Como a senhora avalia a resposta do governo Calderón à chacina de imigrantes em Tamaulipas?
Somente se nota o cinismo e a dificuldade do governo com o fato. Afirmar que o episódio aconteceu, pois o cartel de Los Zetas está recorrendo à extorsão e ao sequestro de imigrantes como mecanismo de financiamento e recrutamento ou, como diz o novo porta-voz do gabinete de segurança, Alejandro Poiré, que isso acontece devido à 'uma luta feroz e sumamente violenta entre os cartéis do Golfo e Los Zetas, o que provocou um aumento substancial da violência no noroeste do país', faz parecer que o governo atua tão bem que essas organizações enfrentam uma situação muito adversa para obter recursos e encontrar voluntários.
Mas eu me pergunto: que tipo de explicações são essas? Se é assim, então por que o Executivo não põe os integrantes dos cartéis atrás das grades, já que eles não têm outros recursos além do sequestro e da violação de mulheres? Quem pode acreditar que esses cartéis estão arrasados economicamente, quando a verdade é que a falta de autoridade e a absoluta ingovernabilidade do país permitem que o crime organizado atue no tráfico de drogas e também amplie sua cadeia delitiva ante a total impunidade e corrupção?
Quais ações o governo pretende aplicar a partir de agora?
Uma das linhas consiste na celebração de convênios específicos de colaboração com os governos dos estados por onde passam os migrantes. Outra será a implementação de um plano operacional com informações de inteligência para desarticular as redes de tráfico de pessoas. A terceira será reforçar a vigilância nas vias férreas. A quarta medida será estabelecer um plano de comunicação para prevenir, informar e conscientizar sobre os perigos de se cruzar o país rumo à fronteira com os Estados Unidos. Por fim, serão implementados mecanismos de apoio a vítimas estrangeiras de diversos crimes.
Mas tudo se trata de pura propaganda. Como serão implementados? É uma cortina de fumaça que cobre um sistema de impunidade e corrupção por parte do Estado, que favoreceu o aumento da violência nos últimos anos. Surgiu um vazio de Estado no gerenciamento do processo imigratório através do país, e o vazio foi preenchido pelos narcotraficantes, que agora são os que controlam direta ou indiretamente o tráfico migratório. O que me chama a atenção é que se fale desses massacres como algo novo e surpreendente. Lamentavelmente, o que aconteceu com os imigrantes em nosso país não é novo, como observou a Comissão Nacional de Direitos Humanos em 2006.
Frente à reação internacional em torno da tragédia em Tamaulipas, o governo se viu obrigado a apresentar uma proposta em tempo recorde. Há potencial para mudanças substanciais?
Creio que tudo voltará a ser como antes. Na verdade, só foi possível falar do problema em âmbito internacional porque um dos imigrantes sequestrados, ao contrário do que todos imaginavam, se salvou e contou sua história. Mas a cada dia, inclusive neste exato momento, enchem-se valas comuns das quais não saberemos nada. E isso resulta da política de criminalização de um governo que, em vez de proteger esses cidadãos estrangeiros que só querem passar pelo país, os torna vulneráveis e os deixa nas mãos da criminalidade. E ninguém mais sabe deles.
Muitos suspeitam que não foi casual a prisão de Édgar Valdéz Villareal, 'La Barbie'. Capturam um dos bandidos mais sanguinários sem disparar um tiro de fuzil enquanto no ano passado tiveram de travar uma batalha para matar outro narco, Arturo Beltrán Leyva. Somos muitos os que acreditamos que a crise de ingovernabilidade do Executivo é enorme e que estão sendo apresentadas apenas medidas publicitárias para limitar os danos. Para o bem de meu país e dos imigrantes, espero estar equivocada, mas até agora não vi nenhum sinal positivo.