Os camponeses pobres, sem terra, ou com propriedades até 5 hectares (6,2 milhões de pessoas) são 42,6% da população e quase metade são mulheres. Os latifundiários, 1% da população, detêm 77% da terra. 32% da população é pobre, 15% vive em pobreza extrema e sofre de desnutrição. A maioria não tem acesso à educação, sendo o Paraguai o detentor do mais elevado índice de analfabetismo do continente americano. O quadro é semelhante no que se refere a cuidados de saúde.
Em 2006 começaram a constituir-se no norte do Paraguai, principalmente nas regiões que nos últimos 50 anos têm sido bastiões das lutas camponesas (Concepción, San Pedro Caaguazú), grupos de autodefesa formados por militantes clandestinos e jovens camponeses porque, segundo um dirigente rural de San Pedro, "até há pouco os camponeses apenas se defendiam dos atropelos, só faziam denúncias por rádio ou através de organismos de direitos humanos. Porém, o Ministério Público desvalorizava essas denúncias e nunca se fazia justiça." Dos grupos de autodefesa à criação nesse mesmo ano do EPP, Exército do Povo Paraguaio, que começou por desenvolver acções para recolha de armas e dinheiro, foi um pequeno passo. Depois, em Março de 2008, passaram a incendiar as máquinas agrícolas dos latifundiários e a raptá-los, só os libertando em troca de grandes quantias e da distribuição de alimentos a famílias pobres. Em Dezembro começaram a realizar atentados e a atacar postos militares e de polícia.
O EPP declara-se como uma força de autodefesa armada justificada pelas continuadas perseguições e execuções de que são vítimas os camponeses sempre que tentam reivindicar. Diz-se ideologicamente inspirada pelo marxismo-leninismo, pelo "nacionalismo latino-americanista" e pelos seus pioneiros paraguaios, como Gaspar Rodrigez de Francia e Francisco Solano López.
Carmen Villalva, que com o seu companheiro Alcides Oviedo se encontram presos há seis anos (cumprem uma pena de 15 anos de prisão, seguida de mais três de "medidas de segurança" por terem sequestrado a latifundiária Borbón de Bernardi), é a porta-voz da guerrilha. Foi ela quem em 2009 reivindicou, a partir da prisão, o primeiro atentado do EPP na capital, Asunción, com a colocação de um carro bomba (que não foi detonada) no interior do Palácio da Justiça.
A região onde actua o EPP é também aquela em que o actual presidente, o ex-bispo Fernando Lugo, seguidor da teologia da libertação e simpatizante do chavismo, teve maior apoio nas eleições que o catapultaram para a presidência, em 2009. Esse apoio traduzia a esperança, tanto dos camponeses pobres – garantido com o compromisso do candidato presidencial de que realizaria, urgentemente, uma reforma agrária nos termos acordados entre ele e os representantes dos camponeses – como da generalidade da esquerda paraguaia: finalmente algo ia mudar e começariam a ver as suas reivindicações atendidas.
Bastou um mês para que as ilusões se desvanecessem. Chegado à presidência, Lugo desculpou-se com a actividade da guerrilha para quebrar os compromissos eleitorais. Depressa se entendeu com o ex-presidente narcotraficante da Colômbia, Uribe e, em nome do combate ao narcotráfico e ao terrorismo, começa a militarização do norte do Paraguai, com a polícia a entrar nas aldeias, a assaltar casas, a agredir, torturar e assassinar camponeses desarmados mas referenciados como comprometidos com a luta pela terra e contra a pobreza.
Com os ataques do EPP aos aquartelamentos, a repressão intensifica-se e, com ela, a guerra suja. Em Janeiro de 2009 é assassinado em Colonia Hugua Nanú, em Concepcion, Martín Ocampos Páez, director da rádio comunitária que funcionava numa escola construída pela comunidade. Segundo denúncia do Bispo de Concepción e de médicos independentes, também os restantes detidos pelos militares, policiais e oficiais de justiça foram brutalmente torturados, tendo ainda sido executado o dirigente camponês de Itakyry Juan Ramón Gonzalez. Ainda no mesmo mês, foram sequestrados e torturados, em Curuzú del Hierro, seis camponeses. Como noutras ocasiões, foram acusados de dar apoio logístico ao EPP, apesar de Lugo saber que a maior parte dos presos eram dirigentes históricos dos camponeses, como Sindulfo Aguero, que lutou contra Strossener e, selvaticamente torturado, perdeu um olho. Agora, com mais de 70 anos, continua lutando e está preso com a sua filha sob a acusação de "ser simpatizante da guerrilha".
José Vilalba, dirigente camponês muito popular em Concepción, foi detido ao abrigo das medidas de excepção decretadas pelo governo. Está acusado de ser colaborador do EPP. Depois de o prenderem metralharam-lhe a casa, aterrorizando a sua família.
São vários os membros do EPP assassinados. Em Abril, Severiano Martinez, que se encontrava escondido numa mata de Agua Dulce, Alto Paraguai, foi preso pela polícia, que o torturou e executou. O mesmo aconteceu a Gabriel Zárate, que fazia trabalho político na sua terra natal, Sidepar. Quando o prenderam trazia uma espingarda M16 que tinha sido roubada em Tacuarí. Foi executado na madrugada de 13 de Setembro. Segundo o irmão, eram visíveis as marcas da tortura.
Apesar da apertada vigilância policial e da militarização, cerca de um milhar de camponeses acompanharam o funeral do guerrilheiro.
Em Maio deste ano, mais de 300 militares assaltaram a 27ª Esquadra de Hugua Nandu, em Concepción, quando perseguiam Magna Meza, um membro do EPP. Os militares, que pareciam drogados, metralharam o posto de polícia e agrediram os polícias, tal como às cozinheiras, tendo mais tarde pedido desculpas.
LUGO E O GOVERNO COLOMBIANO
A primeira coisa que Lugo fez quando tomou posse foi ir à Colômbia ratificar acordos de segurança. A cooperação militar com a Colômbia havia-se iniciado a pedido do Ministério da Defesa paraguaio em dificuldades para conter a guerrilha, dada a longa experiência das autoridades colombianas contra as FARC.
Desde então os militares colombianos têm enviado instrutores e executado operações militares no Paraguai.
Paradoxalmente, durante a campanha eleitoral, Lugo denunciou este tipo de relações, pelo que a sua mudança de opinião só se pode entender como uma cedência às pressões do imperialismo norte-americano, aliás na linha do que Chavez também vem fazendo no sentido de aplacar a ira do todo-poderoso vizinho do norte. Lembremos a repetida condenação das FARC e da luta armada, ou a entrega de mais de 20 guerrilheiros e militantes do ELN e das FARC às autoridades colombianas, havendo igualmente pressões do governo espanhol para que faça o mesmo relativamente a membros ou ex-membros da ETA a residir na Venezuela.
Quando chegou ao poder, Lugo não só ratificou os acordos que antes condenara, como viajou até aos EUA para discutir o assunto. Depois, com a chegada de Juan Manuel Santos à presidência da Colômbia, voltou a ratificar os acordos e aceitou o apoio militar de Israel e dos EUA.
