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Roberto Bitencourt da Silva

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A libertação nacional

Riscos e lacunas no cenário brasileiro

Roberto Bitencourt da Silva - Publicado: Quarta, 16 Março 2016 09:08

Em tese, não haveria motivos para grandes preocupações com a participação de cerca de 4 milhões de pessoas destilando ódios fascistóides nas ruas. Nem mesmo contando com apoio e enorme cobertura midiático-judicial-policial.


A população brasileira supera a casa dos 200 milhões, tornando tímidos os números de aderentes aos protestos reacionários de domingo. Mas, o fenômeno suscita enorme preocupação e receio por conta das motivações abaixo:

1. O governo de um partido que já se autodeclarou como de esquerda está esgotado, sem capacidade imaginativa, sem vontade, sem projeto de país que não seja o mesmo dos partidos mais radicalmente de direita, com diferenças de ritmos, nuances e eventuais bases de apoio.

2. Pululam apelos por uma defesa abstrata das regras institucionais e constitucionais. Uma "democracia" entendida de forma etérea, sem carne, essencializada, tomada como um absoluto pretensamente incontestável, por alguns setores, petistas, abertamente governistas ou apenas contrários ao golpe (obviamente, também sou, mas não me parece a via oportuna).

3. O problema dessa defesa etérea é que não mobiliza praticamente ninguém. Tive a oportunidade de ir a duas manifestações dessa natureza, ano passado. Logo viraram uma saudação acrítica à presidente Dilma. Se compareceram umas 3 mil pessoas no Rio de Janeiro foi muito. Isso não funciona, não sensibiliza a quem tem que sensibilizar e que, realmente, deve jogar papel decisivo nesse terrível imbróglio em que o país se encontra.

4. Especialmente o "povão", que recebeu alguns benefícios durante alguns anos de governos Lula/Dilma – mesmo que tímidos e muito distantes das possibilidades do PIB brasileiro –, precisa ser sensibilizado. Na esteira da significação dada pelo grande Darcy Ribeiro, por “povão” me refiro à ampla maioria da classe trabalhadora brasileira, sem sindicato, sem redes de solidariedade coletiva e politização. Os precarizados, com baixos salários, no regime celetista de trabalho, desempregados ou subempregados, hoje beneficiários do Bolsa Família.

5. O “povão” só pode ser mobilizado por meio de ações práticas pelo PT e pela presidente Dilma. Ações que permitam algum efeito imediato: denúncia escancarada dos inimigos do povo – seus nomes, suas técnicas e interesses. Há que se descortinar a pauta subterrânea dos agrupamentos e personagens golpistas, que visam, entre outros, rasgar garantias coletivas estabelecidas na Constituição, bem como reduzir os direitos trabalhistas. A cadeia nacional de rádio e TV está aí à disposição da Presidência, para viabilizar um contraponto à narrativa dos conglomerados de mídia.

6. Ademais, a apresentação de iniciativas de governo que ao menos atenuem a recessão presente seria de grande valia. Poderia guardar algum recurso mobilizador. Melhor ainda se combinadas com as referidas denúncias públicas. Sem qualquer iniciativa concreta do governo federal, abdicando de qualquer trabalho político-pedagógico que assinale os conflitos de classe do momento, os riscos para o país e o povo, está certo, o "povão" mesmo assim não vai topar adesão aos protestos fascistóides – como não tem aderido desde o ano passado.

7. Só que a tendência óbvia a prevalecer é um consentimento passivo e desalentado com um desfecho visível da destituição arbitrária da presidente da República. A depender apenas do sistema político e da estrutura de poder nacional e internacional, a presidente já pode se considerar destituída. Por isso, a importância mobilizadora do povo. Só que este, sem nada em vista, igualmente não fará nada, apenas se ajeitando para aguentar o rojão, como a sua própria experiência costumeira de vida duramente ensina.

8. Quase 14 anos de governos petistas, com toda a conciliação com o grande capital internacional e nacional, submetidos a muitas e justificadas críticas pelas esquerdas, infelizmente, até hoje, as mesmas não conseguiram alinhavar uma ação conjunta, institucional ou extra-institucional. Não possuem uma agenda comum programática para o país, com temas centrais a disseminar e debater publicamente. Praticamente não saímos das esferas sindical e estudantil. As esquerdas não possuem, pois, referencialidade popular e nacional.

Os 4 milhões de teleguiados e fascistas, oriundos das classes médias e burguesas, sobretudo de São Paulo, não me preocupariam, não fosse a evidente tendência a converterem suas ideias entreguistas, culturalmente obscuras e ultraprivatistas em uma cosmovisão hegemônica, sem qualquer contraponto ideológico e político substantivo.

Blog do Roberto Bitencourt.


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