As duas questões centrais em torno das quais vem girando o devir político e económico nos últimos tempos vêm demonstrar que a suposta modernidade democrática e social atingida pelo Reino de Espanha nos últimos 30 anos, tem pouco que ver com uma visão objectiva do que é esta frágil união (forçada) de nações, e muito que ver com as teses que fizeram do apelido de Nicolás Chauvin um ridículo apelativo, bem inserido no pensamento espanholista do antedito período. Isto é, a crença narcisista, quase que paranóica e bem mitómana, de que Espanha é um Estado de modélica e consolidada democracia, muito moderno e com uma sociedade madura que vive numa situação muito próxima do ideal da igualdade. Já não fica lugar para tal chauvinismo.
As duas questões a que me refiro têm a ver com a suspensão do juiz Garzón e com as medidas de ajusteo do socialista Zapatero. No primeiro dos casos, a causa contra o mais que censurável vulto desmonta de vez o mito da Transição exemplar, para reforçar a tese mantida pelo analista mexicano de La Jornada, José Steinsleger, que fala de que o único que a tal Transição fez foi modernizar o fascismo espanhol, ou adaptar aos tempos (1). "Pode-se brincar com a corrente, mas não com o macaco", escrevia num artigo destes dias, fazendo referência ao poder que ainda mantêm os herdeiros daquele regime que deitou por terra a última obra realmente democrática dos povos das Hespanhas, a II República. "Nem Hitler nem Mussolini desfrutaram de quatro décadas que, com a vénia de Washington e Deus, Franco teve para fuzilar, torturar e condenar os seus próprios cidadãos a trabalhos forçados", conclui Steinsleger.
No segundo dos casos, o das antissociais medidas de corte de Zapatero para fazer ao mito do défice do Estado -diz o economista Juan Torres López (2), que segundo as teses neoliberais o défice público tem que estar abaixo dos 3 por cento sempre, sem existir nenhuma análise científica que demonstre que isto é melhor que estar abaixo dos 2 por cento, dos 7 por cento ou de quaisquer outros-, demonstra-se que neste "modélico" Reino, os intocáveis continuam sendo os mesmos, os possuidores das maiores fortunas, os padres e os militares.
Todos os economistas contrários ao capitalismo liberal coincidem em assinalar que as medidas mais apropriadas para "ajustar" o orçamento do Estado deveriam apontar para a fiscalidade das grandes fortunas, os obscenos gastos militares e claro, o quadrinho esse que na declaração do IRPF mantém a situação privilegiada da Igreja no Estado espanhol. Assusta por exemplo comprovar, que os aproximadamente 15.000 milhões que quer poupar Zapatero para satisfazer o Banco Central Europeu e o FMI, se arrecadariam só, como declarava entre outros Arcadi Oliveres a Público (3), incluindo o gasto pendente do avião de combate Eurofighter (10.795 milhões até 2024); retirando as tropas do Afeganistão, Líbano e Somália (750 milhões); eliminando os professores de Religião dos centros públicos (650 milhões); e não dando opção a marcar o quadrinho religioso na Declaração da Renda (250 milhões).Trinta anos para nada.