Queriam então uma unanimidade nacional em torno de um homem de causas fracturantes? Não é possível, simplesmente porque este homem esteve de um dos lados da barricada, impossível o consenso.
Isto percebeu, desde Cavaco Silva até à santa sé, contra a vontade de alguns "ingénuos"que bramaram contra a mesquinhez dos ausentes nas cerimónias fúnebres de José Saramago.
O Saramago é das suaves planícies alentejanas e dos rostos suados e queimados, que ele viu levantados do chão com os punhos no ar, e a serena dignidade de quem acaba de assistir ao parto de uma criança.
É da Palestina, que a soberba arrogante e sionista transformou num campo de concentração fascista, que os seus olhos viram e a sua coragem denunciou.
Inclinado para as profundidades do pensamento, e como quem não quis que nenhuma palavra dita ou escrita fosse inútil, Saramago incumbiu cada uma das suas personagens principais de transmitir ao mundo uma ideia, que, escorrendo, transformou ribeiros em rios e em mares tumultuosos. Assim procedeu com Jesus Cristo a quem humanizou, roubando-o para sempre à religião que o quer idolatrado, e assim prosseguiu com Caim, a quem encarregou de dar a conhecer ao mundo um deus tirano, vingativo e caprichoso, até transformá-lo definitivamente num comum mortal à imagem e semelhança de qualquer tirano deste mundo. E isto, a santa sé não lhe perdoou, acusando-o, no dia imediato ao da sua morte, de extremista e materialista histórico, sem nenhuma admissão metafísica!
Por Saramago ter percebido tão bem os interstícios da metafísica em que se movem as religiões e os deuses, e os males que daí advém para o livre pensamento dos homens e das mulheres, é que ele travou uma batalha de morte com o obscurantismo metafísico e religioso que sempre foi e é um ópio anestesiador.
Levantado do chão até à hora da sua morte, José Saramago era um daqueles homens que qualquer ser humano digno desse nome gostaria de ter tido como amigo, porque ele falava e sentia paixão quando falava dos outros homens, das suas grandezas e misérias, da pequenez mesquinha dos poderosos a quem amiúde classificava com o grau de bestas, e da grandeza que descobria no ser humano comum a quem considerava seu semelhante. E foi isso que José Saramago foi: um homem comum a quem a vida ensinou mais que a muitos outros, e o demonstrou através da palavra escrita nos seus livros e inúmeros textos que espalhou pelos jornais com a sua opinião normalmente certeira.
Os lobos uivaram quando Saramago morreu, e os seus amigos e semelhantes deixaram fluir os sentimentos de gratidão e de perda por alguém do Povo que ombreou com os maiores da escrita de todo o mundo, um autodidacta que fez empalidecer muita da intelectualidade pretensamente esclarecida e estabelecida no sistema perpétuo segundo o qual as elites saem das cátedras da burguesia, e só elas têm o acesso ao saber.
A inteligência como arma fatal dos pobres contra os poderosos, a lucidez herética e o ateísmo convicto em oposição ao obscurantismo, a coragem de não calar a verdade e denunciar este mundo capitalista em que vivemos e que torna os homens algozes e carrascos dos outros homens, propiciaram a José Saramago a escrita de livros magníficos que serão para sempre monumentos de inspiração do lado de cá do mundo: deste lado da barricada que um dia há-de brilhar, ofuscando o lado negro do mundo que ele combateu.
José Saramago morreu deixando para trás um mundo em crise. Um mundo cheio de perplexidades a que ele próprio não escapou.
Este homem, que outrora simpatizou com a causa comunista, tendo aderido ao PCP, assistiu ao colapso da União Soviética e de todo o chamado socialismo real, nome com que eram conhecidos os regimes de capitalismo de Estado e que o seu partido, com Álvaro Cunhal como secretário-geral, sustentou até ao estertor final, sem uma crítica, sem um esboço de autocrítica. Este terramoto político e ideológico seguramente angustiou José Saramago!
O que o levou a considerar as FARC (seus camaradas), como meros "bandos armados" e a condenar publicamente a liquidação de três contra-revolucionários em Cuba, em oposição frontal ao seu partido?
O que fez com que José Saramago fosse o primeiro subscritor de um abaixo-assinado que, em conjunto com Pina Moura, Barros Moura, José Luís Judas (a chamada terceira via) reclamava mais democracia no partido dirigido por A. Cunhal?
Nesta lógica se inseriu o seu apoio a Rodrigues Zapatero para primeiro ministro do Estado espanhol e o seu apoio a António Costa para a Câmara de Lisboa.
Estou em crer que a queda do "socialismo soviético" e o desmoronar interno das conquistas do processo revolucionário de Abril em Portugal produziram no grande escritor que era José Saramago o cepticismo quanto à capacidade de resposta da esquerda aos grandes problemas políticos e de ideais que o nosso tempo nos coloca.
São enormes os problemas que temos pela frente, mas há um ensinamento nos livros e na vida de Saramago que podem ajudar os comunistas a superar a sua crise: se um homem só conseguiu fazer tremer a santa sé, muitos homens, com a sua força, conseguirão derrotar o sistema de exploração do homem pelo homem.
Termino com o último verso de um poema de José Saramago:
...mas a ruiva madrugada no fim da ponte aparece.