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José Borralho

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Desassossegar

Duas crises

José Borralho - Publicado: Sábado, 17 Julho 2010 02:00

José Borralho


Saudamos todos os comunistas que de forma colectiva ou individual enfrentam com coragem o capital, que está desenvolvendo uma feroz ofensiva contra o proletariado e os seus direitos, em particular por toda a Europa. A crise do capitalismo pode ser o momento em que o sistema pode começar a sofrer reveses, e em que as forças revolucionárias podem unir forças em torno de uma alternativa socialista para toda a Europa.

As revoluções proletárias/camponesas, democráticas nacionais e populares, de libertação nacional, todas sem excepção, sucumbiram face às dinâmicas do desenvolvimento capitalista. Quem tinha dúvidas sobre a quem serviu a acumulação primitiva de capital e o acelerado desenvolvimento das forças produtivas tanto no país dos sovietes como na China popular, pode hoje, à distância, verificar e aferir pelos resultados atingidos. Por muitos sacrifícios que o proletariado fez em nome do comunismo, todo o seu esforço foi entregue às classes em ascenção: os directores das empresas estatais, os quadros altamente qualificados, o aparelho burocrático do estado, os aparelhos do partido e as hierarquias militares.

Os últimos estertores do chamado socialismo de estado, podemos encontrá-los em Cuba, (apesar do respeito que nos merece a sua firmeza anti-imperialista), na China, no Vietname e na Coreia do Norte, onde, só uma retórica pseudo marxista encobre a realidade política e ideológica de regimes em que o proletariado está afastado do poder, e só por ironia se auto-proclamam socialistas: são regimes de capitalismo de estado onde a mais-valia prduzida pelo proletariado é aplicada de acordo com os interesses e as necessidades da classe dirigente. Tal qual como se processou durante dezenas de anos na ex União Soviética até ao seu colapso total, de que resultou um capitalismo selvagem e desenfreado.

Capitalismo e mais capitalismo em abundância, foi o produto das revoluções do século XX, e não admira por isso, que os partidos e correntes de pensamento defensoras daquele "socialismo"de estado, mergulhassem de cabeça numa profundíssima crise ideológica, arrastando consigo amplos sectores do proletariado e da intelectualidade de esquerda. Crise, que alguns tentam disfarçar, através de um activismo economicista sem qualquer perspectiva revolucionária. Basta ler os seus programas estratégicos, limitados a uma perspectiva desenvolvimentista totalmente desenquadrada da realidade, da experiência histórica e das necessidades vitais do proletariado.

Em Portugal, a política do PCP para a acção imediata, (além de rejeitar as medidas do PEC) que é o mínimo exigível de quem se diz comunista e defensor dos trabalhadores, o que se encontra são ténues lamentações sobre a ausência de medidas que defendam as actuais empresas nacionalizadas, (que no essencial já têm maioria de capitais privados, caso da PT etc), façam crescer a economia, promovam o desenvolvimento e garantam a soberania nacional. Apesar de deterem a maioria no movimento sindical as suas acções desenvolvem-se no mais escrupoloso respeito da legalidade burguesa, acções contidas sem nenhuma perspectiva de radicalização, dóceis face ao poder.

No plano estratégico, aparece o socialismo através de eleições, o pluri-partidarismo, uma economia mista e outros reformismos do mesmo género. E por aqui se fica o "marxismo-leninismo" do PCP que não retirou uma única lição do processo de degenerescência da URSS a quem apoiou até ao último minuto.

Dos partidos da escola do revisionismo moderno, que parecem estar a fazer algum esforço para sacudir a crise de conciliação de classes, e enfrentar com dignidade combativa as forças do capital, sobressai o KKE que, através de um sindicalismo combativo, rejeita as medidas de austeridade e a própria União Europeia, ao mesmo tempo que coloca ao proletariado o problema do socialismo como uma bandeira de luta alternativa ao capitalismo. Saudamos este esforço e esta luta do KKE e desejamos-lhe êxitos. São eles o porta-bandeira das posições de luta mais avançadas em toda a Europa. Embora digamos que: sem condenarem inequíocamente todo o processo da chamada construção do "socialismo" na URSS a partir dos anos trinta, e aí detectar a larva do revisionismo,- o centrismo- todos os avanços estarão comprometidos, porque a auto-critica não pode nunca ser formal.

Ex maoistas e trotskistas unidos no Bloco de Esquerda, refutaram toda a política revolucionária e empreenderam a grande aventura da luta pelas grandes alternativas económicas no quadro do capitalismo. Ampliar o seu campo de ação numa luta feroz ao sectarismo de vistas estreitas. A lógica desta organização parece ser: "o partido centralizado foi a causa de autoritarismo; abaixo o partido! Lenine foi a causa de uma revolução voluntarista soviética, ditatorial; abaixo Lenine viva a democracia."

A doce mansidão da democracia sem sobressaltos nem confrontos de classe, um suave passeio parlamentar no remanso dos debates civilizados, na certeza de que, o capitalismo será condenado pela história, mais tarde ou mais cedo. Ao que chegou a crise da esquerda!

Outros apostam no caudilhismo presidencial ou militar de esquerda, e visitam regularmente o barómetro das medidas de esquerda que pouco a pouco vão aproximando o socialismo e remetendo o capitalismo ao silêncio e à defensiva. - (e o Chile de Pinochet ainda tão fresco na memória de todos os povos).

É intrigante e preocupante ver personalidades de esquerda embrulhados nesta lógica do socialismo gradualista, mas não há dúvida de que a crise do pensamento da esquerda é muito forte, as ilusões penetraram por todos os poros.

Marx e Engels avançaram para a 1ª Internacional com o proletariado como a sua classe revolucionária. Hoje, um caudilho militar de esquerda, propõe a 5ª internacional em nome de que classe?

A crise da esquerda foi fruto da luta de classes desenvolvida permanentemente no sistema capitalista, que, por sua vez se apresenta hoje ao mundo em profunda crise.
Quanto a nós, o capitalismo entrou na recta final da sua existência como sistema económico, o que não equivale dizer que a sua morte está anuciada para breve, mas esgotou a sua capacidade de redistribuição. A exploração do homem pelo homem deste bárbaro sistema, está a espalhar fome, miséria e desemprego por todo o mundo, e vai intensificar essa via na medida em que a sua crise se agrava.

O capital apresenta-se ao mundo com o seguinte plano:

Manter a taxa de lucro a todo o custo aumentando brutalmente o nº de desempregados que regatearão entre si a venda da sua força de trabalho.

Dado o práticamente nulo crescimento económico, liquidar o máximo de concorrentes no mercado.

Reduzir drásticamente os salários, os subsídios e os outros direitos sociais.

Acabar com o Estado Social recorrendo às privatizações e à liquidação dos organismos de proteção social.

O capital não tem pátria nem coração. Se, para sobreviver for preciso endurecer e fascizar os regimes, não exitará em fazê-lo.

Cabe aos comunistas desenvolver plataformas de luta, encontrar pontos comuns para avançarem para a unidade de pensamento, de acção e de organização para estar à altura do momento histórico porque passa a luta de classes, e levantar a bandeira da luta pelo socialismo como alternativa real ao capitalismo.


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