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300814 alAmérica Latina - Rebelión - [Katu Arkonada, Tradução do Diário Liberdade] Quando formos embora, quando nos despedirmos hoje e amanhã chegarmos lá e mais além, o que vamos fazer para, ainda que milimetricamente, avançar no cumprimento, na luta, na batalha para transformar este mundo que temos hoje?


Comandante Hugo Chávez,

Encerramento do XVIII Foro de São Paulo, Caracas, 2012.

A América Latina e, portanto, as diferentes expressões de esquerda que representam suas classes populares e subalternas, se encontra diante de um ponto de bifurcação que começa a a visibilizar-se no ponto de inflexão que supõe a morte de Hugo Chávez.

Os últimos anos do século XX e os primeiros do século XXI se caracterizam por uma percorrida ascensão formada por explosões sociais como o Caracazo ou as guerras da Água e do Gás, além de vitórias eleitorais como a chegada ao poder de Chávez, Evo ou Correa, que lideravam uma transformação dos tempos continental ao qual também foram se somando os Kirchner, Lula, Dilma, Daniel [Ortega] ou Sánchez Cerén, governos que de mãos dadas com os povos também obtinham avanços políticos como a derrota do ALCA em 2005 ou a criação da ALBA em 2006.

Essa linha crescente assentada em projetos nacional-populares e pós-neoliberais, cheios de matizes e com diferentes níveis de avanço e aprofundamento, se rompe com a morte um ano atrás do responsável por deixar para trás o fim da história e demonstrar que uma alternativa ao neoliberalismo era possível. Com o desaparecimento físico de Chávez, parecia que o imperialismo se rearmava, e na guerra de posições que vive a América Latina, começa uma estratégia de assédio aos governos pós-neoliberais do subcontinente, com uma ofensiva da Aliança do Pacífico como versão sofisticada da ALBA que se soma ao incremento de bases militares ou a intervenção contínua do Departamento de Estado via USAID, NED ou DEA. A tudo isso podemos somar os casos particulares (que não são senão experimentos de laboratório antes de dotá-los de uma escala maior) de terrorismo político, econômico e midiático contra a Venezuela, contra uma Argentina assediada pelos fundos abutres, ou uma Bolívia que há um ano e pondo se joelhos vários países europeus, sequestraram o avião do Presidente Evo em um claro sinal de advertência ao restante dos países da ALBA.

Foro de São Paulo

Neste momento histórico que o Foro de São Paulo celebra em La Paz, Bolívia, entre o 25 e 29 de agosto, seu XX Encontro sobre o slogan "Derrotar a pobreza e a contra-ofensiva imperialista, conquistar o Bem Viver, o desenvolvimento e a Integração em Nossa América".

Os partidos políticos de esquerda em nosso continente também vivem uma situação muito diferente à de quando foi criado o Foro em 1990 e só o Partido Comunista Cubano se encontrava no poder. Hoje, são maioria os partidos no governo em Cuba, Nicarágua, El Salvador, Brasil, Venezuela, Equador, Peru, Chile, Argentina, Uruguai ou Bolívia, mas as condições de resistência primeiro, e de governo depois, mudaram, e a conjuntura é diferente. De fato, a crise global do capitalismo e a reconfiguração geopolítica, a transitação a um mundo pluripolar e multicêntrico, fizeram que quando a esquerda partidária já tinha muitas das respostas, em forma de projeto político, mudassem as perguntas. Já não há partidos de vaguarda no continente e inclusive a esquerda nacional-popular já não tem como referência única a forma-partido, sendo o MAS da Bolívia ou a Aliança País do Equador exemplos claros disso.

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É nesta conjuntura importantíssimo portanto defender os avanços conquistados pelos partidos no poder, mas sem se atrincheirar, com a obrigação histórica de seguir avançando, aprofundando e radicalizando as mudanças. Que ninguém pense que se moderando está a salvo da arremetida imperialista. Nesse sentido é crucial em curto prazo que o PT no Brasil, o MAS na Bolívia e a Frente Ampla no Uruguai ganhem as eleições presidenciais nesses países, que acontecem em 5, 12 e 26 de outubro.

Manter os governos que a esquerda já tem é fundamental para poder seguir aprofundando o processo de integração latino-americana; uma integração que, com base nos princípios de solidariedade entre os povos, desenvolvimento com cooperação e complementariedade, justiça social, democracia e participação popular; uma integração que passa pela ALBA, Mercosul, Unasul e CELAC enquanto mecanismos complementares de integração política e econômica; sem esquecer a integração energética que tem na Petrocaribe uma ferramenta fundamental.

Mas além dos governos de esquerda, é importante uma aposta em reforçar a esquerda em países como o México, que vive um processo de reformas e privatizações que está deixando seu petróleo e suas telecomunicações nas mãos das grandes transnacionais; um México que deve se integrar com o restante dos processos centro-americanos, tanto os mais avançados como Nicarágua e El Salvador, como os processos onde a esquerda necessita seguir crescendo e se assentar, casos de Honduras e Costa Rica.

Esta esquerda continental, tanto no governo como na oposição, tem na Aliança do Pacifico um instrumento que busca frear a integração continental, implantando-se dentro do mesmo marco que os tratados de livre comércio.

Nesta linha de confrontar o rearmamento e a infiltração imperialista, a Agenda da Pátria Grande que deve construir o Foro de São Paulo em sua XX edição passa por dois desafios imediatos. Seguindo os rastros deixados pela II Cúpula da CELAC em Havana que declara a América Latina como zona de paz, se deve reforçar o apoio ao processo de paz na Colômbia, uma paz que só pode vir acompanhada de justiça social e a participação política da insurgência. Ao mesmo tempo, é vital a defesa irrestrita da Venezuela, a revolução bolivariana, chavista e seu Presidente operário Nicolás Maduro; uma Venezuela que atua como barreira diante da agressão imperialista ao continente permitindo a estabilidade politica e econômica de outros processos; uma Venezuela onde se estão provando mecanismos de uma Guerra de IV Geração que ameaça o continente e o mundo.

Além da agenda imediata, no longo prazo a esquerda continental deve ir mais além da defesa da soberania sobre os recursos naturais, a recuperação do Estado e a redistribuição da riqueza, bases de uma agenda pós-neoliberal. O projeto político coletivo merece um debate honesto sobre o modelo de desenvolvimento de nossos processos, debate crucial no momento de unir o direito ao desenvolvimento de nossos povos com os direitos da Mãe Terra, ao mesmo tempo que se encara o desafio da criação de uma nova Arquitetura Financeira Internacional.

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O desafio da participação popular e da unidade

Mas se há um desafio crucial que enfrenta a esquerda continental, esse é o da adaptação à nova época que vive a América Latina, com seus avanços e retrocessos, transformações e contradições.

Por um lado a esquerda deve se abrir à participação popular, às novas formas de luta e resistência que também constroem projeto político. A forma-partido deve ser complementada pela forma-movimento e a incorporação de novos atores que formam o novo sujeito revolucionário, os povos indígenas, as mulheres, os jovens, camponeses, trabalhadores... Já basta de reuniões da velha esquerda cheias de homens brancos maiores de 50 anos! O sujeito, olhando-os no espelho da Bolívia, deve unir classe e identidade, e isso nos vai fortalecer como projeto político.

Por outro lado, devemos deixar para trás dogmatismos para, sem fazer demasiadas concessões ao projeto original, buscar a unidade das forças de esquerda em cada país e no continente. Essa unidade deve passar por uma articulação de partidos políticos, movimentos sociais, sindicatos e intelectuais comprometidos, e nesse sentido é importante a convocação por Nicolás Maduro a um encontro de forças de esquerda em dezembro em Caracas, retomando a ideia de Chávez de uma V Internacional.

E se falamos de unidade, é vital a defesa de nossos processos e o que Marta Harnecker, recente ganhadora do Prêmio Libertador ao Pensamento Crítico entregue pela Rede em Defesa da Humanidade, chama "Pedagogia dos limites de nossos processos" que não só têm que fazer os governos de mudanças à esquerda, mas as forças políticas, sociais, sindicais e os intelectuais comprometidos que apoiam esses processos. É necessário explicar ao povo e às forças sociais que apoiam os governos de esquerda porque não se avança com toda a rapidez e intensidade que desejaríamos, onde estão os limites, as tensões, as contradições, etc.; e sobretudo que, mais importante que o ritmo, é a direção do processo revolucionário que deve ser acompanhado dessa unidade das forças de esquerda.

Lembremos as palavras do próprio Chávez no encerramento do XVIII Foro de São Paulo em Caracas, 2012: "Nós assumimos e cada dia vamos assumir mais a sério o desafio enorme, gigantesco de construir um modelo, diria István Mészáros, alternativamente radical ao selvagem modelo do capitalismo e esse se chama socialismo, e contribuir obviamente com a batalha que é internacional e que não pode ser em um só país, é impossível que um só país avance em um processo de mudanças como este, daí nossa articulação com os governos revolucionários, daí a ALBA, daí a Unasul, respeitando os ritmos de cada qual, as particularidades, os enfoques, a visão de cada líder, de cada partido no governo, de cada coalizão de partido no governo de tal ou qual país, mas avançar em conjunto é vital, não podemos para nada nos isolar deste mundo que hoje mais que nunca há condições para a ofensiva internacional socialista, a ofensiva dos povos deste continente e do mundo."

Atílio Borón citava Walter Benjamin em seu balanço do Foro de Caracas: "A revolução não é um trem fora de controle mas a aplicação dos freios de emergência". E esse trem fora de controle é o capitalismo e há que colocá-lo freios em forma de projeto político alternativo, o qual não titubearemos em chamar de socialismo.

Definitivamente, e para enfrentar a guerra de posições na qual estamos imersos e a defesa de nossos processos, precisamos de unidade, unidade e mais unidade, como bem nos ensinou o Comandante Chávez; ensinos que devemos complementar com o legado de Bolívar, San Martín, Artigas, Morazán, Mariátegui, Martí, Zapata, Sandino, Che e Fidel, para aprofundar a construção de um projeto político continental que faça frente ao imperialismo, colonialismo e capitalismo sob um horizonte chamado socialismo.


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