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Guillermo Almeyra

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Em coluna

Até onde são 'progressistas' os governos progressistas?

Guillermo Almeyra - Publicado: Domingo, 14 Setembro 2014 01:07

Doze anos de governo do Partidos dos Trabalhadores, que foi se distanciando dos movimentos sociais que o apoiavam, estarão em perigo em outubro.


De fato, inclusive em caso de no primeiro turno Dilma Rousseff seja ganhadora, muito provavelmente vencerá por uma margem estreita sobre Marina Silva que, no segundo turno, poderia arrecadar boa parte dos votos do candidato mais direitista e algum apoio dos que declaram que se absterão ou votarão em branco. Um governo conservador com uma base de massa constituída pelos evangélicos e os grandes setores de descontentes sem muita certeza e de despolitizados poderia por em risco as poucas conquistas sociais e as posições internacionais (Unasul, Mercosul, Celac, Brics, contra os fundos abutres) do PT antes de que este possa reconquistar o governo com um novo período Lula. Ao mesmo tempo, o governo kirchnerista, na Argentina, batalha para conservar seu fluxo de 30% dos votos em 2015 contando com a divisão de seus adversários na centro-direita e na direita enquanto perde votos à esquerda; Nicolás Maduro, na Venezuela, não consegue nem a estabilização econômica nem a política e Rafael Correa deve ceder ao FMI e enfrentar uma oposição dos movimentos indígenas, sindicais e ecologistas enquanto a direita clássica conserva o controle das classes médias das grandes cidades e até no Uruguai a Frente Ampla pode perder a sua maioria.

Longe de ser, como acreditam alguns nacionalistas de esquerda, uma nova fase, irreversível e duradoura, na luta pela libertação nacional e os sujeitos da mudança social, estes governos burgueses dirigidos por setores das classes médias são, melhor dizendo, um momento de transição na crise mundial do capitalismo.

Seu "progressismo" está também em questão. Seriam progressistas porque têm uma política desenvolvimentista, com elementos de estatismo e distribuicionismo, mas que não escapa do neoliberalismo e serve fundamentalmente às grandes transnacionais, a custa dos trabalhadores? Preservam o capitalismo, enquanto que progressista e democrático é em troca somente o que aumente a confiança em si mesmos, a independência política, a auto-organização e a capacidade de auto-gestão dos trabalhadores e favoreça sua construção como cidadãos e não simples eleitores.

Outro setor da esquerda latino-americana, em particular a argentina, recorre a Gramsci, com sua categoria da revolução passiva, e a Trotsky, com sua análise sobre o bonapartismo sui generis, para analisar uma época totalmente diferente. Gramsci e Trotsky escreveram quando centenas de milhões de pessoas lutavam por uma revolução anticapitalista e confiavam em uma alternativa socialista ao capitalismo. Mussolini e Hitler foram o resultado do temor do grande capital e de vários setores acomodados das classes médias diante da ameaça de uma possível revolução socialista. Daí as tagarelices anticapitalistas e antiplutocráticas e as pretensões nacional-socialistas, sobretudo de Mussolini da República de Salò. Diante da fragilidade dos setores burgueses tradicionais muito golpeados pelas mobilizações sociais e a carência de uma direção revolucionária dos trabalhadores, camponeses e classe média-baixa de seus países, eles construíram Estados corporativos aparentemente independentes das classes fundamentais utilizando ambiciosos e aventureiros e se apoiaram internacionalmente na União Soviética (Pacto de Locarno, Pacto Molotov-Ribentropp) para contrapor os imperialistas principais. O mesmo fez o nacionalismo socializante de Lázaro Cárdenas, diante da extrema fragilidade dos capitalistas mexicanos e a carência de uma direção operária e camponesa revolucionária e, em escala internacional, a fragilidade relativa de Washington e a divisão entre Estados Unidos e Inglaterra, por um lado, e as potências do Eixo, por outro. A revolução passiva era assim o subproduto do temor à revolução socialista e internacionalmente se apoiava sobre o relativo equilíbrio das potências.

Hoje o capital não teme a revolução socialista, os socialistas revolucionários em escala internacional e de cada país são uma pequeníssima minoria e as classes médias e os trabalhadores não são anticapitalistas senão que tratam de defender suas conquistas anteriores mas dentro do sistema e buscam a utopia de humanizar o capital. Os aventureiros e improvisados ou inclusive os dirigentes sindicais que dirigem os governos chamados "progressistas" não se veem como inimigos do socialismo nem como agentes do grande capital, acreditam sinceramente em uma aliança entre os capitalistas nacionais e os trabalhadores e no poder mágico do aparato estatal. Não buscam enganar os trabalhadores adotando bandeiras destes para fortalecer o capitalismo, ainda que de fato eles os enganem. São empíricos, pragmáticos; sem ser anti-imperialistas aproveitam as rachaduras e brechas que surgem com a perda de hegemonia dos Estados Unidos enquanto se enriquecem na função pública e se aliam sem preconceito algum com os governos autoritários dos países capitalistas secundários (os BRICS) para seguir ostentando um "progressismo" que expressa a fragilidade do capitalismo mundial mas também o retrocesso político e ideológico da imensa maioria dos trabalhadores de seus respectivos países.

Este efêmero "progressismo" das carências tem como limite do desenvolvimento político dos trabalhadores o aprofundamento da crise econômica e da luta de classes que reduzirão as margens para o clientelismo e o distribucionismo para os que querem montar cavalos que tendem a ir em direções opostas querendo conciliar os interesses capitalistas com os dos explorados e oprimidos pelo capital.

Tradução: Diário Liberdade.


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