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Ilka Oliva Corado

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Crónicas de uma inquilina

Guatemala à deriva

Ilka Oliva Corado - Publicado: Terça, 15 Março 2016 15:45

[Tradução de Camila Lee] No meu lindo país (mas não digo isso pela sociedade que tem), acontece de tudo. O horror, o espanto, o inacreditável e o inadmissível são parte do dia a dia. Um país em decadência, que afunda cada vez mais, com uma sociedade que não tenta sair da mediocridade. Um estudante universitário que tem como único objetivo velar pelo seu próprio bem, se desconectando do coletivo. Massas amorfas que fingem consequência política e, no final das contas, estão fincadas, oferecendo o voto a um lacaio, ensaiando as suas preces para a Semana Santa.


Tudo isto como consequência da indiferença, do fanatismo religioso, da ignorância, da falta de vontade e da comodidade. Não me importam os demais se eu estiver bem. A Guatemala está à deriva por causa da preguiça de não utilizar o critério próprio, o raciocínio, nem sair da própria zona de conforto. Por procurar sempre a sombra e o melhor lugar para se sentar, por esperar receber a comidinha na boca, fingindo que não está entendendo, e por ser cúmplice na corrupção em pequena e grande escala, seja de forma ativa ou assoprando com o nosso silêncio.

Graças à nossa falta de interesse, existem essas bobeiras de congressistas que fazem com as leis um rolo de papel higiênico. Deputados que, como reflexo de um sistema patriarcal, racista e misógino, excluem das reformas eleitorais as mulheres e a população indígena. Fazem dos nossos direitos a maior piada, digna da medíocre Huelga de Dolores (greve de Dolores) da Universidad de San Carlos. Esse estudante, que é bom para os trotes de início de ano, mas incapaz de fazer do pensamento analítico uma arma contundente, que acorde aqueles que ousam se vangloriar com a sua alma mater.

Onde está a consequência política do estudante da Universidad de San Carlos? Onde está o arco reflexo que é o responsável de converter o pensamento em ação? Que incidência possui dentro da sociedade? Quando é que o estudante da Universidad de San Carlos enfrenta, dá a cara e alça a voz por aqueles que estão marginalizados dentro do sistema? Onde está a ação daqueles cartazes que os estudantes das universidades privadas levavam com orgulho nos dias de manifestação contra a corrupção? Pomposos, gritavam perante as câmeras de televisão que tinham se metido com a geração errada. Outros pularam as grades e gritavam que eram a geração da mudança. Onde está a mudança, nem que seja o seu indício?

Em um país tão pequeno como a Guatemala se vive os maiores infernos: ataques contra os ônibus, corpos desmembrados lançados no meio da rua em sacolas de plástico, meninas que parem antes de fazer 14 anos como consequência de violações ou de casamentos forçados com homens que são três vezes mais velhos que elas. Feminicídios e assassinatos aos montes. Crianças que morrem de fome. Secas e contos fictícios de águas milagrosas que curam e livram os contagiados dos maus espíritos. Nesse país geograficamente tão pequeno, os motoristas de ônibus são assassinados com a finalidade de manter a população atemorizada. 

Um sistema de educação no qual não se investe, pois nenhum governo está interessado no desenvolvimento integral dessa infância abandonada à sua própria sorte. Um presidente que pensa que é iluminado e que faz do chauvinismo a sua melhor armar para adormecer ainda mais essa sociedade hipócrita e de duas caras que está a favor da pena de morte, mas contra o direito ao aborto. Desde qualquer ângulo, o que se vê é uma Guatemala que se desmorona. Como sociedade, somos os únicos culpáveis por permitir que nos desrespeitem, por sermos nós os que desrespeitamos os nossos idosos e os que acabam de vir ao mundo; estamos desrespeitando a nós mesmos. Por sermos preguiçosos, acomodados, oportunistas e apáticos.

É agora que as praças do país deveriam estar lotadas de manifestantes por causa do desrespeito do presidente e dos congressistas. Pela violência institucionalizada. Pelas crianças violadas, os motoristas assassinados, os corpos desmembrados e o pouco (ou nulo) investimento em educação e saúde. Pelo ecocídio constante. Pela opressão aos defensores de Direitos Humanos. As razões para sair às ruas e sacudir as praças existem e são infinitas. Não temos motivos para culpar nenhuma ingerência dos Estados Unidos no país porque, se votaram em Jimmy Morales ( e na oligarquia), lhe deram o sinal verde. Pois aqueles que votaram para que este sistema neoliberal continuasse assinaram a nota fiscal. Aqueles que se negaram a ir por uma Assembleia Nacional Constituinte Integral e deter as recentes eleições também têm a responsabilidade. Continuaremos alimentando um estado falido?

Pois, agora, é hora de nos responsabilizarmos da consequência desse voto e dessa indiferença. A sociedade guatemalteca é uma sociedade em constante retrocesso. Resta-nos algo de dignidade?


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