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300814 esqAmérica Latina - Rebelión - [Anibal Garzón, Tradução do Diário Liberdade] No atual momento histórico do colapso que padece o modelo do "Estado de Bem-Estar" na Europa – assim como foi histórico e causa disso o antecedente colapso do Muro de Berlin em 1989 – e a inserção de uma nova arquitetura neoliberal que reduz o gasto público segundo as diretrizes da troika (Banco Central Europeu, o Fundo Monetário Internacional, e a Comissão Europeia) ou o "Pacto de Responsabilidade" que aprovou o governo "socialista" francês, os principais afetados do neoliberalismo, como os Indignados do 15-M na Espanha, focam seus olhares na esquerda latino-americana.


A América Latina há mais de 20 anos caminhou pela rota que atualmente transita a Europa. Com a aprovação do Consenso de Washington no final dos anos 80, um plano neoliberal decidido em escritórios dos Estados Unidos para implementar nos países da América Latina como solução da "Crise da dívida", levou a que os novos Estados democráticos neoliberais reduzissem sua intervenção na economia produtiva e reguladora dando espaço ao mercado privado das grandes corporações e ao sistema financeiro internacional. O crescimento da pobreza e da desigualdade (condições objetivas) acelerou as lutas e movimentos sociais das classes mais afetadas pelo neoliberalismo (condições subjetivas), levando, em muitos Estados latino-americanos, à chegada de novos governos de esquerda pós-neoliberal; como Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia ou Rafael Correa no Equador, entre outros.

Segundo o intelectual e vice-presidente boliviano, Álvaro García Linera, a deslegitimação do neoliberalismo nas classes populares de um país se inicia com "o momento de desvelamento da crise do estado", ou seja, quando o sistema político e simbólico perde legitimidade e começa a ganhar força um protesto conjunto. No caso da Bolívia esse momento foi na "Guerra da Água" iniciada em Cochabamba em 2000 contra a lei da privatização da água por parte do governo de Hugo Banzer. Na Venezuela esse momento foi o "Caracazo" de 1989. Essa primeira fase de protesto leva a um segundo período que Linera chamou de "empate catastrófico". Ou seja, se inicia a expansão do movimento de protesto organizado a nível estatal, mas não somente a geografia é o ponto transcedental, mas passar do protesto para a construção. A construção de uma organização de massas apresenta uma proposta de alcançar o poder com um programa próprio e põe em cheque o sistema político. Na Bolívia, a Guerra do Gás de 2003 foi o ponto chave para a consolidação nacional do Movimento ao Socialismo (MAS) e a construção da Agenda de Outubro com 3 pontos: a nacionalização dos hidrocarbonetos, convocatória de uma Assembleia Constituinte e o julgamento do presidente Sánchez Losada. Na Venezuela se construiu o Movimento V República liderado por Hugo Chávez, quem fez campanha por todo o país para as eleições de 1998 conhecendo os afetados do modelo neoliberal, as classes populares.

Esse processo se repete hoje na Europa, principalmente no sul do continente que é o mais afetado pela crise econômica internacional e as medidas de austeridade da troika. No caso da Espanha, a frase do "momento de desvelamento da crise do estado" se deu com o nascimento do 15-M e os indignados em maio de 2011, onde milhares de pessoas saíram espontaneamente para as ruas de Madrid, e posteriormente de todo o Estado, para protestar contra o endurecimento dos cortes neoliberais, as medidas de privatização, a ruptura do modelo de Estado de Bem-Estar, os altos índices de desemprego juvenil e estrutural, os despejos... e atualmente está entrando a segunda fase de "empate catastrófico" onde estão sendo formadas diferentes forças e coalizões políticas com grande apoio popular que rechaçam as medidas neoliberais que implementa o governante Partido Popular (PP) e a falsa oposição do Partido Socialista Obrero Español (PSOE). A nascente força de esquerda alternativa e popular PODEMOS, que obteve grande voto dos indignados do 15-M, foi fundada em janeiro de 2014 e cinco meses depois, em 25 de maio, conseguiu cinco parlamentares nas eleições europeias. Também estão em crescimento outras forças locais novas como "Guanyem Barcelona" ou forças estatais históricas como a frente de esquerda unida (IU), coalizão da qual é membro o Partido Comunista da Espanha (PCE). Segundo o último relatório do mês de julho sobre intenção de voto, realizado pelo Centro de Investigações Sociológicas (CIS) da Espanha, PODEMOS seria a segunda força nacional com 11,9%, estando muito próximo do PP como primeira força com 12,8%, e o PSOE passaria para terceiro com 10,6%.

Sem pecar de mecanicismo histórico, a dialética entre neoliberalismo e pós-neoliberalismo mantém processos similares se o neoliberalismo produz um descontento popular e esse descontento se formaliza em uma força politica nacional em busca do poder. Dado que a Espanha está anos atrás da América Latina em relação à chegada ao poder e a consolidação de um governo rupturista pós-neoliberal é evidente, e necessário, que mais de 500 anos depois da Conquista por fim se mande o lixo para o etnocentrismo colonialista e se utilizem os binóculos do Atlântico, não para copiar mas para aprender.

Os regionalismos latino-americanos

Usando os binóculos desde a Península Ibérica até a América Latina se produzem várias dúvidas e anotações, como "que desafios busca a esquerda latino-americana?", "há mudanças de modelo produtivo sobre a dependência com o Norte?", "que contradições há entre a esquerda latino-americana governante e, se existe, uma esquerda de oposição?", "há contradições entre governos de direita e de esquerda na integração regional?".

A América Latina tem algumas particularidades continentais por seu contexto histórico mas atualmente crescentes diferenças regionais, e inclusive nacionais, por seus projetos. Existem três grandes frentes governantes classificadas tipologicamente como: a esquerda rupturista que são os chamados países da ALBA-TCP (Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador, Nicarágua) e buscam um modelo socialista, com suas contradições. Os estados próximos a um desenvolvimentismo keynesiano, de intervenção do Estado mas sem ruptura com o capitalismo, como são os do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai); e a existência de um coglomerado de países ultraneoliberais classificados como a Aliança do Pacífico (México, Peru, Colômbia, Chile...).

Essa tipologia de governos e regionalismos na América Latina acaba apresentando realidades diferentes para as esquerdas latino-americanas segundo seus contextos nacionais. Não é a mesma frente de batalha a dos aimaras do MAS na Bolívia sobre construir uma sociedade plurinacional, como diz a Constituição, que a dos mapuches reprimidos duramente pelo Estado chileno. Não é a mesma frente de batalha a dos camponeses equatorianos a respeito de sua lei de Soberania Alimentar que a dos camponeses colombianos que lutam contra o Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos. Portanto, é evidente ter em conta em toda a agenda política tanto as realidades locais como regionais como continentais para poder fortalecer as estruturas macro como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), desde movimentos sociais de protesto antineoliberais como governos de construção pós-neoliberal.

A esquerda latino-americana, analisando suas realidades locais, deve buscar tanto uma base mínima continental de pontos em comum e sobretudo a aprendizagem de experiências de um país a outro. O Foro de São Paulo que se celebra entre 25 e 29 de agosto na cidade boliviana de La Paz é o espaço para debater sobre o futuro da integração regional, sendo um dos pontos base que essa integração seja a dos povos e não das mercadorias. Uma Europa alternativa seguirá olhando com binóculos a integração latino-americana para aprender e responder as perguntas expostas na mesa.


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