. janeiro de 1994, alguns milhares de indígenas armados, agrupados no Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), tomaram as capitais de vários municípios do estado de Chiapas, no mesmo dia em que o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (o Nafta) entrava em vigor. A burguesia mexicana, que governava o País desde 1917 por meio do PRI (Partido Revolucionário Institucional) e o imperialismo ficaram consternados pelo surpreendente levante na época da ascensão das políticas neoliberais, promovidas sob a máscara demagógica da modernidade.
O EZLN tinha sido criado em 1983, na Selva Lacandona, no estado de Chiapas, o mais pobre do México. A aparição de 1994 foi um duro golpe contra o imperialismo norte-americano que tentava impor o NAFTA, deixando claro a fragilidade dos serviços de inteligência encabeçados pela CIA.
Os Zapatistas exigiam o fim das políticas neoliberais, reivindicavam a propriedade sobre as terras tiradas das comunidades indígenas, uma melhor divisão da riqueza e a participação das diferentes etnias tanto na política mexicana.
Os indígenas armados ocuparam sete cabeças municipais de Chiapas: San Cristóbal de Las Casas, Altamirano, Las Margaritas y Ocosingo, Oxchuc, Huixtán e Chanal. O Exército mexicano respondeu com grande truculência o que obrigou os guerrilheiros indígenas a serem obrigados a refugiar-se na selva, após de duas semanas de intensos combates.
No dia 16 de fevereiro, começaram as primeiras negociações entre o EZLN e o governo federal mexicano, que terminaram com a assinatura, em 1996, dos acordos de San Andrés sobre o "Direito e Cultura Indígena", que comprometiam o Estado a reconhecer os povos indígenas constitucionalmente e que estes gozariam de autonomia.
Em 2013, o mundo voltou a ser surpreendido com uma manifestação promovida pelo EZLN que mobilizou mais de 40 mil pessoas, com o rosto coberto com o gorro popularizado pelo subcomandante Marcos, no estado mais pobre do México, Chiapas. Foi a maior manifestação desde janeiro de 1994. A data escolhida, o 22 de dezembro, fez referência ao massacre de Acteal, quando, em 1997, grupos paramilitares assassinaram covardemente 45 indígenas. Apesar da disposição do Exército Zapatista em dialogar e entregar as armas, o sistema judiciário acabou condenando 20 indígenas à prisão, e só foram libertados depois de 11 anos, após o reconhecimento das flagrantes irregularidades que aconteceram no processo.
Pelos direitos à autodeterminação das minorias indígenas
A principal exigência dos zapatistas é o cumprimento dos acordos de San Andrés sobre Direitos e Cultura Indígena, assinados pelo governo mexicano do presidente Ernesto Zedillo e pelo EZLN em 1996, que incluíam a modificação da Constituição com o objetivo de reconhecer os direitos básicos dos povos indígenas, incluindo a autonomia e a promoção do desenvolvimento econômico da região mais pobre do País. Esses acordos nunca saíram do papel o que pode colocar novamente a retomada da luta armada que, desta vez, poderia se arrastrar para outras regiões empobrecidas do País, como o estado de Guerreiro.
Essas reivindicações se encontram na Primeira Declaração da Selva Lacandona de 1994, onde informaram as causas de seu levante: exigiam terra, trabalho, teto, alimentação, saúde, educação, liberdade, independência, democracia, justiça e paz.
Em 2001 todos os partidos políticos integrados ao regime aprovaram, por unanimidade, uma reforma constitucional que desconheceu os Acordos de San Andrés, tornando assim oficial o desconhecimento dos direitos e cultura indígena.
Em dezembro de 2001, o EZLN promoveu A Marcha da Cor da Terra. Uma caminhada de 6000 quilômetros que tinha como objetivo repudiar a reforma e levantar os direitos dos indígenas.
Com crescente influencia de ideias anarquistas e autonomistas o EZLN decidiu, em 2003, aplicar os Acordos de San Andrés, de maneira unilateral por meio de Los Caracoles e das Juntas de Bom Governo. Foram formados professores e médicos zapatistas, se construíram escolas e clínicas, e se desenvolveu um sistema de justiça próprio.
O aprofundamento da crise capitalista – o colapso do neoliberalismo
O colapso capitalista de 2007-2008 significou a bancarrota do neoliberalismo e, portanto, da direita tradicional que implementou esse tipo de políticas.
O México está intrinsecamente ligado aos Estados como o quintal traseiro imediato, fornecedor de mão de obra barata e de matérias primas fundamentais, como petróleo e prata. Perante o esgotamento do mercado manufatureiro asiático, devido ao aumento dos salários, o México tem sido transformado num mercado manufatureiro alternativo, promovendo uma reforma trabalhista que ataca em cheio dos direitos dos trabalhadores, com o objetivo de baratear o custo da mão de obra, a redução dos investimentos em programas sociais e o repasse de recursos para o imperialismo.
A crise tem atingido em cheio todos os setores da economia. As políticas neoliberais promovidas pelos governos direitistas do PAN (Partido de Ação Nacional).
Apesar da arrecadação tributária ter aumentado em 7,6%, um terço proveniente do setor petrolífero, o déficit público foi de 7%.
Na agricultura, a situação é tão crítica que o outrora grande exportador de milho se transformou em importador de 30% do consumo. A mesma coisa acontece com o arroz, trigo, carnes, lácteos, açúcar e oleaginosas, apresentando déficit na balança de produtos agropecuários segundo dados da Aladi (Associação Latinoamericana de Integração).
A especulação nos mercados futuros de commodities provocou a alta nos preços dos alimentos, o que adicionado aos ataques contra os salários e a corrosão inflacionária tem provocado o empobrecimento da população trabalhadora.
Perante o descalabro econômico gerado pelos governos do PAN e o forte desgaste do regime político, o imperialismo e os setores majoritários da burguesia local impuseram nas recentes eleições presidenciais a volta do governo do PRI, reciclado sob a liderança de Peña Neto, em meio a evidentes operações fraudulentas e de manipulação pelos grandes órgãos da imprensa burguesa.
O novo governo do PRI tem como objetivo dar continuidade à implementação das políticas neoliberais do PAN, numa escala ainda maior. Além da reforma trabalhista, que inclui fortes ataques contra os direitos de organização sindical, está no foco a ampliação das privatizações em larga escala, a começar por Pemex (Petróleos Mexicanos), mas contemplando também as grandes estatais ainda não privatizadas, como a do setor elétrico.