Em 1905 o time do Bangu era formado por cinco ingleses (Frederick Jacques, John Stark, Willlian Hellowell, W. Procter e James Hartley) , três italianos (César Bocchialini, Dante Delloco e Segundo Maffeo), dois portugueses ( Francisco de Barros, modesto guarda da fábrica conhecido como Chico Porteiro, e Justino Fortes) e um brasileiro ( o operário negro Francisco Carregal - em destaque na foto).
O jornalista Mário Filho, autor do imprescindível O Negro No Futebol Brasileiro - livro que reputo tão importante para entender o Brasil como um Casa Grande e Senzala ou um Raízes do Brasil - verificou um detalhe significativo na foto da primeira equipe banguense. Dos onze jogadores, o mais bem vestido era exatamente o negro Francisco Carregal. A beca do malandro impressionava.
O fato é que Carregal foi um pioneiro na história do futebol do Rio de Janeiro. Não há referência anterior a ele de um negro e operário - Carregal era tecelão da fábrica - praticando o violento e então elitista esporte bretão em terras cariocas. Cercado de estrangeiros, todos eles brancos, Carregal caprichava na beca para diminuir o impacto de sua condição de negro praticante de um esporte de almofadinhas, fato compreensível naquelas primeiros tempos do pós-abolição.
Creio que o traje requintado de Carregal pode ser comparado ao esmero com que se vestia, nos anos de 1930, o sambista Paulo da Portela, sempre de gravata e sapatos. Paulo sabia que, naquele contexto, o negro precisava conquistar um espaço que só viria com um comportamento firme e exemplar. O branco tinha o salvo-conduto da cor da pele. O buraco, para o negro, era mais embaixo.
Alguns meses depois de sua fundação o Bangu colocava, sem restrições, operários e negros no time, misturados aos mestres ingleses. Enquanto o Fluminense e o Botafogo não conceberiam isso tão cedo, a equipe banguense abria suas portas para outros jogadores como Carregal, a exemplo do goleiro Manuel Maia, um goalkeeper crioulo retinto. É claro que também há, nesta questão, uma estratégia patronal, que via na permissão da prática do esporte aos operários uma maneira de atenuar conflitos sociais e trabalhistas latentes.
Foi também o time da fábrica que aboliu a distinção entre os torcedores nos estádios. Na maioria dos campos de futebol, os pobres ou mal ajambrados não podiam assistir aos jogos nas arquibancadas, espaço reservado aos distintos e posudos chefes de família, jovens promissores e raparigas em flor. Ao poviléu cabia um espaço separado, logo chamado de geral, que distinguia, segundo um jornal do início do século, a platéia dos espetáculos, sempre bem trajada e ocupando o espaço nobre no field, do torcedor comum. O Bangu cometeu, desde o início, a bendita ousadia de não compartimentar o público de seus jogos em espaços separados.
Independentemente de análises sociológicas que não interessam a esse espaço, resgatar um pouco dessa trajetória do Bangu serve também para quebrar o mito de que o primeiro clube carioca a aceitar negros e operários foi, na década de 20, o Vasco da Gama. O time da cruz de malta foi, e é fato incontestável, o primeiro dos quatro grandes do Rio a aceitar em seus quadros os negros e operários. Clubes ditos pequenos, porém, faziam isso desde o início do século XX, como é o caso do pioneiro - esse sim! - Bangu de Francisco Carregal e dos suburbanos times do Esperança e do Brasil.
O Bangu foi, por exemplo, campeão carioca da segunda divisão em 1911 com quatro negros e seis operários na equipe. Entre 1907 e 1909 o time preferiu manter os negros no elenco e se afastar da Liga Metropolitana de futebol, em virtude de uma mensagem racista enviada ao clube que dizia o seguinte: "Comunicamo-vos que o Diretório da Liga, em sessão de hoje, resolveu por unanimidade que não sejam registradas como atletas pessoas de cor".
Que se louve o Bangu. O time de Moça Bonita, afinal, também tem - e como tem! - a sua história.
Luiz Antonio Simas é professor de História.
