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141110_foto_de_mario_benedettiUruguai - Opera Mundi - Nos últimos anos de vida, o escritor uruguaio Mario Benedetti (1920-2009), andava sempre com um caderninho, jornais, um copo de suco de laranja e a companhia de seu fiel escudeiro: Ariel Silva. O secretário, hoje gerente da fundação que leva o nome do escritor, já fez de tudo um pouco na vida: foi pedreiro, jornalista, funcionário de funerária , officeboy, redator, publicitário e sindicalista.


No entanto, Silva não encontrou lugar melhor do que em casa, cercado de seus livros. Foi nesse mundo que conheceu Benedetti, por meio dos textos que escrevia descompromissadamente e que um dia caíram nas mãos do escritor. A relação se transformou em confiança mútua. “Biografía para Encontrarme”, livro póstumo de Benedetti, lançado recentemente em diversas capitais de língua espanhola, teve lançamento  simultâneo em Montevidéu de  “A Imagen y Semejanza”, coletânea de contos do poeta e ensaísta editada por Silva a pedido do escritor.

Abaixo, Ariel fala com exclusividade ao Opera Mundi sobre as atividades da Fundação, os projetos relacionados à obra de Benedetti e o legado desse que é uma das grandes figuras da literatura uruguaia. 

É comum a avaliação, entre os conterrâneos de Benedetti, de que o escritor é mais reconhecido no exterior do que em seu país natal. O que o senhor acha disso?

Esse é um tema que pode ser interpretado assim, mas depende do ponto de vista. Mario não podia caminhar no Uruguai sem que fosse interrompido por alguém dizendo o quanto admirava sua obra. Mario dizia que esse contato era “o melhor reconhecimento”.

Benedetti pensava muito em sua finitude? As atividades que estão sendo concretizadas hoje pela Fundação, como a criação de prêmios para novos escritores foram pensadas pelo escritor?

Benedetti não estava preocupado apenas com o presente, mas sim com o futuro, sobretudo dos jovens.  Não podemos esquecer de que Benedetti, quando jovem, publicou sete livros sem vender sequer um exemplar. Acho que depois dessa experiência, pensou em dar oportunidade para novos escritores através da formação de uma fundação com objetivos bem claros, tanto na área da cultura como em direitos humanos, especialmente quanto à investigação dos presos desaparecidos durante a ditadura. Mario trabalhou incansavelmente por seus princípios. Formou um conselho com a escritora Sylvia Lago, o médico Ricardo Elena, o jornalista Guillermo Chifflet, o cantor e compositor Daniel Viglietti e o escritor Eduardo Galeano, com a certeza de ter escolhido pessoas que teriam as mesmas ideias do que as suas.

Como era a rotina de trabalho?

Mario acordava muito cedo, tomava café, folheava os jornais e escutava o rádio. Eu chegava nesse momento. A rotina que seguia era intensa, trabalhava normalmente sozinho.

Conversávamos muito. Mario tinha sempre bons conselhos. Fomos confiando cada vez mais um no outro e, desta forma, aprendemos um pouco mais sobre nossas personalidades.

Estávamos sempre no bar San Rafael, onde hoje encontra-se uma homenagem do Ministério da Cultura ao escritor. Nos almoços, sempre era interrompido por pessoas que gostavam de fazer contatos, passar documentos. Nunca voltávamos de mãos vazias. Às vezes terminávamos o trabalho muito tarde por causa de algum lançamento ou recepção.

Com esta rotina árdua, sempre perguntavam: “Quando o sr. escreve?”, ele era categórico:  “Quando me deixam…”. Mas é verdade, era como uma necessidade vital e diária. Depois de sua doença de ordem respiratória e intestinal, especialmente, que o levaram a ser hospitalizado diversas vezes, a rotina mudou. O médico lhe proibiu viagens e passeios, mas não deixou de exercer suas funções: ler, escrever e receber pessoas.

Quais foram os critérios para a seleção de contos da antologia?

“A Imagen y Semejanza” surgiu de uma iniciativa editorial, solicitada ao Mario, que por sua vez me incubiu do trabalho. Comecei relendo todos os contos. Mario adoeceu e tudo ficou parado. Após sua morte,  ficou comigo a tarefa de retomar aos poucos as coisas, lendo os contos. Era como continuar nossos diálogos. Para a seleção, tinha que adotar um critério e decidi que o melhor era focar nos próprios critérios de Mario, temas que desenvolveu no epílogo do livro, “Algunos apuntes sobre el proceso de trabajo para esta antología” (em português - algumas anotaçoes sobre o processo de trabalho para esta antologia).

Para ele, um conto é um corte transversal na realidade e, acrescentaria, no seu caso, um corte profundo por conta dessa característica de universalização dos temas cotidianos, como diz Cortázar sobre os contos de Chekhov e Mansfield: “Algo está neles enquanto os lemos e nos propõem uma espécie de ruptura do cotidiano que vai muito além da história resenhada”.

Assim, fiz anotações sobre o que ele mesmo havia escrito sobre o tema, relembrei o que conversamos, pesquisei autores que Mario mencionava e a quem admirava, Quiroga, Cortázar, Poe, Maupassant, para citar alguns. Fui construindo algo como uma forma de discernimento e fiquei com 80 relatos. Uma vez com a tarefa realizada, percebi que havia temas presentes na obra desde o começo,; então me surgiu a ideia de fazer uma separação temática. Por categorías, que batizei como: “La oficina” (o escritório), “La pareja” (o casal), “La muerte” (a morte), “Los niños” (as crianças), “El tiempo” (o tempo), “La verdad” (a verdade), “La ironía” (a ironia), “Los militantes de la vida” (os militantes da vida) e por último “La vida de los militantes” (a vida dos militantes).

Que projetos estão sendo desenvolvidos pela Fundação Mario Benedetti agora?

Os objetivos da fundação se relacionam com a cultura e direitos humanos. Nessa última área estamos trabalhando com diversas organizações para criar uma espécie de base que concentre a experiência e o trabalho de cada uma, visando um avanço na mesma direção. Temos que chegar à verdade do que aconteceu em nossos países. Como diria Mario: “O esquecimento está cheio de memórias”. Organizamos também diversas oficinas sobre autores uruguaios com extensão universitária para jovens e o patrocínio da montagem de “Pedro e o Capitão” (1979), em Montevidéu, depois de mais de 20 anos sem ser exibido.

Colaboramos para a publicação da obra poética de Circe Maia e participamos de múltiplas homenagens a Mario. A ideia do Prêmio Benedetti de Literatura, no gênero ensaio, é da presidente do conselho, a professora Sylvia Lago. No futuro, pensamos ir mudando. O premio é de 10.000 dólares, e a proposta surge da nossa preocupação com a difusão e a reflexão sobre a obra do escritor. A proposta do concurso de documentários, também desenvolvido por nós, sobre escritores uruguaios foi idealizada pelo cineasta Ricardo Casas, autor do filme “Palabras Verdaderas”, sobre a vida de Mario.

As informações dos concursos estão na página da fundação.

Qual legado Benedetti deixou?

Esta resposta poderia render uma tese, mas para dar uma resposta breve poderia dizer que Benedetti ensinou com o seu próprio exemplo. Foi um homem de seu tempo e, apesar de ter custado caro seguir seus princípios – foi perseguido, proibido, deportado, ameaçado de morte - , manteve os valores da mesma forma. Foi muito criativo e vanguarda, foi muito rigoroso na crítica, muito honesto e nunca deixou de acreditar na utopia. Como dizem os críticos literários, damos sentido ao mundo mediante histórias possíveis. Benedetti buscou o sentido da vida com sua atitude e obra. Acho que conseguiu mostrar a realidade a qual confrontava e se comprometeu a mudá-la.

 


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