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070112_chile-mapuchesMapuche - Opera Mundi - [Victor Farinelli] Principal etnia indígena do país afirma que intenção de Piñera e Hinzpeter é de militarizar região sul do país


Até agora, a onda de incêndios, que começou na semana passada, afetou quatro regiões, destruiu mais de 55 mil hectares, muitos deles de florestas, e deixou sete mortos, todos bombeiros. As autoridades também registraram dois feridos e um desaparecido.

Achar um culpado

Durante um ato na cidade de Arica, Piñera afirmou que o governo possui evidências de que os incêndios que afetaram áreas florestais do centro-sul do país são "atentados" cometidos por uma "mão perversa e criminosa". Também insinuou que haveria uma conduta terrorista por trás das chamas. "Definitivamente, por trás dessa conduta criminosa, que provoca incêndios simultâneos, existe uma conduta terrorista", declarou o chefe de Estado. Ele chegou a garantir que o governo possui evidências da autoria do terceiro incêndio, que já destruiu 1,5 mil hectares de floresta e parte das instalações da madeireira Mininco, na cidade de Carahue, em Araucanía, próxima a algumas das mais conflituosas comunidades mapuches do país.

Hinzpeter foi ainda mais direto. Ele se referiu à existência de um suposto manifesto da comunidade mapuche Arauco Malleco assumindo ter iniciado o fogo, e apresentou uma denúncia contra a comunidade, onde pede a aplicação da Lei Antiterrorista aos mapuches e outros grupos que poderiam estar relacionados com o incidente.

O ministro do Interior tentou justificar a tese do governo citando dois recentes incidentes supostamente envolvendo comunidades mapuches: na quarta-feira (04/01), ocorreu um protesto em Santiago pelo aniversário de quatro anos do assassinato do estudante mapuche Matías Catrileo, que terminou com um ônibus e uma moto policial queimados pelos manifestantes. No último dia 30, na cidade de Victoria, também na Araucanía, um helicóptero da madeireira Mesisa que era usado pelos bombeiros da região para combater incêndios foi destruído num atentado explosivo, onde foram encontrados folhetos com alusão ao movimento mapuche.

Outro Lado

Por sua vez, a estudante e ativista, Natividad Llanquilleo, que também é porta-voz de presos mapuches, assegurou que a Comunidade Arauco Malleco jamais emitiu qualquer declaração oficial a respeito do incêndio, e que, se algum documento com esse conteúdo estiver circulando, é falso.

"A comunidade irá se pronunciar a respeito no momento oportuno", garantiu Llanquilleo que também lamentou a morte dos sete bombeiros e disse que o governo quer uma desculpa para militarizar a região. A jovem estudante alegou ainda que os atentados contra a natureza são completamente contrários à filosofia mapuche: "somos os mais interessados na preservação e defesa do nosso ecossistema".

A postura presidencial também é criticada por Pedro Vera, prefeito da cidade de Carahue (do Partido Radical, de oposição a Piñera). Segundo o líder municipal, as chamas foram descobertas no fim de semana e se concentravam em um pequeno foco. O fogo estava controlado até quinta-feira (05/01), quando os fortes ventos produziram outros quatro focos. "Pelos indícios que temos, pode ter havido intenção, mas não a de provocar um incêndio criminoso ou de grande escala", concluiu Vera.

A versão do prefeito foi apoiada pelo comandante do Corpo de Bombeiros de Carahue, que disse que incêndios anteriores na região, com as mesmas características, foram provocados por moradores da zona que produziam carvão de forma ilegal.

O gerente de comunicação da madeireira Mininco, arrasada pelas chamas, Augusto Roberts, também falou com o Opera Mundi. Segundo ele, o departamento jurídico de sua empresa possui provas a respeito da origem do incêndio, que serão entregues ao governo e à justiça quando for necessário. Roberts afirmou que a empresa lamenta profundamente a morte dos sete bombeiros e que irá prestar toda a assistência possível aos sobreviventes e a todos os familiares das vítimas.

Histórico dos mapuches

Os mapuches chilenos mantém um conflito histórico no país por terem sido a única nação indígena reconhecida pela Coroa Espanhola durante a colonização, o que nunca foi ratificado pelos diferentes presidentes chilenos em duzentos anos. Os conflitos entre comunidades mapuches, que pedem autonomia em seus territórios históricos, com os grandes fazendeiros e empresas, principalmente na região da Araucania, se tornaram mais sangrentos durante o regime do general Augusto Pinochet.

Os mapuches, no entanto, mantiveram a tendência mesmo após o retorno da democracia. Todos os presidentes eleitos desde 1990 utilizaram a Lei Antiterrorista contra comunidades mapuches pelo menos uma vez.

A última polêmica em torno do conflito mapuche aconteceu no primeiro semestre de 2011, quando quatro líderes da Comunidade Arauco Malleco, que foram presos sob a acusação de terrorismo (detenção que se realizou em 2008, durante o governo de Michelle Bachelet), realizaram uma greve de fome de 86 dias, entre abril e junho. Eles exigiam um novo julgamento, sem os vícios da Lei Antiterrorista - que, entre outras coisas, impede a defesa de conhecer as provas e questionar as testemunhas apresentadas pela acusação.

Na época, a estudante Llanquilleo surgiu como figura nacional ao ser a porta voz das demandas dos grevistas. O final do conflito foi marcado pela criação da Comissão de Defesa dos Direitos do Povo Mapuche, em julho do ano passado.

Novo conflito com o Judiciário

Nesta sexta (06/01), o ministro-chefe do Ministério Público chileno, Sabas Chahuán, pediu prudência antes de se atribuir responsabilidades sobre os incêndios ocorridos nos últimos dias. "A intenção de provocar um incêndio de grande escala é diferente da uma ação negligente, as figuras jurídicas para estes casos são distintas", explicou.

Em entrevista coletiva à imprensa após uma inspeção realizada no ponto zero do incêndio de Quillón, Chahuán afirmou que o Ministério Público poderia recomendar a aplicação da Lei Antiterrorista à Justiça, mas somente se isso for baseado em uma investigação séria, e com provas concretas.

Chahuán negou que suas declarações tivessem qualquer alusão à postura do governo, porém, possui uma conturbada relação com Hinzpeter. As rusgas começaram em outubro de 2011, quando alguns promotores públicos acusaram o ministro de pressionar o Judiciário, devido ao aumento nos índices de delinquência, e o chefe da promotoria defendeu os magistrados. O conflito se tornou ainda maior no dia 15 de dezembro, quando Chahuán não compareceu nem justificou sua ausência na reunião do Conselho Nacional de Segurança, presidido por Hinzpeter.

O promotor terminou a entrevista se negando a criticar as declarações de Piñera e Hinzpeter, e a intenção do governo em aplicar a Lei Antiterrorista, alegando que "eles devem ter suas razões, mas a promotoria ainda não possui provas que nos permitam defender a mesma tese".


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