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A Não-violência enquanto tática, uma visão histórica e o caso palestino – Parte 1

Raphael Tsavkko Garcia

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A Não-violência enquanto tática, uma visão histórica e o caso palestino – Parte 1

Raphael Tsavkko Garcia - Publicado: Sábado, 28 Agosto 2010 16:03

Raphael Tsavkko

Gandhi, Nelson Mandela. Bil'in, Budrus, Nil'in. É o que nos vê à mente quando falamos ou pensamos em Não-Violência na luta contra a opressão e o domínio colonial.


Gandhi e Mandela dispensam apresentações. Bil'in, Budrus, Nil'in são vilas na Cisjordânia, nas proximidades de Ramalá e símbolos da luta contra o Sionismo.

Mas até que ponto a não-violência tem efeitos práticos e, também, até que ponto os exemplos comumente citados são realmente válidos – ou efetivamente pacifistas?

Mandela e a base ideológica

Ao falar em Mandela, nos lembramos apenas do período em que este esteve na prisão por "atividades subversivas" - sem jamais nos perguntarmos quais atividades eram estas - e do período posterior, de abertura política, negociação e, graças ao filme "Invictus", da copa do mundo de Rugby nos anos 90. Mas voltemos às "atividades subversivas" por um momento. Mandela, ao contrário do que muitos pensam, nunca foi um pacifista, mas um pragmático que foi líder do braço armado do CNA (Congresso Nacional Africano), o Umkhonto we Sizwe, ou Lança da Nação, responsável por dezenas de mortes durante o regime do Apartheid.

O que se vê é que Mandela utilizou a não-violência apenas quando sentiu que esta era a tática mais correta no período em que se encontrava, e mesmo assim, o grupo apenas suspendeu suas atividades em 1990. Mandela e o CNA eram considerados terroristas pelo governo Sul-Africano, da mesma forma que o partido nacionalista basco Batasuna (alegado braço político da ETA) e o Hamas ou até mesmo a Fatah. É fácil notar que a não-violência era apenas uma tática, mas não a base ideológica do movimento anti-Apartheid ou mesmo de Mandela.

O caso da Fatah, aliás, é emblemático, notamos que, mesmo ainda mantendo um braço armado, as Brigadas dos Mártires de Al Aqsa, o grupo já não mais é considerado terrorista por EUA ou Israel, um novo inimigo foi encontrado e, no geral, o grupo foi domesticado, tendo adotado uma tática mais pacifista nos últimos tempos.

Gandhi não era o único: A resistência indiana

O caso de Gandhi é ainda mais interessante, pois ainda que ele fosse efetivamente pacifista e adepto da não-violência, era apenas mais um dos que lutavam pela independência do então Raj Britânico e, cabe lembrar, ele havia lutado como comandante das tropas voluntárias indianas contra os Zulus na África do Sul em 1906. Gandhi tornou-se a figura mais emblemática, a figura pública que humilhava os conquistadores ao não reagir à violência. Mas poucos conhecem Chandrasekhar Azad ou Bhagat Singh, ambos heróis indianos, mortos pelos ingleses, que pegaram em armas para lutar contra o Império conquistador e que, na Índia, são venerados como heróis e são objeto de grandiosos filmes de Bollywood, como "Rang de Basanti" ou "The Legend of Bhagat Singh."

Para o mundo, Azad e Singh são figuras desconhecidas, mas localmente tiveram uma enorme influência e foram apenas as figuras mais destacadas a usar a violência contra o Reino Unido, assim como Ram Prasad Bismil ou Ashfaqulla Khan. Ainda é polêmica na Índia a suposta recusa de Gandhi em intervir no enforcamento de Singh, em 1931, onde ele é acusado até de conspirar com o Raj, ainda que À época Gandhi não tivesse influência suficiente para evitar o enforcamento de Singh.

O Raj Britânico finalmente caiu em 1947, mas não graças unicamente aos esforços de Gandhi, mas muito mais pela situação do Reino Unido pós-Segunda Guerra e também pela violenta resistência enfrentada pelo Império em várias outras regiões.

Casos de relevância

Ainda falando do Reino Unido, é possível ainda diferenciar uma tática pacifista, não-violenta, de uma luta maior, caso de Bobby Sands, membro da IRA e do parlamento britânico que, preso, morreu em greve de fome em 1981, angariando um apoio nunca visto à sua causa. Sua greve de fome foi a tática encontrada para sensibilizar a opinião pública, para constranger o governo da coroa e, ultimamente, para conseguir o objetivo pessoal de libertar a Irlanda do Norte. Vale ainda considerar que a greve de fome em si não deixa de ser uma espécie de violência: Do grevista contra si mesmo, mas de forma consciente e voluntária, e do Estado opressor que não se move para evitar que esta violência continue e apenas a incentiva ao não fazer nada. A luta da IRA, vale lembrar, não teve pausa.

Como se vê, a ideia da não-violência é uma tática, mas não um princípio, ou, ao menos, não deve ser levado como um princípio. Outros exemplos interessantes de uso da violência contra violência podem ser encontrados nos Irmãos Bielski que lutaram contra os Nazistas em Belarus (história contada no filme Defiance, de 2008), ou o levante do Gueto de Varsóvia, que, juntos, colocam em cheque a ideia de que todos os judeus da Europa aceitaram calados seus destinos e que, como pobres vítimas, merecem um território tomado de outro povo - contrariando o ideário Sionista de "um território sem povo para um povo sem território".

O que teria sido dos vietnamitas se não resistissem à invasão dos EUA?


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