Para começar o texto, devo esclarecer que não confio na política institucional como canalizadora das demandas sociais. Minha crença é de que falta responsividade às instituições políticas estabelecidas, sendo necessária uma sociedade civil organizada que pressione o Estado e confronte os interesses que permeiam essas instituições.
Dito isso, gostaria de refletir sobre as posições do PSOL e do PV nesse segundo turno eleitoral. Ambos declararam posições independentes, com a diferença que o PSOL definiu o mote 'nenhum voto a Serra'.
Para muitos, não declarar apoio a Dilma foi um erro por parte dos partidos. A crítica é de que é preciso marcar posição contra o perigo iminente da volta do demo-tucanato ao poder, e, com ele, o horror ao povo, a criminalização dos movimentos sociais e suas pautas, as privatizações, além do retrocesso em vários pontos aonde o governo Lula teria avançado, sendo o principal deles a suposta distribuição de renda promovida pelos 8 anos de PT.
Pessoalmente, devo dizer que concordo com essa análise. Pra mim, nada pior que Serra no poder nesse momento. Mas não concordo com a idéia de que a independência é o mesmo que lutar ao lado de Serra.
Quando o PSOL anunciou sua independência, com a ressalva de 'nenhum voto a Serra', deixou clara sua coerência ideológica. O PSOL é um partido de esquerda (porque, para mim, extrema esquerda é o PCO) que, para manter-se nessa condição do espectro político, preferiu não se manifestar a favor de Dilma. Para combater Serra, não necessariamente precisamos subir no palanque petista, e devemos lembrar que somos oposição aos dois candidatos.
Porém, não fazemos oposição igual aos dois governos. Randolfe, senador do PSOL eleito pelo Amapá, pontuou de forma brilhante, dizendo que 'tenho diferenças com Dilma, mas antagonismos com Serra'. Quando o PSOL indica o 'voto crítico' em Dilma, ele indica justamente isso: Dilma não é o governo dos nossos sonhos, mas Serra é o dos nossos pesadelos. Portanto, a posição independente do PSOL indica que a posição do partido é a de derrotar Serra, acima de tudo. Assumir esse compromisso, sem nenhum afago programático, sem nenhum compromisso da campanha petista de cumprir alguma agenda do PSOL, repito, é um pronunciamento de coerência ideológica, simplesmente. É o interesse, de acordo com o que pensa o partido, que mais atende ao povo brasileiro.
Já o PV tem uma outra concepção de independência. Pelo que consta nos noticiários, tanto Serra, quanto Dilma aceitaram mudar diversos pontos em seus programas de governo para seduzir o PV. O que não é digno de nenhuma surpresa, a estupefação de petistas e tucanos com os quase 20 milhões de votos de Marina Silva foi grande. Enfim, até compromissos com cargos em um futuro governo de qualquer das partes foi feito, ao que parece. Ainda assim, o PV (e a messias-salvadora-toda-poderosa Marina Silva) se posicionou pela independência.
A diferença é simples: o PV não optou pela independência para se manter ideologicamente coerente. A intenção do PV é exatamente a de não se comprometer, e não comprometer sua provável futura adesão ao próximo governo, de quem quer que seja. Um exemplo cabal que demonstra a verdade do que eu estou dizendo: o partido postergou sua decisão em quase três semanas. Se a decisão fosse feita por uma plenária nacional, por 800 delegados, vá lá. Mas parece que eles levaram quase três semanas para mobilizar 80 delegados da cúpula do PV. Esperaram para ver se as pesquisas já estariam confirmando alguma coisa, coisa que, como vemos, não aconteceu. Aí, de fato, é melhor optar pela indiferença. Os compromissos, eles já arrancaram dos dois candidatos. Alguém duvida de que a fatura será cobrada?
A opção de independência do PV é a opção pelo fisiologismo, pela 'velha política'. Justamente aquela velha política que a Marina tanto criticou e se colocou o tempo todo como alternativa. E agora está ela, a namoradinha do Brasil, se sentido devassada pela sanha de apoio de Dilma e Serra, se sentido ultrajada pelo pique do PV em entrar nesse jogo.
Essa campanha já me enojou pelo seu falso moralismo e por sua falta de debate sério. O último tópico tem sido essa revolta do 'se não está ao nosso lado, está contra nós'. Na verdade, mal posso esperar pra que tudo isso passe e possamos, enfim, voltar a discutir política.