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Ilkaolivacorado Omar Garcia 1México - Diário Liberdade - [Ilka Oliva Corado] Devo dizer que a Caravana 43, me fez lembrar a Caravana da Esperança, (maio 2013) com que o sacerdote Alejandro Solalinde junto de uma comitiva de mães centroamericanas que procuravam a seus filhos desaparecidos no México também visitaram várias cidades norte-americanas buscando ajuda internacional. Esses migrantes em trânsito que os governos e o sistema obrigam a migrar e que desparecen em território mexicano. Naquela ocasião foi tanta a apati,a e continua sendo quando de migrantes indocumentados se trata. Quem ia imaginar que mal dois anos depois uma Caravana 43 estaria nas mesmas circunstâncias. Em que nos convertemos?


A Caravana 43 arribó a Chicago. O que é a Caravana 43? É uma comitiva de pais dos alunos desaparecidos em Iguala, Guerrero, a 26 de setembro de 2014. Nela viajam alunos da Escola Normal Rural San Isidro Burgos de Ayotzinapa. Outrora famosa por ser a que viu formar-se como docente o legendário Lucio Cabañas. Hoje reconhecida a nível mundial pelo desaparecimento de 43 de seus alunos e os assassinatos de outros.

São três caravanas que estão viajando ao longo dos Estados Unidos, e que têm como objetivo visitar 40 cidades para denunciar com depoimento próprio o acontecido em Iguala. Tive a oportunidade de entrevistar a Omar García, aluno sobreviviente. Foi qualquer coisa de poucos minutos, devido à agenda tão atarefada e o programa a desenvolver.

Devo dizer que é um jovem ao que a audácia se vê até na forma de estar. A você como leitor, peço que faça o mínimo: compartilhe esta entrevista, que mais pessoas se inteirem e se juntem a esta denúncia mundial. Os 43 também são nossos filhos, irmãos, amigos, alunos, igual do que todos esses desaparecidos, todas as crianças, adolescentes e mulheres vítimas dos feminicidios em nossos países.

Crônicas de uma Inquilina, na série Encontros, hoje apresenta Omar García, aluno sobrevivente da Escola Normal de Ayotzinapa, Iguala, Guerrero, México.

Qual é o objetivo principal desta Caravana 43 nos Estados Unidos?

Informar, buscar solidariedade. Que se pressione às autoridades mexicanas, que não podem abandonar o caso porque há muitas irregularidades, ficam muitas perguntas. Muitas dúvidas sobre a versão oficial deles de que nossos colegas foram calcinados. Nós não admitimos por muitíssimas razões.

Que disseram Anistia Internacional e a Corte Interamericana dos Direitos Humanos?

Com eles temos contato do início, eles têm estado pendentes a partir do primeiro dia. Vimos para sensibilizar à população, que entendam que estes organismos devem ter garantias de trabalho livre. Acesso a todos os arquivos da investigação. Que não se lhes pressione nem se coloque qualquer tipo de barreira pelo governo mexicano. Que se abram os expedientes a eles para que ao mesmo tempo emitam recomendações ao governo mexicano sobre que outras coisas tem que pesquisar, para além do que alegadamente já pesquisou. É por isso. Para além disso é um tema muito controversial e importante porque é um dos primeiros que se difundiram tanto a nível mundial, e se não se resolve um problema que foi difundido tanto então muito menos vão se resolver os outros que não têm difusão e que lá estão.

Há milhares de famílias que padeceram o mesmo que nós, não estamos falando de 43 mas de milhares. E todos vêem com esperança que Ayotzinapa possa vir a incidir ou alterar um pouco a questão legal do direito internacional e os acordos que o México tem em matéria de Direitos Humanos mas que não acata. Se não o conseguirmos agora, o fato se vai repetir e continuará como se viu nos últimos anos.

Que organismos internacionais lhes deram apoio aqui nos Estados Unidos? Falo a respeito da Caravana.

Já se teve uma reunião em Nova York, das primeiras faz cerca de duas semanas [eles estão nos Estados Unidos desde o 16 de março, terminam a gira o 24 de abril] com membros da Corte Interamericana, e também com membros das Nações Unidas, da Anistia Internacional. Sim tivemos muitas reuniões e diferentes achegamentos com representantes de coalizões.

E o que disseram, em que eles vão incidir?

Em espalhar, em alargar a mensagem nas comunidades deles, para a gente que ainda se mostra insensível e indiferente perante esta situação. Não é um problema qualquer, não é um capricho de 43 pais que se aferran em não aceitar a morte de seus filhos. É que após isto segue um processo de aplicação da justiça. E a aplicação da justiça que nos oferecem [o estado mexicano] é a dos dinheiros, um ponto final, bolsas... mas sempre nos vão deixar com a incerteza de que foi o que realmente aconteceu.

Não, esse tipo de justiça não a admitimos, no México não há nem sequer uma instituição que se dedique a procurar as pessoas desaparecidas, e ainda nem se atrevem a qualificar o delito como desaparecimento forçado. Querem reduzi-lo a um simples delito comum, a um sequestro, a um assassinato e querem jogar a culpa ao narcotráfico. Não, aí teve responsabilidade do estado mexicano, aqui não há mais. O relator das Nações Unidas insistiu muitas vezes que no México se pratica a tortura generalizada por parte das forças armadas para o povo e as organizações.

Agora há uma disputa do governo mexicano contra esse relator das Nações Unidas e ele volta a dizer sim há desaparecimento forçado, sim há tortura, e o governo mexicano diz "Não, não há". Mais de 200 organizações dizem que sim, menos o governo mexicano. E se vimos aos Estados Unidos é para dizer que aqui há vários tratados econômicos e em matéria de segurança que têm a ver com o que acontece no México. São as causas, o Plano Mérida, por exemplo, que envia armas e recursos ao governo mexicano. Para que? Para que querem armas? Para reprimir o povo? É uma guerra que estão livrando contra o povo mesmo. Estão olhando para dentro, não estão olhando para fora.

Certo. E como se comportaram os consulados com a caravana?

Imprudentes, insensíveis, alguns quiseram estabelecer diálogo mas realmente sabemos que não podem determinar nada em um consulado qualquer em uma cidade. Também nós não nos vamos rebaixar.

Apresentaram-se eles nas passeatas?

Não, nunca. Inclusive em alguns nos foi permitido aos pais estar aí. É uma insensibilidade total fecharam o cerco. Plantam-se na postura do "já estão mortos, regressem para a sua casa, nada têm que fazer". Mas não se dão conta do processo, o resto, como garantir de que o fato não se repita? Nós estamos com vontade de fazer o que esteja a nosso alcance para evitar que se volte a repetir. O governo não está nessa posição.

O estado diz que foi Guerreros Unidos, mas vocês estão buscando que isso se investigue.

O estado não vai investigar o próprio estado. A Procuradoria Geral da República não é uma instituição que possa pesquisar o próprio estado. A Suprema Corte de Justiça manteve-se indiferente, e igualmente não vai fazer.

Por isso precisamos de o Direito Internacional, as leis internacionais, obrigarem o governo mexicano a assumir a responsabilidade dele. A pagar os custos políticos que isto implicar. Não é isso nada mais, a partir daí se têm que criar novas instituições. Nós como pais de família, estudantes, a gente que teve vítimas de desaparecimento forçado são os que têm que fazer uma convocação para que uma nova instituição surja. Não com servidores públicos do governo nem a dedo deles. Temos que chamar a inteletuais, pessoas que estejam disposta a se sacrificar para procurar os mais de 30,000 desaparecidos.

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Os casos de femincidios?

Exato, o caso da creche ABC.

Os migrantes?

Também, ou seja há muitíssimos problemas.

Há três anos veio Alejandro Solanlinde com a Caravana da Esperança, e explicava o tema dos migrantes desaparecidos e a apatia da sociedade mexicana. Como você viu a resposta do povo mexicano com respeito aos 43?

A resposta foi boa em grande parte. Não somente o povo mexicano, há muitíssimas pessoas a nível internacional que estão sensíveis à situação e atentas, disso não reclamamos. O problema é que apesar de todo esse apoio e essa difusão o governo mexicano continua plantado e debochando na cara dos mexicanos. Utilizando helicópteros do estado para uso pessoal. Uma casa branca mesmo. Cheios de recursos.

O apoio da Igreja?

Muito, muitos setores da igreja apoiaram. Os mais recalcitrantes e conservadores obviamente voltaram-se contra o movimento e puseram-se do lado do governo, mas isso é assim. Em verdade angariamos mais apoio do que qualquer um teria imaginado antes. De todos os setores, nós não fizemos distinção, porque isso nos alcança a todos. Com os únicos com os que não nos juntamos é com os partidos políticos. Aí não.

E López Obrador?

Bom, queremos fatos não palavras nem promessas de campanha. Queremos que se aja. Diante de uma situação assim não se pode acreditar em ninguém. Se você perdeu um filho, perdeu um colega, se você viu que o governo os levou e se você sabe o que é o governo, quais instituições formam o governo ou o estado, então sabe que todos estão envolvidos.

Que segue após a Caravana 43?

Esperamos encontrar nossos colegas. Nós não colocamos meta a isto em tempo, colocamos meta em encontro de nossos colegas. Também não queremos passar anos. Também não queremos que nos levem gestão após gestão, que é o mais sabe fazer o governo. Queremos encontrá-los já. E vamos fazer tudo possível para os encontrar. Não vamos parar-nos. Não vamos dar nem um passo atrás.

Qualquer coisa mais a dizer?

Simplesmente dizer a verdade. Apesar de todo o apoio que tivemos também há muitas pessoas indiferente e que começam a repetir o discurso que tem o governo. A dizer "Não, resignem-se. Vão para sua casa e deixem de andar exigindo".

Enfim safados, vocês que são, são pessoas ou que são? Em verdade, que são, por que repetem tão facilmente, por que não mastigam a informação pelo menos antes de a engolir? Por que não se põem nos sapatos de uma mãe, de um pai de família, porra! É que nunca perderam um familiar? De causas naturais é foda, e agora sabendo que foi o governo, sacanagem! Que entendam isso, estamos enojados. Estamos doídos. E não vale que andem dizendo que nós nos dedicamos a outra coisa.

Agora julgam o método, pois nos ensinem de que maneira se faz. Acerquem-se e sugiram. Em verdade nós o que mais queremos é que nos guiem, já não sabemos que fazer, fomos a toda parte, vimos aos Estados Unidos, vamos ir a Europa e à América do Sul. Também vamos procurar melhores formas de fazer as coisas. Porque o que menos queremos é afetar outros, não queremos que se volte a repetir, nem por eles, nem por nós nem por ninguém. Têm-nos que entender a ética que temos, e não vão confundir a ética com os meus palavrões.


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