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Paulo Marçaioli

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Batalha das Ideias

“Presença de Althusser” – Márcio Bilharino Naves (Org.)

Paulo Marçaioli - Publicado: Sexta, 05 Fevereiro 2016 11:40

Resenha do Livro – “Presença de Althusser” – Márcio Bilharino Naves (Org.) – Coleção Ideias 9 – Instituto de Filosofia de Ciências Humanas – Unicamp.


“O grande interesse político e teórico da Revolução Cultural é o de constituir uma solene evocação da concepção marxista da luta de classes e da revolução. A questão da revolução socialista não é resolvida com a tomada do poder e a socialização dos meios de produção. A luta de classes continua sob o socialismo, em um mundo submetido às ameaças do imperialismo. É então, antes de mais nada, na ideologia que a luta de classes decide a sorte do socialismo: progresso ou regressão, via revolucionária ou via capitalista”. “Sobre a Revolução Cultural”. Louis Althusser. Cahiers Marxistes-leninistes nº14 1966 Trad. Márcio Bilharino Naves. 

Resenha dedicada ao camarada Vinícius Gonzaga que gentilmente me presenteou com um exemplar deste livro.

Quem tem medo de Louis Althusser? Esta cogitação certamente tem uma aplicação direta dentre a maior parte dos intelectuais que se reivindicam marxistas aqui no Brasil. Como se sabe, dentro desta tradição, são muitas as distintas leituras da obra de Marx que irão resultar em respectivas vertentes com suas particularidades. Pois Louis Althusser, filósofo marxista francês, abre toda uma nova e original interpretação do pensamento de Marx que se choca com a hermenêutica dominante dentre os marxistas brasileiros. Grosso modo, o ponto central da polêmica está  na interpretação dada às obras do jovem Marx.

Desde pensadores influenciados pelo pensamento de G. Lukács, particularmente o chamado grupo dos  intelectuais do Rio de Janeiro como Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder, e em oposição à Althusser, esta linha interpretativa buscará sempre encontrar uma solução de continuidade entre as obras de juventude e de maturidade de Marx. Lembramos que em sua juventude, como jovem hegeliano, as principais cogitações de Marx perpassam problemas da filosofia, sendo caro a este grupo de filósofos temas como a Alienação, por exemplo. Ao encontrar esta solução de continuidade, esta proposta de interpretação acaba de certa maneira coadunando com um Marx humanista, o que irá ter implicações políticas importantes, que não desenvolveremos mas apenas apontaremos, que é a da defesa da tese da democracia como valor universal em “Coutinho” e uma epistemologia refratária a uma orientação científica. Em sentido oposto, Althusser entende haver um corte epistemológico dentre as obras de juventude e de maturidade – poderíamos situar “ A Ideologia Alemã”  (1846) com seus conceitos originais de materialismo histórico, ainda que num momento ainda embrionário, como fase de transição decisiva, de salto para a obra de maturidade, a que possui os elementos constitutivos de Marx em sua plenitude que é o “Capital”.

“Presença de Althusser” é a reunião dos seguintes artigos referentes ao pensamento do teórico marxista francês. “O itinerário de Althusser” de Nicole Thévenin que faz um rápido inventário das mudanças ao longo do tempo do próprio pensamento do Althusseriano dentre os anos 1960-70; “A teoria da ideologia de Althusser” de Francisco Sampedro, lembrando como Althusser avança e aprofunda o conceito de ideologia, dentre outros, se utilizando mesmo das contribuições de Freud e Lacan; “Ideologia jurídica e ideologia burguesa – ideologia e práticas artísticas” de Nicole Thevenin, que remete à importância da ideia de Sujeito de Direito para conformação da sociedade capitalista; “O que significa “ciência da história” de Maria Turchetto; “Althusser, Spinoza e a temporalidade plural” de Vitorino Morfino em que se discorre sobre algumas ideias de filosofia da história e suas interfaces frente ao pensamento de Spinoza; “Sobre Gramsci e Althusser como críticos de Maquiavel” – Danilo Enrico – e aqui o autor busca identificar pontos em comum e as diferenças nas análises dos dois autores; “Althusser e a revolução cultural chinesa” de Márcio Bilharino Naves, uma breve introdução ao texto de Althusser sobre a RC e  “Sobre a Revolução Cultural” – Louis Althusser – texto escrito em 1966 francamente apoiando a RC como uma necessidade interna da revolução chinesa no sentido de não fazê-la regredir ao capitalismo.

É compreensível que intelectuais não concordem com a interpretação original das obras de Marx feita por Althusser. Mas como explicar o verdadeiro silenciamento a que tem sido exposta a obra de Althusser, ao menos aqui no Brasil? Não temos notícias de publicação de algumas das obras fundamentais deste pensador em língua portuguesa e a exposição de suas ideias apenas dá-se através do árduo trabalho militante e desinteressado de alguns intelectuais. E as críticas que se faz a Althusser quando não são sobre suas teses, costumam ser no mínimo superficiais. Fala-se por exemplo que suas obras são herméticas, seu texto é inacessível e é portanto meramente academicista. Ora por estes critérios, poderíamos selecionar passagens do Capital ou Grundrisse e fazer o mesmo tipo de ponderação e ninguém deixará de lembrar que Marx fundou a 1ª internacional e jamais foi um academicista. Outros falam da tragédia pessoal envolvendo Althusser e sua companheira. Trata-se aqui de um critério moral que escapa à análise da obra. Mais uma vez sabemos por meio de correspondências que Marx teve lapsos de racismo diante do seu genro Paul L., cubano e mulato, e nem por isso cogitamos desconsiderar as suas teses.

Althusser tem certamente muito a colaborar e a acrescentar ao marxismo. Podemos partir com o conceito de ideologia. Até então ideologia significava algo bastante simples, além de um signo negativo. A ideologia é o conjunto das ideias e interesses da classe dominante que surgem junto às demais classes como se fossem de seu interesse, ou como se fosse de interesse universal. Assim, na sociedade capitalista, quando se fala em “Liberdade” comumente está se falando em um conceito ideológico, ou seja, na liberdade da burguesia contratar força de trabalho e extrair mais valia e na liberdade do trabalhador ora morrer de fome ora vender sua força de trabalho.

Ora para Althusser a ideologia passa a assumir um sentido muito mais complexo. Em primeiro lugar o filósofo se ocupar das fontes da ideologia, ele se pergunta de onde elas vêm, qual a sua origem e daí cria um conceito fundamental, os Aparelhos Ideológicos do Estado.

Ademais, Althusser observa mesmo efeitos mais sutis da ideologia.

“Se toda função social da ideologia se resumisse no cinismo de um mito (como as “belas mentiras” de Platão ou dos técnicos da publicidade moderna) que a classe dominante fabricaria e manipularia de fora para enganar aqueles que ela explora, a ideologia desapareceria com as classes. Mas como vimos que, mesmo no caso de uma sociedade de classes a ideologia é ativa sobre a própria classe dominante e contribui para modelá-la, para modificar as suas atitudes para adaptá-las às suas condições de existência”. Louis Althusser, A favor de Marx, Rio de Janeiro, Zahar, 1979, p. 208.

Como colocamos no início desta resenha, o medo de Althusser certamente envolve mais do que discordâncias pontuais dentro da análise do pensamento de Marx. São motivos que envolvem questões de fundo, o próprio método marxista, aqui devendo ser encarado como uma ciência. Extrair esta verdade com todas as implicações é algo que a maior parte das organizações de esquerda que se colocam como marxistas provavelmente não poderão ou não terão interesse em fazê-lo. Mas sempre é preciso dizê-lo, e com ênfase nestes tempos de total confusão teórico-metodológica: marxismo-leninismo é uma ciência, dentre outros, uma ciência da história.


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