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Manuel Márquez

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Em coluna

Que não vos roubem a memória: Fraga morreu sendo um franquista (fascista)

Manuel Márquez - Publicado: Quinta, 19 Janeiro 2012 01:00

Manel Márquez

Ontem (15J) morreu Manuel Fraga Iribarne, eu como homem de esquerda, o que reclamo é verdade, justiça, reparação, dignidade e, com certeza, não desejo a morte a ninguém.


E digo-o sabendo perfeitamente que Fraga jamais teve a mais mínima compaixão com suas vítimas. Foi um carrasco exemplar e, até o último dia de sua existência, defendeu o regime franquista (mais um fascismo) do qual fez parte como ministro.

Foi-se sem ser julgado. Agora queriam julgá-lo na Argentina, já que em Espanha, num regime de democracia limitada, foi impossível. De facto, o juiz Garzón, pelo qual não tenho a mais mínima simpatia, dado o nefasto papel antidemocrático que jogou na luta contra o terrorismo da ETA; será julgado por tentá-lo e inclusive, não duvidem que condenado, pois a depuração dos órgãos de judiciário, nem existiu, nem existirá neste país enquanto não tivermos democracia e república.

Esta manhã, todos os meios jornalísticos do capital, como diria o amigo Pascual Serrano, levantaram-se neutros, equidistantes e uma minoria moderadamente críticos e contemporizadores. Uma vergonha de jornalismo, uma vergonha de cidadãos livres, uma indignidade depois de outra. Estes tipos acham que a morte converte as más pessoas em boas e os assassinos em democratas de toda a vida. Assim nos corre tudo!

Olhem só, como historiador que coordenei o Projecte per à recuperació da memòria històrica da lluita antifranquista de Terrassa, 1939-1979. Combat pela llibertat (2005-08), (realizado com o apoio do Ajuntament de Terrassa, Comissió cívica, CEHT e o Memorial Democràtic da Generalitat de Catalunha) [2], não penso aderir ao coro de carpideiras e dizer, como um neutro mais, Fraga é um democrata é um dos "Pais da Constituição". Eu vou lembrá-lo e convido a que vocês também façam isso comigo, como colaborador necessário de um governo criminoso, que não duvidou em mandar para a prisão, torturar e assassinar milhares de cidadãos, entre eles, os lutadores antifranquistas da minha cidade e de todas. Sinto-o, mas para mim e para todos os homens e mulheres dignos, que ficam neste país, Manuel Fraga foi, é e será sempre um fascista que participou de um regime genocida criminoso e desumano do que jamais renegou. Por isso quero mostrar todo meu desprezo para a sua figura e a de todos esses criminosos que ainda hoje agachados nos ramagens desta democracia limitada, não condenaram a ditadura fascistas de Franco e nada fizeram por devolver a dignidade aos assassinados e desaparecidos sob o regime franquista.

Pessoas que nos dizem que esqueçamos, que esqueçamos sem julgamentos e sem justiça, os crimes do franquismo, que esqueçamos as nossas gentes sepultadas em valas desconhecidas ou em buracos macabros erigidos por criminosos organizados sob as bandeiras de um Estado e suas instituições. Indivíduos que desonrando as suas fardas militares derrocaram o regime legalmente constituído e que hoje, após muitos anos, ainda continuam sem condenar esse golpe de estado contra a democracia que representava a República espanhola. Muitos deles, no poder neste momento, estão exigindo a outros que não cometeram nem uma milésima parte dos seus crimes. Quanta indecência, quanta ignomínia, quanto miserável ao serviço dos poderosos, por ação ou por omissão.

Olhem, senhores publicistas, que trabalham de porta-vozes dos seus amos e, que têm a dignidade pelo chão, saibam que nós não esquecemos e esse senhor de quem, nestes dias e anos, vão ser servos e engrandecer como democrata exemplar que não é. Não lhes vou relatar todas as indecências dele, só lembrar alguns crimes com os que teve relacionamento direto: Julián Grimau, Pedro María Martínez Lazer, Francisco Aznar Clemente, Romualdo Barroso Chaparro, José Castillo... E, claro, não esquecemos que Fraga, não faz nem uma década, disse: "a melhor parte do país foi a que se alçou no 18 de julho" ou "os golpistas do 23-F estavam carregados de boa vontade". Vocês escrevedores adestrados, miseráveis escreventes, esqueçam estes factos, esqueçam-nos e farão carreira, mas peçam ao céu que nós nos esqueçamos de vocês e que num futuro verdadeiramente democrático não os levemos perante os tribunais.

Estes que hoje choram e louvam o franquista (fascista) Fraga, nada fizeram por recuperar a história da luta antifranquista. Na sua cómoda equidistância querem fazer-nos julgar que tem a mesma qualidade moral um assassino nazista ou fascista, que sua vítima; tanto faz ser um SS que uma menina judia do ghetto. Pois não, não é o mesmo. O franquismo, foi um regime criminoso similar ao nazismo alemão ou ao fascismo italiano. E suas vítimas, que foram assassinadas, torturadas, perseguidas, encarceradas ou despedidas, têm direito a um reconhecimento, social e institucional; a uma reparação, moral e material e a que os Tribunais de Justiça pesquisem os factos e apliquem a legislação e os acordos internacionais. De maneira que todos os responsáveis sejam julgados e condenados. Mas como bem sabemos, nem o falecido, nem o partido dele, nem o novo governo, nem o anterior, nem os jornalistas do regime... nada fizeram nem farão para que isto aconteça.

Nós, dos meios alternativos, nos nossos livros e nos nossos liceus e escolas, não difundiremos o ódio, pois este é contrário à verdade e à justiça, mas tenham por certo que não permitiremos que as novas gerações ignorem o que foi a ditadura franquista, a sua repressão e o atraso social, económico e cultural que esta impôs a um país destruindo a República, o primeiro regime democrático da história de Espanha.

Mas, que podemos esperar de um jornalismo feito ao serviço do poder, um jornalismo profundamente monárquico que esconde o caráter franquista desta instituição. Espanholista até a medula, que tem como único objetivo destruir qualquer tentativa democrática de defender os direitos nacionais dos povos que compõe o Estado espanhol. Criminalizando todas suas aspirações políticas e apoiando a vulneração dos direitos democráticos mais elementares. Uns meios que só servem a uma parte, que são absolutamente tendenciosos e que repetem como papagaios os comunicados de imprensa das instituições. Incapazes de refutar ou pôr em dúvida a palavra das forças de segurança do Estado ou de suas instituições.

No âmbito internacional, sempre aliados das grandes potências capitalistas e imperialistas, dispostos a esmagar os governos populares, progressistas de todo o mundo. A babejarem perante o poderio militar dos EUA, dispostos a apoiarem as suas loucuras imperialistas, for bombardeando países, justificando invasões ou dando pábulo ao seu invento do chamado terrorismo global.

Em definitivo, vocês não têm vergonha e não travam a mão de quem os alimenta e, esta não é outra, que a do capitalismo criminoso e desumano. Defendem-no a ferro e fogo, deixando a verdade numa caixa, que é onde gostariam de meter-nos aos dissidentes que não engolimos as vossas mentiras, pois somos homens e mulheres livres.


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