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José Borralho

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Desassossegar

A grande esperança

José Borralho - Publicado: Terça, 24 Agosto 2010 12:44

José Borralho

A classe operária, as pessoas de esquerda, os povos em geral viveram (vivemos) um século de grandes combates, de grandes sonhos e transformações políticas e sociais, de afirmação de novos valores emanados de uma ideologia à dimensão da humanidade emancipada, em suma, um século em que tudo parecia exequível na transformação dos sonhos em realidade. Mais de um quarto da humanidade proclamou de armas na mão o fim do sistema opressor e lançou mãos a construir o ideal igualitário.


Homens e mulheres, autênticos heróis da história da humanidade, ultrapassando os limites do inimaginável, deram um contributo decisivo para pôr fim ao odioso fascismo e ao usurpador colonialismo. Os burgueses de todo o mundo tremiam ao ouvir o nome que avassalava os novos tempos: comunismo. Os nomes dos seus arautos estavam na boca de todos – Marx, Engels, Lenine, Staline, Mao – e eram o expoente da inspiração para a construção do novo mundo para os povos e para os lutadores idealistas, utópicos e anticapitalistas convictos, e o terror para os opressores.

A correlação de forças pendia claramente para o lado dos oprimidos, que, cheios de orgulho, construíam e viam nascer algo que a humanidade não conhecera até então: novas relações de produção sem os antigos senhores a usurpar a riqueza criada por milhões de proletários.

Todos sabiam que a tarefa era ciclópica, mas ousar começar a construção de um mundo livre da peste da exploração foi a maior realização jamais tentada em qualquer tempo da história da humanidade. Honra e glória mil vezes aos feitos heróicos de milhões de comunistas e pela bravura das massas exploradas e oprimidas. O sangue vertido na causa maior não pode ter sido em vão: nada se perde, tudo se transforma e relaciona.

O saldo de toda a luta heróica dos comunistas, do proletariado e das massas trabalhadoras pela conquista de uma nova aurora é tristemente conhecido de todos e, para a compreensão dos fenómenos que estiveram na origem dessa tragédia maior do século XX, recomendo a todos os comunistas e estudiosos da questão, o livro de Francisco Martins Rodrigues Anti Dimitrov, meio século de derrotas da revolução1 -que quanto a nós, representa um rigoroso contributo (com os limites de ter sido escrito cinco anos antes do colapso do mundo dito socialista) para o seu esclarecimento à luz do marxismo-leninismo.

O cerne da sua explicação para as derrotas da revolução assenta na ideia segundo a qual o desenvolvimento da pequena burguesia nas sociedades modernas, na União Soviética industrializada e nos países dependentes fez surgir em grande força o ascendente político e ideológico desta classe sobre o proletariado, e daí partir para submeter os interesses revolucionários do proletariado e a sua independência política aos seus interesses de nova classe exploradora em ascenso. Nos partidos e no Estado ela é igualmente a classe que predomina.

Como é do conhecimento geral, existem hoje todo um conjunto de tentativas de justificação dos fracassos da revolução e da construção do socialismo, das quais se destaca o site "Para a história do socialismo"2, que ensaia outro tipo de abordagem à temática, ficando a meio caminho, (quanto a nós), entre o marxismo e o revisionismo.

Segundo o dito site, teríamos a situação bizarra de ver dissolvida a Internacional Comunista porque os partidos comunistas já estavam bastante fortes e seria desnecessário um centro da revolução mundial. Esta disposição partiu da iniciativa de Staline, Dimitrov, etc. Quanto a nós, do ponto de vista dos interesses da revolução, esta dissolução deu alma grande às posições de direita, fomentou o nacionalismo na União Soviética, e representou uma cedência ao imperialismo, que berrava que os comunistas queriam tomar o poder.

Também segundo o site "Para a história do socialismo", o que se passou na União Soviética não foi fruto do aparecimento de novas classes que passaram a disputar o poder, mas tão-só da traição de uns quantos indivíduos com Krutchov à cabeça. De uma assentada, iliba Staline de qualquer culpa e nega a luta de classes.

Este posicionamento centrista, francamente, não é nada novo! Foi com base nestes pressupostos que em Portugal nasceu a chamada corrente marxista-leninista à qual pertencemos durante algum tempo.

Não é com duas penadas que se resolve um problema de dimensão universal e que afectou as vidas e os ideais de centenas de milhões de seres humanos, e por isso, aos camaradas que se impacientam com tanta discussão sobre o passado dizemos: enquanto não tivermos esclarecido a totalidade dos fenómenos negativos que contribuíram decisivamente para a queda da primeira tentativa de construção do socialismo no mundo não dormiremos tranquilos porque poderemos estar a dar à luz outros monstros, e sempre em nome do marxismo que, pelos vistos, tem as costas muito largas. Chega de oportunismos e de pomposos marxistas de pacotilha.

Para os revisionistas da escola krutchovista, as coisas até não são muito complicadas, e, segundo o seu ponto de vista, bastaria apagar esse troço da história entre Krutchov e Gorbatchov, ter um bocado mais de atenção às manobras do imperialismo, aos problemas de direcção, do afastamento entre os quadros e as massas, e o mundo continuaria a girar à velocidade de cruzeiro a caminho do comunismo: nada menos!

Não admira que, (como se nada se passasse), Miguel Urbano Rodrigues se nos apresente lacrimoso a dizer-nos que as FARC são uma espécie de pombinhas da paz que só praticam o bem. Para quem se considera marxista é muito pobre, isto parece mais catequese do que opinião marxista. Parece que a luta de classes é assim uma espécie de luta dos bons contra os maus. As FARC ou são lutadores pelos ideais libertadores do proletariado, por uma sociedade sem exploradores, e fazem uma profundíssima autocrítica pelas concepções de poder herdadas da sua longa ligação à antiga URSS, ou, ao assumirem o poder, transformar-se-ão em algozes dos oprimidos.

O que se passa actualmente é que partidos que deitaram borda fora a ditadura do proletariado e os métodos revolucionários de luta abraçaram a colaboração de classes e a transição pacífica; sentindo-se órfãos desde a queda dos amigos da URSS, assumem-se hoje como os campeões da luta pelo socialismo e a ditadura do proletariado: autocrítica em relação ao seu passado reformista e admirador do capitalismo de Estado, nada. O papel consente tudo o que lá queiramos escrever.

É o caso do partido grego (em parte do português) e mais uns quantos recauchutados. Quando vamos analisar as suas políticas concretas, é só beijinhos e abraços às camadas não monopolistas. Que é feito da autocrítica sobre o (passado/presente) revisionista? Quando a esmola é grande, o pobre desconfia!

Quem tinha dúvidas de que a revolução está bloqueada do lado dos antigos partidos comunistas pode agora, ver ao vivo e a cores, através da sua intervenção na profunda crise capitalista que o mundo vive, e que se abate implacável sobre os trabalhadores. Amorfismo e propostas colaborantes para sair da crise.

Quanto ao Bloco de Esquerda, por estarmos a falar do assunto comunismo, não tem cabimento chamá-lo a prestar contas ou criticá-lo: está fora da ordem de trabalhos.

O que espera a corrente comunista revolucionária, dispersa por grupos e grupinhos, para dar passos decididos que a conduzam à união em torno de um programa comunista?

Notas

1) Anti-Dimitrov-1935/1985-meio século de derrotas da revolução, Editoras: Dinossauro e Abrente.

2) www.histsocialismo.com.


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