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Miguel Urbano Rodrigues

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Em coluna

Marcelo Quiroga Santa Cruz - revolucionário puro e grande escritor

Miguel Urbano Rodrigues - Publicado: Sábado, 23 Janeiro 2016 19:10

É muito raro mas acontece. Há escritores que entraram no Olimpo da literatura tendo publicado apenas um ou dois romances. Um exemplo: o príncipe siciliano Giuseppe di Lampedusa (1896-1957), autor de Il Gatopardo [1], obra póstuma. Outra exceção foi o mexicano Juan Rulfo (1917-1986), pioneiro do realismo mágico, com a novela Pedro Páramo.[2] Caso similar é o do boliviano Marcelo Quiroga Santa Cruz (1931-1980). Conheci Marcelo Quiroga em La Paz em Outubro de 1970. Fomos amigos.


O general Juan José Torres tinha tomado o poder após um golpe militar. Respirava-se uma atmosfera de revolução na capital da Bolívia quando Augusto Montesinos - El Canalla, personagem de um livro meu - me levou a casa de Marcelo.

- Quero que o conheças. Vale a pena.

E mais não disse.

Ele morava então num apartamento muito confortável, mas não luxuoso. Nas paredes havia quadros de pintores bolivianos e um desenho de Picasso. O bom gosto e a sensibilidade do proprietário estavam presentes na sobriedade dos móveis do salão.

Marcelo tinha o porte de um aristocrata espanhol do século de ouro.

Trocamos impressões sobre o governo de Torres.

Citou Marx durante a conversa. A sua linguagem impressionou-me. Escolhia as palavras cuidadosamente. Falava pontuando.

Reencontrei-o semanas depois em Santiago numa festa em casa do poeta brasileiro Tiago de Melo. Representava o seu partido, o Socialista, na posse de Salvador Allende.

Nessa noite falamos muito, sobretudo da Bolívia. Ele acreditava que Torres iria realizar uma política progressista, rompendo a tradição, mas não confiava no frágil apoio do exército.

Dois anos depois voltei a estar com ele, também em Santiago. Era um dos muitos bolivianos que pediram asilo ao Chile apos o golpe militar de Hugo Banzer em Agosto de 1971.Visitou-me no hotel e depois convidou-me para almoçar na casa onde vivia com a mulher e os dois filhos. Cristina era uma jovem muito bonita; falava pouco, mas ouvia o marido com devoção.

A nossa conversa incidiu sobretudo sobre a América Latina. Marcelo encarava com algum ceticismo o futuro do governo da Unidade Popular chilena e temia a intensificação da ofensiva do imperialismo num contexto em que as teses da guerrilha rural tinham perdido credibilidade apos a trágica morte do Che na Bolívia.

Revi-o em 1973, ainda em Santiago. Amílcar Cabral tinha sido assassinado semanas antes. Recordo que a descolonização africana foi o tema principal desse reencontro. Surpreendeu- me a sua formação humanista e a vastidão inesperada dos seus conhecimentos sobre a História da Africa subsaariana.

O golpe de Pinochet fermentava nos bastidores e, quando ocorreu, Marcelo Quiroga e a família refugiaram-se na Argentina, onde a convite de Perón foi professor de Ciências Politicas na Universidade de Buenos Aires.

No Brasil eu recebera, enviado por um amigo, um livro seu, editado em La Paz em 1959, Los Deshabitados[3]. Era uma novela, o que estranhei, pois não o imaginava voltado para a literatura.

Tremendo erro. Tão grande que somente hoje, transcorridos quarenta anos, tomei consciência de que Marcelo Quiroga era desde a juventude um grande escritor, um dos mais importantes da América Latina.

Não conservo a menor ideia da minha reação ao ler a novela. Sei que escrevi sobre Deshabitados uma recensão que foi publicada na revista literária Crisis, de Buenos Aires. Perdi o recorte. Na memória apagou-se a recordação desse artigo. Mas sinto vergonha ao imaginar o que Marcelo Quiroga terá pensado então de mim.

Ele não fez referência à minha desastrosa recensão quando almoçamos em sua casa, num subúrbio da capital, no dia do funeral de Perón. Foi amistoso, tratou-me como amigo do seu povo e camarada estimável.

Devo ter lido Los Deshabitados em diagonal. Não percebi que era uma obra-prima literária.

Não voltei a encontrar Marcelo Quiroga. Rompeu-se o contato quando voltou a La Paz em l977, clandestinamente, para reorganizar o Partido Socialista.

A opção de classe

Marcelo Quiroga nasceu em Cochabamba numa família abastada da classe dominante.

Seu pai, José Quiroga, foi administrador da Patiño Mines, de Simon Patiño, o multimilionário rei do estanho.

Marcelo recebeu uma educação de qualidade nos melhores colégios. Estudou Direito em Santiago do Chile e formou-se em Filosofia e Letras na Universidad Mayor de San Andrés em La Paz onde ocupou posteriormente as cátedras de Ciências Politicas e Historia Universal da Literatura.

No exilio foi também professor de Economia Politica na Universidade Nacional do México. Tinha adquirido como académico e intelectual revolucionário um grande prestígio em toda a América Latina.

Foi um dos fundadores do Instituto dos Economistas do Terceiro Mundo e participou em Washington como membro da delegação latino-americana num seminário sobre a Politica Hemisférica, em Paris, na Sorbonne, do Congresso de Americanistas; e em Caviat, na Jugoslávia, de uma reunião internacional para Análise do Socialismo Cientifico.

Publicou centenas de artigos em jornais da América Latina, da Europa e dos Estados Unidos.

Los Deshabitados

Em 1957 escreveu a novela Los Deshabitados que guardou na gaveta durante quase dois anos. Quando decidiu publicá-la em 1959 numa modesta edição passou desapercebida. Nem os seus amigos mais íntimos tiveram a perceção de que esse livro, bem após a morte do autor, seria considerado pela crítica um clássico da literatura latino-americana. Na opinião de Jorge Luis Borges e de Gabriel Garcia Marquez é uma das melhores novelas latino-americanas da segunda metade do seculo XX.

Na minha primeira leitura não me apercebi, repito, de que tinha em mãos um grande livro. É um daqueles que em que cada página, quase cada paragrafo, deve merecer uma atenção concentrada. Parece monótono, mas não é.

Quando a crítica internacional, décadas depois, descobriu a importância de Los Deshabitados, e dezenas de trabalhos académicos foram dedicados ao seu estudo, surgiram opiniões contraditórias sobre as influencias que Marcelo Quiroga refletia na obra.

Houve quem citasse Camus e Sartre, e até Kafka. Marcelo era um leitor apaixonado da grande literatura francesa e do grande checo, mas essas opiniões não têm fundamento.

Los Deshabitados é uma novela sem ação. A técnica narrativa é a de Joyce no Ulisses. No texto da contracapa Marcelo escreve que o livro nasceu de um estado de melancolia e o seu «conteúdo argumental é insignificante».

À medida que se avança na leitura surgem em cadeia personagens cujo discurso revela uma solidão inultrapassável. São fechadas, caminham sem alegria na fronteira da incomunicabilidade. A cidade onde vivem não tem nome, mas fica transparente que é uma urbe provinciana, talvez na Bolívia. Não há descrição de paisagens, de interiores. O importante é o que se passa na consciência das personagens, como em Proust e Virgínia Woolf. O Padre Justiniano sabe que pisa a fronteira da heresia. Durcot, aspirante a escritor que teme a aventura da escrita (nunca escreveu) e Maria, sua namorada, toleram-se com desprezo, sem se amarem. Ele chegou a admitir a opção pelo sacerdócio para fugir ao nada. Mas é agnóstico, desconhece Deus e prescinde dele.

«Não nos habita sequer uma dúvida» - diz a Justiniano- «estamos desabitados».

Flor e Teresa, as duas idosas irmãs, arrastam uma existência triste, vegetativa, rumo à morte. Acabam por se suicidar.

Dois adolescentes, Pablo e Luis, são a exceção nesse aquário humano de gente vazia. Trocam o primeiro beijo na busca ainda distante e incerta do sexo e do amor. Ambos destoam da asfixiante atmosfera envolvente.

O revolucionário ético

Conheci poucos revolucionários tão puros como Marcelo Quiroga. Eles me trazem à memória dois amigos maravilhosos, ambos comunistas: Henri Alleg e Georges Labica.

Um dos biógrafos de Marcelo Quiroga, o escritor Adolfo Cáceres Romero, afirmou que a sua vida foi «um modelo de virtudes e sacrifício». Faço minha a opinião.

A revolução democrática e nacional boliviana de 1952, que levou à Presidência Victor Paz Estenssoro (que logo a traiu), contribuiu para uma reflexão profunda do jovem Marcelo. Mas a sua rutura com o meio social a que pertencia não foi imediata. Eleito deputado pela primeira vez, como independente, pelo Partido Democrata Cristão, utilizou a tribuna parlamentar para combater a ditadura do general René Barrentos. Foi então, alvo de um atentado; cassaram-lhe o mandato, foi preso e deportado para a região selvática do Alto Madidi.

Em 1969, quando o presidente Ovando lhe confiou o ministério de Minas e Petróleo, já era marxista. A sua decisão de nacionalizar a Gulf Oïl foi encarada em Washington como desafio intolerável.

No ano seguinte demitiu-se quando Ovando deu uma guinada à direita; fundou então, com um grupo de intelectuais, o Partido Socialista, com um programa claramente revolucionário.

Apoiou desde o início o governo progressista do general Juan José Torres e lutou nas ruas contra o golpe de estado de Hugo Banzer.

Somente regressaria à Bolívia, clandestinamente, em 1977, para reorganizar o seu Partido Socialista.

Eu acreditava, com alguma ingenuidade, que Marcelo Quiroga seria um dia Presidente da Bolívia. Foi três vezes candidato, a última em 1980. Mas obteve sempre votações inexpressivas.

Nesse mesmo ano, quando resistia na Central Obrera Boliviana - COB ao golpe militar do general narco traficante Garcia Mesa foi barbaramente assassinado pelos paramilitares do coronel Luis Arce.

Ao receber a notícia em Portugal, recordei o amigo e o revolucionário com afeto e emoção.

O descobrimento do grande escritor tardou muitos anos.

Foi prodigiosa a evolução do novelista de Los Deshabitados para o revolucionário que aprendi a admirar. Continuo a ter dificuldade em acompanhá-la.

No seu espólio foi encontrado o manuscrito de uma novela Otra vez marzo. Deveria ser parte de uma trilogia. Foi publicada postumamente. Não tive a possibilidade de a obter.

A ponte entre o pessimista proustiano e joyciano e o lutador que adquire uma confiança inquebrantável no povo como sujeito da História é muito difícil de atravessar. Marcelo conseguiu.

Fernando Pessoa lembrou que «é possível «viver uma vida desapaixonada e culta, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta per estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das emoções e do pensamento. Só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos.» (in Livro do Desassossego, pag.70).

O jovem escritor de Los Deshabitados poderia ter seguido por esse caminho. Mas dele se desviou. Marcelo, consciente do mistério da breve aventura da vida, compreendeu que, para lhe conferir significado e dignidade, o intelectual que recusa o sistema deve lutar pela transformação das sociedades modeladas pela engrenagem opressora do capitalismo. E soube fazê-lo exemplarmente.

Notas:

[1] GIUSEPE DE LAMPEDUSA, O LEOPARDO, Editorial Teorema,256 páginas, Lisboa.

[2] JUAN RULFO, PEDRO PÁRAMO, Fundo de Cultura Económica, México.

[3] MARCELO QUIROGA SANTA CRUZ, Ediciones Los Amigos del Libro, 214 páginas, La Paz, 1980-2ª Edicion.

Fonte: O Diario.


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